O caso Dora é um dos grandes escritos clínicos de Freud. A análise ocorreu em 1901, antes de muitos dos desenvolvimentos da psicanálise, mas este caso tinha uma função específica para Freud: provar o funcionamento da histeria, a técnica de interpretação dos sonhos e, ainda em estágio inicial, da transferência. Através do caso Dora, Freud quer demonstrar, com a análise de dois sonhos, a passagem do conteúdo reprimido para a consciência através do trabalho do sonho e dos sintomas histéricos. Ou seja, seu objetivo é complementar a Interpretação dos Sonhos com um caso exemplar, quase como um apêndice demonstrativo. Infelizmente as coisas não terminaram como o pai da psicanálise gostaria. A análise de Dora é fragmentária, ou seja, ela deixou a terapia interrompida, depois de 11 semanas.
Dora, pseudônimo de Ida Bauer, está na flor da juventude, com 16 anos, quando começa a se encontrar com o dr. Freud. Inteligente e estudiosa, frequenta palestras para mulheres, mas possui o ânimo deprimido; além de apresentar sintomas leves que não possuem uma explicação médica conclusiva: dor de garganta, asma nervosa, afonia, enxaquecas. Dora sente-se negligenciada pela mãe, da qual se afasta, e ressentida com o pai por sua relação com a Sra. K. Os pais de Dora eram muito próximo do casal K, ela inclusive brinca e cuida dos filhos do casal. Mas a situação se complica quando Dora, muito perspicaz, percebe que o pai, ao manter relações íntimas com a Sra. K, a deixou para o Sr. K., quase como uma troca de presentes.
O que deflagra o tratamento de Dora? Os sintomas pioram depois de uma situação: um pedido de casamento por parte do Sr. K durante uma viagem no campo. Ela recusa, dá um tapa em seu rosto e sai correndo. Entretanto, ao contar à sua família sobre o ocorrido, o Sr. K nega o pedido, afirmando que tudo não passava de fantasias da menina. Esta situação extrema leva Dora a escrever uma carta e tentar o suicídio.
O caso
A história completa, na verdade, começa antes: aos quatorze anos, Dora sofre uma tentativa de assédio por parte do mesmo homem. Ele tenta beijá-la em sua loja. Planeja isso cuidadosamente, pois no momento do encontro estão apenas os dois. Mais uma vez, Dora sai correndo, o que leva Freud a afirmar: “Se ela fez isso, fugiu quando devia se excitar, já é um claro sinal de histeria“. Histeria esta que, depois do pedido de casamento negado, piora: dores de garganta, leucorreia, asma, enxaqueca, ânimo deprimido. É de se compreender a confusão de Dora, mas, diz Freud, todos estes sintomas são manifestações histéricas no corpo de desejos sexuais reprimidos e não conscientes. A psicanálise, garante Freud, seria capaz de compreender estes desejos, trazê-los à consciência e assim eliminar os sintomas.
Para isso, é necessário encontrar a causa dos sintomas através da interpretação dos sonhos. A técnica se desenvolve na psicanálise depois de abandonar a hipnose e a sugestão e consiste em deixar o paciente falar livremente (Associação Livre) e, no caso do sonhos, analisar livremente todos os seus mínimos elementos. Esta técnica é revolucionária porque permite que o conteúdo reprimido se mostre nos mínimos detalhes, sem precisar fazer uso da hipnose ou da sugestão. Em outras palavras, o sonho é uma maneira de acessar aquilo que foi bloqueado da consciência, e por isso tornou-se patogênico.
1º Sonho
Dora têm dois sonhos que são analisados pelo pai da psicanálise. O primeiro sonho ocorre três noites sucessivas, durante a viagem para a casa do lago. A casa estava pegando fogo, o pai a acorda, ela levanta e se veste rapidamente. Enquanto estão saindo de casa em chamas a mãe afirma que quer salvar a sua caixa de joias, mas o pais responde: ‘Não quero que eu e meus dois filhos nos queimemos por causa da sua caixa de joias’. Então, descem às pressas e, logo que se vê do lado de fora, acorda.
Freud pede que ela fale sobre cada um dos elementos do sonho: o que significa a casa em chamas, ser acordada pelo pai, a caixa de joias, etc.? Para Freud, o fogo simboliza desejo sexual reprimido, que queima dentro de Dora. O inverso também leva para o mesmo lugar: o pai que a desperta indica a ligação entre o desejo e a figura paterna, pois este a acordava à noite para que ela não molhasse a cama, significando a excitação de Dora. A caixa de joias, que a mãe resiste a entregar simboliza as partes íntimas de Dora, sua valiosa honra. Conclusão: o pensamento latente do sonho esconde o desejo de entregar-se para um homem, o Sr. K., ou seja, sua recusa consciente esconde um desejo inconsciente. “Naturalmente, nesta parte da interpretação, ela não quis me acompanhar“, escreve Freud, que insiste em sua interpretação.
