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O Conceito de Noção comum é certamente um dos mais importantes da Ética. É este conceito, segundo Antonio Negri, que fez Espinosa interromper a escrita do “Tratado de Emenda do Intelecto” e começar a “Ética”. Este conceito é tão importante que podemos dizer que ele é o caminho para a Salvação e a Beatitude.

Nesta primeira parte do texto nós vamos explicar como formamos Noções Comuns. Afinal, não são conceitos inatos com os quais nascemos. Tudo começa de maneira simples, quando ainda estamos perdidos e confusos, desde criança vamos aprendendo arduamente a pensar racionalmente.

Para Espinosa, somos pequenos modos em transição constante, impotentes na efetuação dos encontros. Contudo, a mente faz o que pode: percebe o corpo sentindo, passando por inúmeras alegrias e tristezas, e vai gravando isto na memória. A mente acompanha o corpo, sente isso, e começa a formar suas primeiras ideias.

Aqui começam os outros pensamentos: “como isso aconteceu?”, “Isso doeu, ou isso foi bom?”. Começam a se formar ideias das ideias que o corpo sentiu. Começam a aparecer as propriedades universais: “vejo círculos redondos, cachorros peludos que latem”. Ou seja, vamos organizando o que sentimos: “este lugar é bom”, “aquela pessoa é má”, “tal comida é boa”, “tal partido é mau”.

O problema é começar na impotência (na fortuna, nas paixões). Porque certamente experimentamos alegrias, mas ainda não sabemos muito bem como elas aconteceram, também experimentamos tristezas, mas não sabemos muito bem como evitá-las.

Estamos no começo, estamos confusos, ainda estamos no campo do contingente e do possível. Mas conforme vai entendendo as relações entre as coisas e seu corpo, um dia a Razão diz: “a fortuna é uma mentira, ela é fruto da nossa ignorância! Deus não é um ser caprichoso e vingativo, ele se expressa de maneira determinada e necessária através da natureza. A sorte só existe para mentes limitadas, sim, claro, o universo supera a gente, mas ele não se expressa ao acaso”. Aqui algo novo começa a acontecer.

Qual a conclusão da Razão? Podemos entender o mundo! E qual ferramenta nós temos à nossa disposição? Antes de mais nada, os bons encontros!

Já dizia Deleuze, tudo começa com os Bons Encontros.  É aqui que começamos a sair das paixões tristes. Não se faz uma noção comum com apenas uma alegria, é preciso vivê-las em quantidades e qualidades para compreender o nó de relação entre elas.

A hipótese de Espinosa é revolucionária: para pensar direito, precisamos estar alegres, porque é na alegria que estamos no lugar e no tempo certo de entender o que aconteceu. A alegria está ao lado da compreensão. E o contentamento é a situação que oferece as condições mais adequadas de temperatura e pressão. Quando chegamos aí, a mente começa a agir: “Como isso aconteceu?”, “como repetir isso?”, “como isso deu tão certo?”.

Deste modo, já temos uma definição inicial: a Noção comum é a compreensão da produção de bons encontros! Se aquelas felicidades aconteceram, foi por um motivo; e se aconteceram, nas mesmas condições, podem voltar a acontecer, ou melhor, devem voltar a acontecer!

Tudo começa aí: alegrias simples, pequenas alegrias, tudo muito pequeno, singelo, miúdo, incerto, frágil. Mas constantes, coerentes e convenientes. Assim, vamos pouco a pouco subindo a escada da alegria, todo dia um degrau novo. Não é simples, não é mágico, não é instantâneo, muito menos espontâneo, dá muito trabalho, e exige atenção constante! 

Para isso, fazemos experimentações com o nosso corpo, e depois pensamos sobre estes experimentos: o que deu certo? O que deu errado? A intenção é uma só: sair das paixões alegres e entrar nas ações alegres. Diz Espinosa: toda alegria que foi vivida passivamente pode ser vivida ativamente com a ajuda da Razão. Em outras palavras, toda alegria passiva pode dar lugar a uma alegria ativa! Temos apenas que compreender como ela se (re)produz, descobrir as suas causas genéticas de produção, suas concatenações adequadas de causas e efeitos. Quanto mais compreendemos, mais podemos fazer existir novamente.

Mas é preciso uma ressalva importante: as noções comuns começam mais pelo corpo que pela mente. O que isto quer dizer? Quer dizer que primeiro criamos noções comuns entre partes e partes:

  1. “Quando eu seguro o arco do violino deste jeito, é mais confortável”, noção comum entre nosso corpo e o arco do violino, formada através do som melodioso chegando em nosso ouvido;
  2. “Tenho que cozinhar este ingrediente antes dos outros”, noção comum entre nosso corpo e a ordem dos ingredientes, formada através do gosto em nossa língua;
  3. “Neste horário é melhor fazer este caminho”, noção comum entre nosso corpo e os carros à nossa volta, formada através do stress de buzinas e carros parados ao voltar para casa;
  4. “Com esta pessoa eu sei que é melhor falar assim”, noção comum entre nosso corpo e uma outra pessoa, formada através das reações de alegria entre nossa fala e aquela pessoa

Entramos no campo das relações entre as coisas e nos tornamos capazes de compreender a sua ordem de produção de efeitos. Há uma grande diferença aqui! Por isso a importância do Contentamento! Vamos tateando nesta vida, com nosso corpo, e é no momento em que vemos as coisas funcionando direito que dizemos “uau, agora deu certo!”.

Isto torna a noção comum o “momento Eureka” dos encontros. Eureka vem do grego e significa “encontrar” ou “descobrir”. A Razão diz “Eureca, eu descobri o nó de relações que gera este efeito, é complexo mas eu finalmente entendi”. Porque as noções comuns começam na prática, elas podem ser consideradas tão mais biológicas do que dedutivas. Nós primeiro as vivenciamos antes de compreendê-las racionalmente, o contrário é muito mais raro.

A noção comum é uma espécie de salto qualitativo no campo dos encontros. Antes estávamos ao acaso dos encontros e agora aprendemos como fazer para aquele afeto se realizar. Ou seja, formamos uma ideia adequada daquela paixão e agora ela passa a estar à nossa disposição. Não é lindo? Um afeto passa a estar sob nossa potência de agir.

Eis o sentido da palavra compreender: nós pegamos para nós, apreendemos, seguramos, guardamos conosco. Por isso Espinosa pode dizer que o conhecimento é o mais potente dos afetos. Agora esta relação está ao nosso dispor, para quando precisarmos, é uma nova capacidade que temos, nossa potência de afetar aumentou e a partir de então, podemos mais do que antes. Como não se alegrar com este aumento de potência?

As noções comuns nos permitirão viver diferentemente, mas ainda não acabamos, ainda há um tanto que podemos subir, não chegamos ao topo. Por isto este texto precisará de uma segunda parte

Texto da Série:

 

Gêneros do Conhecimento

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Júlia
Júlia
5 dias atrás

Massa demais!