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É difícil descrever a sensação de fascínio e assombro que nos toma quando, ainda crianças, com as ondas na altura dos calcanhares, olhamos a imensidão do mar bravio à nossa frente. Ali, observamos a infinita força bruta que se arremessa sem distinção contra os rochedos, transformando tudo, onda após onda, em areia. A noção de nossa fragilidade vem à mente, embrulhando as ideias dentro do estômago. Então, sentimos vertigem, um estranho tipo de desequilíbrio, que nos convida a entrar ao mesmo tempo que nos segura no lugar. Não é nada fácil dar o primeiro passo, mas também não conseguimos ignorar o chamado do mar. 

O mar, suave e magno, é bonito de ver, principalmente à distância, quando estamos em terra firme, salvos das ondas. De longe, admiramos os pescadores experientes em suas jangadas, mas sabemos que às vezes eles não retornam. Lucrécio1 aprendeu com o mar a sorte de poder deitar na grama macia, de ter o que comer, de não estar atravessando dores; e fez disso um motivo para filosofar. Para ele, a felicidade dispensa o ímpeto cego da conquista, da superação, da glória, em suma, do desejo desmedido de quem se esquece que o máximo prazer está disponível em um dia ameno junto dos amigos. É difícil apontar-lhe qualquer erro. Ainda assim, Caymmi2, com o sal nos lábios, cantava: “é doce morrer no mar”.

É importante saber apreciar a praia, calmamente, sob o beneplácito calor do Sol, mas existem momentos em que queremos – ou precisamos – enfrentar a rebentação. Há algum feitiço na ideia de grandeza, ela nos encanta como o canto das sereias. Somos hipnotizados e conduzidos pelo desejo de fazer da vida algo excepcional. Acontece de sentirmos que o que nos foi reservado é pouco e assim, sem grandes justificativas, precisamos de mais. Teríamos bons motivos para nos demorar na crítica dos excessos, canalizados em nosso tempo pelo consumo desenfreado. Sabemos que nem sempre o mais é melhor. No entanto, não dá para ignorar que a ambição é parte do que nós somos, e seria moralmente duvidoso de nossa parte deixá-la completamente de fora. 

Nem sempre somos seduzidos a perseguir a grandeza, às vezes essas ideias brotam do nosso próprio solo. Em outras palavras, nosso desejo por mais não é guiado apenas pelo exterior, muitas vezes ele provém das entranhas. E quando a mesma vida não basta, buscamos outra – esse é o caminho que nos leva inevitavelmente de encontro ao mar. Quando se anuncia, o novo muitas vezes parece uma loucura, uma fantasia risível frente ao mundo já dado, um barquinho imaginário esperando pela tormenta. Como se não bastasse a fragilidade do desejo nascente, ainda é preciso encarar as dores e angústias que a maré promete. 

Ainda paralisado pelo medo, o desejo cresce, palpita em pensamento, até que começa a tomar corpo. Para encaminhar algumas escolhas, é preciso uma força inicial, um arranque capaz de quebrar a inércia. De onde vem esse impulso? As mães colocam apenas os pezinhos dos bebês para lhes apresentar o mar – é muito bonito de se ver. O apoio dos outros é fundamental: uma conversa é também uma maneira de reunir forças. Acontece de nem sempre sermos os que mais acreditam em nós mesmos, às vezes precisamos ser relembrados de nossas próprias capacidades. Ao que parece, pensar junto de alguém é uma das melhores maneiras de medir o tamanho das ondas antes de mergulhar.

Há um segundo momento da sabedoria maternal, e a maioria de nós conhece bem. Os mais atrevidos – e privilegiados – dentre nós provavelmente lembram de seus pais na beira da praia, gritando: “eu falei para não deixar a água passar do umbigo!”. Vejam, essa é uma lei bastante interessante – ela é dinâmica, depende da altura da criança e também da maré, ou seja, do encontro entre duas variáveis. Na verdade, é mais do que isso, é o ensinamento de que é preciso saber a hora de voltar3. O desejo pode nos colocar em perigo e precisamos aprender que a interrupção não é pura frustração, porque o retorno nos traz condições de ir mais longe da próxima vez.

Nos preparamos e, com a ajuda dos outros, damos os nossos primeiros passos. Ainda assim, pode ser que eles não sejam suficientes para realmente nos levar aonde gostaríamos. Para quebrar a rebentação é preciso mais do que o primeiro ímpeto, é preciso continuar avançando, mesmo que cada nova onda venha a desorientar as nossas certezas. Nietzsche4 dizia que nada de grande foi feito sem que se permanecesse muito tempo – e a despeito das intempéries – numa mesma direção. O que é certamente um exagero, mas contém alguma verdade: há uma ousadia na teimosia, uma força que se sustenta apesar dos erros; assim como há uma teimosia na ousadia, uma insistente necessidade de continuar. Talvez seja essa complementaridade que nos leva além. 

Nesse ponto, muitas pessoas já estariam satisfeitas com a analogia, pois até aqui ela nos serviu de motivação. No entanto, ainda falta lembrar da realidade, e ela traz verdades difíceis: nunca houve nem nunca haverá garantia de que algo venha a dar certo. Podemos ter os melhores amigos, os melhores conselhos e a vontade mais disciplinada do mundo… às vezes o mar é mais forte, não é difícil para ele. Por isso, convém lembrar, existem situações em que é melhor desistir, pelo simples fato de que algumas condições simplesmente nos destroem se continuamos em frente. Acontece também do desejo mudar no meio do caminho, fazendo toda a luta perder o sentido. Seja como for, não há mal nenhum em desistir, menos ainda em sentirmo-nos aliviados por isso. 

Agora, existem desejos que permanecem constantes, assim como há dias em que o vento resolve ajudar. Nesses momentos, encaramos o mar com outros olhos, pois enxergamos uma maneira de participar de sua grandeza. Por baixo das ondas, avançamos atentos, pouco a pouco, subimos para respirar, medimos as distâncias, sentimos a correnteza e seguimos em frente. Até que, de repente, tudo se acalma: os pés não tocam mais o chão, o som da rebentação se distancia às nossas costas, estamos flutuando sobre as ondas inteiras, jogados ao alto quando elas chegam e, num calafrio, delicadamente pousados quando elas vão embora. Não há nada mais a fazer do que celebrar o novo ritmo, até que outras encostas venham nos lembrar a força do mar.

 


1 Tito Lucrécio Caro, poeta e filósofo epicurista romano do século I a.C.
2 Dorival Caymmi, cantor e compositor baiano, lançou em 1954 o disco “Canções Praieiras“, considerado por muitos uma das obras primas da música popular brasileira
3 Parece uma maneira de ensinar a cançãozinha do ritornelo de Deleuze e Guattari.
4Se uma transformação deve ser a mais profunda possível, que o remédio seja dado em doses mínimas, mas ininterruptamente, por longos períodos! Que coisa grande pode ser criada de uma vez?” – As pequenas doses, Nietzsche, Aurora, §534

Referências 

Lucrécio, Sobre a Natureza das Coisas
É doce morrer no mar, canção de Dorival Caymmi
Deleuze e Guattari, Mil Platôs
Nietzsche, Gaia Ciência


Como citar

LAURO, Rafael. Quebrar a Rebentação. Razão Inadequada, 2024. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2024/06/03/quebrar-a-rebentacao>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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Pseudo Nômade
Pseudo Nômade
7 dias atrás

Avisando que as 3 notinhas de rodapé não apareceram referenciadas no texto.
Fora esse detalhe, é mais um excelente texto!