A genialidade de Freud é perceber que os sonhos não são inocentes, eles escondem muito mais do que estamos acostumados a pensar. Aquilo que parecia o mais irracional, lembrando de Espinosa, possui, na verdade, uma coerência que ainda não foi compreendida. Na verdade, os atos do inconsciente atravessam a nossa vida cotidiana das mais diversas formas, uma brincadeirinha, uma piada, um ato falho que ninguém percebe; mesmo os devaneios do dia a dia já são o bastante para expressar os mais obscuros segredos. Mas os sonhos, diz Freud, são a via régia para o inconsciente, pois através deles podemos ter acessos a conteúdos que dificilmente seriam encontrados de outra maneira. Ou seja, através da interpretação do sonho, Freud seria capaz de compreender mais elementos da vida pulsional de Dora, aquilo que provavelmente nem ela sabe.
2º Sonho
Dora relata o segundo sonho:
Estou passeando numa cidade que não conheço, vejo ruas e praças que são novas para mim. Chego a casa onde moro, subo para meu quarto e lá encontro uma carta de mamãe. Ela diz que, como eu saí de casa sem meus pais saberem, ela não queria me escrever dizendo que papai estava doente. Agora ele está morto, e, se você quiser, pode vir. Vou para a estação de trens e pergunto umas cem vezes: ‘Onde é a estação? ‘. Sempre me respondem: ‘Cinco minutos’. Então vejo um bosque cerrado à minha frente, entro nele e lá pergunto a um homem que encontro. Ele me diz: ‘Mais duas horas e meia’. Ele se oferece para me acompanhar. Eu recuso e vou só. Vejo a estação de trens [Bahnhof] à minha frente e não posso alcançá-la. Nisso há a sensação de angústia habitual, quando não podemos seguir adiante nos sonhos. Então me acho em casa, devo ter andado de trem, mas não sei nada sobre isso. – Entro no cubículo do porteiro e lhe pergunto por nosso apartamento. A criada abre a porta e responde: ‘Sua mãe e os outros já estão no cemitério [Friedhof]” – Freud, Fragmentos de um Caso de Histeria
Freud comunica suas conclusões. Dora fala de uma angústia no sonho que envolve a morte do pai. Ainda em estado embrionário aparece o Complexo de Édipo: sua ligação com o pai, conforme ela cresce, precisa ser substituída por outra figura masculina. Mas há uma resistência em fazer esta transição. O sonho expressa este receio através da distância, e na incapacidade de se mover. O pai morto simboliza que agora ela está livre para entregar-se a um novo homem. Dora recusa algumas interpretações, para Freud isso é resistência.
Os sintomas, por não possuírem uma causa fisiológica clara, só poderiam ser a manifestação de um segredo descarregado pelas vias motoras. Este é o funcionamento da Histeria, aquilo que a mente não diz o corpo confessa. O segredo foi decifrado pela interpretação do sonho, como gostaria Freud, provando seu ponto e estabelecendo mais um argumento para a psicanálise. Os sintomas de Dora são realizações de uma fantasia sexual inconsciente. Ou seja, a afonia, a leucorreia, a tosse nervosa e qualquer outros sintomas somáticos realizavam disfarçadamente uma fantasia de defloração por parte da menina. “Você tem desejos por Sr. K“, insiste Freud, “ela não mais contestou“, escreve. Entretanto, pouco tempo depois ela vai embora, deixando a terapia inconclusa.
Comentário
Aqui fica a pergunta: surpreende Dora deixar da terapia? Ou, ainda melhor, será que Dora estava sendo realmente ouvida? Do mesmo modo que ela não passava de uma moeda de troca, nas mãos do Sr. K e seu pai, ela também se viu usada por um outro homem, agora o Dr. Freud, que queria a todo custo usá-la para mostrar a eficácia da psicanálise. Afinal, isso é interpretação ou apenas mais uma demonstração de poder masculino? Talvez Dora tenha percebido isso no momento em que os elementos da vida lá fora começaram a ser usados na terapia. Após seu sonho da casa em chamas, Dora acordava com a sensação de cheiro de fumaça. Ora, o pai e o Sr. K eram ávidos fumantes. Freud associa o sonho com o desejo de proximidade destes dois homens. Acontece que Freud também era um fumante inveterado, e constantemente na terapia repetia a expressão: “Onde há fumaça há fogo”. Desta ligação, Freud conclui, “Ela provavelmente também já pensou em me beijar”.
Os primeiros desenvolvimentos do conceito de Transferência aparecem aqui. Mas são ainda muito iniciais e só seriam devidamente estabelecidos nos escritos técnicos, anos depois. A ideia é boa, mas sua primeira aplicação foi desastrosa para a análise de Dora. Na verdade, apesar da projeção ser uma realidade analítica imprescindível para a análise, é provável que este pensamento diga mais da pessoa de Freud do que de sua analisanda. Cego pela sua própria ambição e a cultura de seu tempo, Freud deixou passar inúmeros elementos do caso.
