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A partir do século XVII uma grande massa de indivíduos é internada. Mas este movimento de exclusão é também de observação. Sendo assim, pouco a pouco, o louco começa a ganhar singularidade. 

E é desta dupla ação (exclusão e observação) que nascerá a psiquiatria! Da pura negatividade: não-razão, des-atino, in-sania, ela começa a se tornar uma doença positiva que ataca a própria razão.

Vimos que a experiência da loucura não é um bloco maciço e homogêneo, que ela se transforma progressivamente, lentamente. Na era clássica, a razão adquire a certeza da verdade e esta verdade exclui e é ameaçada pela loucura; por isso a loucura é isolada, para não contaminar os outros.

Mas a loucura isolada e contida não some completamente, óbvio. Ela continua lá e passa a ser observada. A loucura começa a ser estudada! Qual a grande descoberta? O não-ser da loucura possui um ser, a negatividade possui uma positividade. O louco começa a emergir como figura.

Ainda não se sabe exatamente o que ele é, mas a distância começa a diminuir, começam a surgir as primeiras tentativas de classificação. Como negatividade, a loucura é o puro não ser da razão, mas como positividade, ela se apresenta como sintoma.

Quais são os sintomas da loucura? Quais suas causas? Ela pode ser disposta em alguma ordem sistemática? Seria possível dividi-la em Gêneros, Espécies, Ordens? É possível descobrir o que a faz surgir ou desaparecer? A doença loucura é classificada em sua positividade superficial como qualquer outra doença médica, e desta maneira ela precisa obedecer a alguma ordenação e causação.

Os médicos começam a procurar por alterações anatômicas e fisiológicas:

Johann Heinrich Fussli – The insane Kate

Causas internas

A loucura está relacionada com os Humores: quatro elementos externos fogo, terra, água e ar, que formam os quatro temperamentos: 

  • Temperamento Sanguíneo: influentes, emocionais, entusiasmadas
  • Temperamento Colérico: ativas, ousadas, dominadoras
  • Temperamento Fleumático: constância, segurança, pacientes
  • Temperamento Melancólico: cautelosas, profundas

A loucura seria então uma espécie de desordem, de excesso ou de falta de alguma coisa no organismo. São estas mesmas teorias que vão desembocar na experiência da Loucura como desregulação dos neurotransmissores no cérebro:

  • Dopamina: prazer, vai gerar felicidade, bem-estar e motivação, mas em excesso pode causar esquizofrenia
  • Serotonina: bom humor e bem estar, sua falta gera depressão
  • GABA: responsáveis pela calma e concentração, em níveis baixos podem gerar ansiedade
  • Acetilcolina: responsável pelo aprendizado, em níveis baixos gera Alzheimer

Ou seja, o que é a loucura? Uma doença ocasionada por mudanças corporais que podem ser categorizadas! Começa-se a qualificar e comparar os tipos de neurotransmissores, os tipos de cérebros com as personalidades e os sintomas. 

Causas Exteriores

Outra causa da loucura está no exterior. A natureza à nossa volta também é responsável por mudanças que podem causar a loucura. Pode ser um ar úmido demais ou seco demais. Os temperos das comidas, a qualidade das águas, a lua, as estações do ano, eclipses, ventos, tudo! 

O próprio funcionamento da sociedade, os excessos da civilização, muito trabalho braçal e, principalmente, intelectual. Mesmo a religião em excesso pode favorecer a loucura. O desregramento das artes no teatro, nas pinturas, nos romances, os arroubos de paixão. Qualquer excesso pode desviar o espírito, principalmente nas mulheres.

Enfim, o mundo exterior, em suas variações ou excessos em suas violências ou artifícios, pode facilmente provocar a loucura”

– Foucault, História da Loucura, p. 222

Conclusão: A loucura é a alienação do homem de si mesmo, por causas naturais ou de seu próprio meio. E a lista não para de aumentar! Mas reparem, as duas recorrem ao mesmo pensamento: uma paixão, algo que nos tira de nossa essência, uma força que toma conta do corpo e da alma e nos torna passivos. É só lembrar de como, para os gregos, a paixão é um tipo de loucura provisória! Ou seja, a loucura é a natureza humana desviada de si mesma.

Mas vemos aqui como a questão moral continua sempre presente! A loucura pode ser um castigo por uma vida desregrada; ou a demonstração de fragilidade das mulheres, que possuem uma fibra frágil, que se empolgam facilmente e são carregas pelas paixões. 

Este é o paradoxo (duas opiniões) da loucura: o louco como desrazão excluída e internada, uma espécie de negatividade, algo que não é normal e portanto é excluído; e ao mesmo tempo, uma loucura como positividade confusa e heterogênea, que se dá em fenômenos complexos, algo que não é normal e portanto precisa ser estudado.

Aqui começa a aparecer o médico; e vejam como isso demorou para acontecer! Se a loucura é sintoma de uma doença, de um desequilíbrio, então deve haver alguém que possa recuperá-lo, alguém para colocar no lugar e arrumar estes “nervos tensos/frouxos”.

Como fazer o ser humano retornar à sua essência? O doente mental precisa ser curado! Se a loucura se consolida por fraquezas e desequilíbrios, então é necessário restabelecer o equilíbrio. Mas como? Simples, restabelecendo o equilíbrio interno (com remédios, substâncias, banhos gelados, sono, eletrochoque, etc) ou externo: andar à pé/cavalo, viagens ao campo, mudança de ares, águas termais).

O objetivo é deixar o reino dos sonhos e retornar à realidade. O que Descartes fez por conta própria (através do pensamento racional), o médico fará pelo louco (através de um tratamento). E é então que o espaço de internação começa a assumir uma positividade terapêutica! Ele se preenche de técnicas capazes de curar a loucura, para guiá-la de volta à razão.

Texto da Série:

Foucault – História da Loucura

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Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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