Os filósofos concebem os afetos com que nos batemos como vícios em que os homens caem por culpa própria. Por esse motivo, costumam rir-se deles, lamentá-los, maltratá-los e (quando querem parecer os mais santos) detestá-los. Acreditam assim, fazer coisa divina e alcançar o cume da sabedoria, ao louvar de muitas maneiras uma natureza humana que em lugar nenhum existe e fustigar com suas sentenças aquela que deveras existe” – Espinosa, Tratado Político, cap. 1, §1

Uma teoria dos afetos é essencial no projeto ético de Espinosa, ainda mais se levarmos em consideração todas as besteiras que já foram escritas. Se poucos se perguntaram “o que pode um corpo?“, ainda menos pensadores levaram a sério o questionamento: o que podem os afetos? Como pode tal assunto, tão privilegiado por enlaçar ontologia e política, ter sido negligenciado por tanto tempo?

Bom, não é de surpreender, deixamos uma questão tão importante para ser respondida por teólogos, filósofos moralistas, ressentidos, enfim, sacerdotes ascéticos. Sim, uma palavra sobre esta grande figura. Sua intenção é clara: mortificar os afetos, se possível, suprimi-los. Seu objetivo é fazer o homem sentir horror de si mesmo, vergonha de ser quem é. O sacerdote ascético fala como se o homem tirasse a natureza de seu curso certo, como se o homem fosse um erro da criação divina, uma abominação da natureza.

Concebem os homens não como são, mas como gostariam que fossem” – Espinosa, Tratado Político, cap. 1, §1

Àqueles que veem o homem como algo que deturpa a natureza, só interessa uma coisa: que ele esteja fraco! O sacerdote ascético maldiz os afetos e imagina que o único modo do homem tornar-se virtuoso é eliminando todos eles de uma só vez. Nietzsche também notou que os ideias ascéticos eram administrados contra a vida e não poderiam de forma alguma levar a uma vida melhor. Maldizer o homem só pode levá-lo a se sentir cada vez mais impotente, afastado do que pode, culpado. Quem maldiz a natureza humana quer apenas torná-la fraca para subjugá-la!

Quase todos que escreveram sobre os afetos e a maneira de viver dos homens parecem tratar não de coisas naturais, que seguem as leis comuns da Natureza, mas de coisas que estão fora da natureza. […] atribuem a causa da impotência e inconstância humana não à potência comum da Natureza, mas a não sei que vício da natureza humana” – Espinosa, Ética III, pref.

Os moralistas se imaginam divinos, se acham acima do resto daqueles que condenam e maldizem, mas no fundo não passam de ignorantes, eles não sabem o que pode um afeto. Em todo juiz há uma vontade de poder, não de conhecer. Ou seja, muitos escreveram sobre os afetos, mas sem entendê-los, como se o homem fosse condenado à existência, a ter um corpo, a sentir, desejar.

Tratarei, pois, da natureza e das forças dos afetos e da potência da mente sobre eles com o mesmo método com que tratei de Deus e da mente nas partes precedentes, e considerarei as ações humanas e os apetites humanos como se fosse questão de linhas, planos ou corpos” – Espinosa, Ética III, pref.

chemicals2Não estamos aqui para maldizer a natureza humana, não estamos aqui para desprezar ou amaldiçoar o homem. Nossa intenção é clara: entender a maneira como os afetos nascem, se concatenam e circulam em nós e na sociedade. Qualquer projeto moral que pretenda por fim às paixões deriva de uma impotência de pensar. Sabemos disso porque é impossível alcançar a imperturbabilidade, a natureza espinosista é produção pura e constante.

Afetos de ódio, ira, inveja, etc., considerados em si mesmos, seguem da mesma necessidade e virtude da Natureza que as demais coisas singulares” – Espinosa, Ética III, pref.

Saímos da retórica dos ressentidos e niilistas para entrar na ciência dos afetos. Espinosa usa o método geométrico porque acredita que através de axiomas, postulados, corolários e escólios os afetos podem ser deduzidos, definidos e demonstrados claramente, sua intenção:

  1. Apresentar a causa ou gênese do afeto;
  2. Deduzir assim a essência do afeto e suas propriedades necessárias;
  3. Deduzir a relação deste afeto com outros já conhecidos;
  4. Apresentar proposições causais e relacionais universais e necessárias para os afetos.