A descoberta freudiana é genial: há mais do que sintomas fisiológicos na histeria. Elas são um mistério, um protesto. Algo nelas não cabe na cultura, não cabe na estrutura de seu tempo. Elas desviam, desafiam, confundem. Mas Freud, apesar da descoberta, insiste em inserir os problemas de Dora numa matriz heterossexual e patriarcal. Ele, que já tinha em mãos a teoria da bissexualidade, que sabia de como a pulsão é plural e escorregadia, procurou avidamente pelo objeto que traria satisfação para Dora. Isso é pequeno, o objeto que faltava não era o Sr. K., mesmo que alguma parte dela pudesse ter interesse nele, o olhar psicanalítico não honrou a grandeza do protesto histérico. Dora sabia da fragilidade de sua condição de mulher, sabia que era apenas um joguete nas mãos dos homens de seu tempo.
É por este motivo que Dora se volta para a Sra. K. O que passou desapercebido no tempo do tratamento era a enorme admiração de Dora por esta mulher. A mulher a quem nada falta (talvez por ter sido amante de seu pai?). A bissexualidade é o mais importante de se notar no caso Dora, seu olhar está voltado muito mais para a Sra. K, ela possui as respostas que interessam Dora. O problema de Freud é pensar um caminho estruturado para a libido, como se ela tivesse uma direção certa a percorrer.
A histeria é uma questão que muito interessa à filosofia! Problemas filosóficos não comportam soluções fáceis, na verdade, a grande potência da filosofia são seus problemas, não suas soluções. Mas Freud cai na armadilha de tentar responder rapidamente, e suas interpretações são um desastre, porque se afastam da potência da libido de Dora, que almeja mais caminhos do que o Sr. K. poderia prover. A histeria está empenhada em frustrar nossas certezas. Com sua interpretação, Freud chega num lugar final, sendo que não há lugar final para se chegar.
O Sr. K
Inclusive, lendo o caso, é muito fácil perceber como o caráter do Sr. K é muito questionável. Seria fácil defini-lo como um cafajeste, um abusador, e Dora percebe isso. Antes de mais nada, ele tenta beijá-la com apenas 14 anos, planejando toda uma situação para que isso acontecesse. Durante a viagem, certa vez, Dora acordou e viu o Sr. K em seu quarto, olhando pra ela. Assustada, ela pegou uma chave para trancar o quarto, mas a chave misteriosamente sumiu. Isso deixou Dora muito receosa, ela começou a se trocar rapidamente, com medo. Na cena maior no lago, mesmo sendo casado, ele pede a mão dela, sua reação (natural) é dar um tapa o pretendente e sair correndo. A situação foi tão extrema que ela considerou atravessar o lagoa pé, mas demoraria 2h30min Não podemos esquecer que Dora tinha 16 anos. Pouco depois de tentar beijá-la no lago, ela descobre que o mesmo assédio ocorreu com a governanta da casa, que se demitiu e relatou a Dora que o Sr. K. havia feito as mesmas investidas românticas para ela. A insistência do Sr. K é nítida, durante um ano ele enviava flores para Dora todo dia, lhe dá joias e outros presentes. Mas Freud não o responsabiliza em nada, chega até mesmo a jogar a culpa dos sintomas na suposta masturbação precoce de Dora. Ou seja, o medo real é interpretado como tentação inconsciente. Por mais que houvesse uma ponta de desejo, ignorar todos os aspectos sociais do caso é não ter a devida consciência do momento social em que se está inserido.
Conclusão
Freud colocou a interpretação sob o signo da sexualidade, coisa que poucos tiveram a coragem de fazer, mas recai numa sexualidade normalizada pelo seu tempo, não consegue ver além. A teoria de Freud sequestrada por sua pessoa. A psicanálise, com toda a sua potencialidade, suas valiosas descobertas, fica nas mãos desta figura arrogante e convencida. Dora foi sua vítima, que precisou passar pelo processo analítico de forma traumática para que ele crescesse e se redimisse de seus erros. Mas não todos. A psicanálise, depois de afastar-se de Dora, passou anos longe das histéricas, desenvolvendo a teoria do Complexo de Édipo através do estudos de seus pacientes obsessivos.
A psicanálise é um saber vivo, que precisa constantemente olhar para si mesmo com o tom crítico necessário para perceber onde errou ao percorrer seus percursos teóricos e práticos. Mesmo Freud, em sua teimosia, foi capaz de perceber isso, pena que demorou tanto… Dora foi mais rápida, bastou onze semanas para ela perceber que as interpretações analíticas não estavam levando a nenhum outro lugar senão os braços do Sr. K., onde ela, muito provavelmente não gostaria de estar.





