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Três Acusações

Hume era Ateu, Herético e Cético?

Apresentação

É curioso como funcionam as acusações na filosofia. Se, por um lado, elas são sempre injustas, caricaturais, preconceituosas; por outro, elas mostram aquilo que um pensamento tem de disruptivo em relação ao seu tempo. Já vimos isso acontecer com muitos nomes da filosofia: Sócrates condenado, Epicuro difamado, Espinosa excomungado… É certo que não podemos aceitar passivamente essas acusações. Entretanto, não podemos deixar de observar que elas só não fazem sentido enquanto acusações, porque, sem o sentido pejorativo, elas nos contam da relação do filósofo com sua época.

Escolhemos as ilustrações de Gerard Dubois para esta série de textos

Se lermos atentamente esses filósofos, encontraremos tamanha subversão às ideias correntes que compreenderemos num instante a má recepção dos ortodoxos. Em todos os tempos em que o pensamento contestou os fundamentos dos modos de vida dominantes, ele encontrou dificuldades de expressão. Assim, ao olhar através desses rótulos preconceituosos, podemos encontrar os traços gerais de um filósofo e de seu tempo.

Por volta de 1745, Hume se candidata a professor de Ética na Universidade de Edimburgo. Ele havia publicado alguns anos antes o seu Tratado da Natureza Humana além de alguns ensaios morais e políticos e precisava de um emprego. No entanto, o reitor da universidade difunde uma carta com trechos extraídos do Tratado acompanhados de acusações, prejudicando a imagem do filósofo e impedindo seu acesso à vaga. Hume, que raramente replicava as críticas, decidiu enviar uma carta-resposta anônima defendendo-se das acusações.

Nesta carta, intitulada Carta de um Cavalheiro a seu Amigo em Edimburgo, Hume rebate as acusações uma a uma, são 6 tópicos que podemos resumir em três grandes acusações: ateu, herético e cético.

Hume nunca se preocupou em provar que Deus não existe, mas dedicou-se intensamente a mostrar que os argumentos que tentavam dar razão à sua existência não eram consistentes – foi isso que enfureceu os ortodoxos. O filósofo nunca cansou de se defender das injúrias de ateísmo, mas a censura visava qualquer forma de oposição frontal à teologia e a identificava prontamente como ateia.

Hume, o Ateu

Qualquer um que questione a visão dominante das tradições moralistas é considerado herege. O que Hume tenta mostrar é que a moral não é uma questão da razão, mas das paixões. Isso significa que é impossível deduzir o certo e o errado de qualquer situação. Nós não conseguimos justificar uma ação dentro do campo da racionalidade, pois sempre haverá muitas variáveis em jogo, a ponto de não haver contrariedade possível. A razão é muito pequena em relação à vida e a moral com certeza está além dos seus estreitos limites de conhecimento.

Hume, o Herético

De todas as acusações feitas a Hume, a de ceticismo talvez seja a menos ofensiva. O filósofo não apenas escreve sobre o tema, como sua própria filosofia pode ser considerada cética. Hume é, sem dúvida, um dos maiores céticos entre os filósofos modernos. As primeiras linhas do Tratado da Natureza Humana já alertam que a ciência não deve pretender mais do que o entendimento é capaz de alcançar. Então, em que sentido o ceticismo pode ser usado como acusação?

Hume, o Cético

Hume e o Livre Pensamento

Após olhar com mais calma estes três aspectos, percebemos que Hume não professa um ateísmo convicto, também não propõe um imoralismo inabalável, pelo fato de que ele era cético demais para tudo isso. Ao menos uma das acusações parece ter fundamento. Perguntamos, entretanto, a que ponto chegamos quando cético se torna uma acusação. 

Só podemos concluir que o livre pensamento é necessariamente uma forma de insubordinação e por isso foi alvo, em todas as épocas, dos poderes instituídos. Talvez essa fosse a maior preocupação de Hume ao defender-se e por isso a carta termina com um pedido preocupado e encarecido:

“Não devo deixar de observar que nada pode ser escrito tão precisa ou inocentemente que não possa ser pervertido por artes como as que se empregaram nessa ocasião. Nenhum homem jamais empreenderia uma tarefa tão invejosa como a do acusador de nosso autor, se não estivesse movido por interesses particulares, e você sabe como é fácil, por citações isoladas e parciais, perverter qualquer discurso, especialmente um de natureza tão abstrata, no qual é difícil, ou quase impossível, justificar-se a si mesmo perante o público. As palavras que foram cuidadosamente selecionadas de um amplo volume terão, sem dúvida alguma, um aspecto perigoso para leitores descuidados, e o autor, no meu entender, não pode defender-se inteiramente sem um detalhe particular que é impossível para um leitor descuidado apreender. Essa vantagem inicial foi usada por seu acusador e certamente nunca foi mais abusada do que na presente ocasião. Mas ele tem uma vantagem, eu confio, que vale cem vezes a de que o seu oponente pode gabar-se, a saber, a da inocência, e espero que tenha também outra vantagem, a saber, a do favor, se realmente vivemos num país de liberdade, onde delatores e inquisidores são tão merecidamente tidos num ódio universal, onde a liberdade, pelo menos a da filosofia, é tão altamente valorizada.” Hume, Carta de um cavalheiro a seu amigo em Edimburgo