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O louco se liberta, mas metaforicamente, ou melhor, epistemologicamente. Na prática ele apenas se encontra em outro lugar, o seu novo lugar, feito especialmente para ele: o Asilo Psiquiátrico, onde ele pode permanecer longe das ameaças da sociedade e a sociedade pode permanecer longe das ameaças de sua contaminação.

Então, finalmente, a figura do médico começa a se aproximar do louco, e percebam como isso demora pra acontecer! Neste momento, o louco se aproxima do médico como doente e se afasta da figura do improdutivo e criminoso. 

Imediatamente, com este novo isolamento, surgem os sonhos de um asilo ideal, com arquiteturas capazes de curar os insanos de seus males. Qual o objetivo aqui? Um só: recuperar estes doentes, fazê-los recobrar a razão. A loucura, desarranjo da cabeça, dos humores, do cérebro, desordem da razão, erro do pensamento, será tratada pelo médico.

A loucura é isolada para ser tratada, e assim ela emerge como objeto cada vez mais bem definido. A fórmula é simples: mais loucura exige mais isolamento e mais recursos para a cura. Não apenas excluir e separar, mas também medicar, tratar e curar. É assim que ela assume a feição que nós conhecemos.

O passo essencial está dado: o internamento recebeu sua carta de nobreza médica, tornou-se lugar de cura”

– Foucault, História da Loucura

Philippe Pinel à la Salpêtrière – Tony Robert Fleury (Detalhe)

O espaço disciplinar será o espaço da cura! A percepção da loucura agora está ligada a médicos, sintomas, doença, tratamento, cura. Se antes a loucura não tinha memória, era jogada num calabouço e esquecida, agora ela é incitada a falar tudo de si, a mostrar toda sua natureza. Ela ganha uma visibilidade que o desatino jamais teve, mas uma visibilidade submetida à razão reguladora que a vigia e estuda.

E este é o paradoxo da definição de Loucura Moderna: este duplo movimento de libertação e sujeição! Libertação não como liberdade de movimento, mas como espaço especial, sujeição ao olhar do médico. Aí aparecem os retiros! Novo lugar de tratamento e cuidado, arquétipo de purificação e segregação.

O que acontece nos retiros? Lá se está em contato com a natureza, lá se pode plantar, respirar o ar das montanhas, enfim viver uma vida simples, longe da sociedade corrompida. Lá a razão adormecida do louco pode reemergir, sempre conduzida pela razão do médico.

Agora que a razão formulou o funcionamento da loucura, ela pode agir! Pode desarmá-la, a psiquiatria começa a dominar a loucura! Como?

Métodos de cura:

  1. Religião: as virtudes da religião são essenciais para despertar o louco de seus desvarios e guiá-lo na boa direção e na vida regrada e correta. Mas não os desvarios, os exageros dos milagres, quer-se aqui apenas as virtudes da vida reta e regrada; 
  2. Medo: se antes nós tínhamos medo do contágio da loucura, agora, neste espaço da segregação é a loucura que deve temer o médico. Sendo assim, ela deve submeter-se a ele e seus tratamentos para encontrar o juízo e o discernimento perdidos;
  3. Trabalho: o trabalho sempre foi (e é até hoje) um dos grandes caminhos para livrar-se da loucura. Afinal, ‘mente vazia é a oficina do diabo’. O trabalho cura porque enobrece, cria hábitos regrados, ensina o trabalho duro da vida; 
  4. Olhar: Com o fim de organizar esta massa de enfermos, todos no asilo estão sob constante vigilância, assim, se saírem do caminho, podem ser reconduzidos quase que instantaneamente de volta, como uma ovelha perdida que o pastor não deixa se transviar. O louco é como uma criança que precisa de um adulto responsável guardando pelo seu bem estar.

A repressão da Era Clássica é substituída pela autoridade-tutela. O louco está sendo observado e avaliado constantemente. É o fim do silêncio das masmorras, é o começo das recompensas e punições.

Mas esta tutela modeladora tem quais objetivos em vista? Em outras palavras, o que é considerado uma melhora e possivelmente uma cura? Ora, o que se procura aqui é a estabilização do louco num tipo social normal. O insano deve ser reconduzido às virtudes tradicionais: o bom cidadão, o bom soldado, a boa esposa, o bom empregado e assim por diante.

O asilo, domínio religioso sem religião, domínio da moral pura, da uniformização ética”

– Foucault, História da Loucura

Não nos enganemos, o isolamento de forma alguma foge da sociedade, porque quem realmente administra o seu interior é a moral burguesa. O asilo intensifica o social, ele é o reino homogêneo da moral pura. O que se chama de cura não passa da domesticação do louco em um tipo social aceitável, que caiba em nossa sociedade.

Texto da Série:

Foucault – História da Loucura

Curso Online baseado nesta série

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Felipe
Felipe
5 dias atrás

Boa! Bem interessante.