Ou seja, os afetos são naturais, fazem parte da natureza humana, são modos com os quais nossa potência varia. O afeto é uma experiência vivida, é uma transição, ele é uma passagem de um estado para o outro no próprio ser! Todos que escreveram até agora sobre os afetos não os entenderam realmente porque os trataram como coisas que não deveria existir e eram erradas. Espinosa quer corrigir este grande erro na história da filosofia.

Procurei escrupulosamente não rir, não chorar, nem detestar as ações humanas, mas entendê-las. Assim, não encarei os afetos humanos, como são o amor, o ódio, a ira, a inveja, a glória, a misericórdia e as restantes comoções do ânimo, como vícios da natureza humana, mas como propriedades que lhe pertencem […] embora sejam incômodos, são contudo necessários e têm causas certas mediante as quais tentamos entender sua natureza” – Espinosa, Tratado Político, cap 1, §1

Conhecer é conhecer pela causa. O que causa a minha alegria ou a minha tristeza? Elas têm causas diretas, quais são? A constituição de um corpo que entra em contato comigo e a constituição do meu corpo no momento da afecção. Esta afecção, quando entra em relação com as partículas que me constituem, ela propicia que eu seja afetado de maneira positiva ou negativa? Cada afeto tem uma natureza determinada e uma origem (veja aqui), ele afirma, fortalece ou nega, enfraquece a minha capacidade de existir? O conatus, esforço, é favorecido ou impedido? A alegria é uma relação de potência com o mundo, é um devir que ganha mais força, mais mobilidade, mais potência, mais maneiras de agir. Na tristeza, ao contrário, perdemos potência, nosso horizonte se contrai, passamos para um grau inferior de perfeição e participação na natureza.

Da alegria derivam afetos alegres, da tristeza, afetos tristes. Medo, esperança: tristeza ou alegria de algo instável que pode acontecer. Desespero, segurança: tristeza ou alegria de algo que está certo de acontecer. Amor, ódio: alegria ou tristeza acompanhados da ideia de uma causa exterior. Simpatia, antipatia: amor ou ódio por similaridade. Glória, pudor: alegria ou tristeza de si mesmo por afetar o outro com alegria ou tristeza. Humildade, tristeza por contemplar a sua impotência. Inveja: ódio da alegria que parece ser causa de outra pessoa. A lista é enorme e se multiplica com cada afeto, muito mais do que podemos colocar aqui.

Ou seja, os afetos se desdobram e devem ser estudados (muito mais que as simples apresentações no parágrafo acima). Saímos então do primeiro gênero do conhecimento, imaginativo, para entrar no segundo gênero de conhecimento, as noções comuns. O que seria mais digno de conhecimento que o homem e suas relações? Somente conhecendo claramente os afetos e como eles interagem é que podemos entender melhor a maneira do homem afirmar sua existência e alcançar um grau maior de felicidade. O homem pode moderar suas paixões sem mortificar-se, sem negar a existência delas ou escondê-las. Com o conhecimento dos afetos, abre-se o caminho da servidão para a liberdade.

O homem não está acima da natureza para sentir-se superior ou dominador, sabemos da impotência da homem frente ao mundo, somos pequenos, limitados, vivemos em constante estado de servidão. Mas isso não significa que devemos desistir, somos uma pequena parcela de potência, mas podemos agir para melhor escolher os encontros que fazemos e moderar nossos afetos.

Espinosa, inclusive, na quinta parte da Ética, nos prescreve cinco remédios para os afetos. Assim nos tornamos donos de nós mesmos, encontramos uma autonomia ética, sem afastar os afetos, nem dominá-los, mas usando-os em suas medidas adequadas para encontrar uma vida ética e alegre.

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Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

10 comentários

  1. Viver é estar em relação com o mundo. É modificar e ser modificado. É afetar e ser afetado. Segundo a segundo,Montanha russa da potência de agir. Alegria e tristeza. Vida e morte.

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