Alguns milênios serão necessários para o mais potente dos pensamentos” – Nietzsche, Escritos Póstumos (primavera – outono de 1881)

Nas montanhas de Surlei, em Sils Maria, Nietzsche teve a visão de sua vida: o Eterno Retorno do Mesmo. Deste momento em diante, este pensamento acompanharia toda a sua obra e expressaria uma única vontade, o desejo de retorno à imanência. Esta vontade se concluiria com o amor-fati e a Transvaloração de Todos os Valores. Mas Nietzsche percorreria ainda um longo caminho antes que isso fosse possível.

"Com um poderoso bloco piramidal próximo de Surlej, eu parei. Então eu tive essa idéia"
“Naquele dia eu caminhava pelos bosques, ao longo do lago de Silvaplana; detive-me junto a um imponente bloco de pedra que se ergue na forma de pirâmide, pouco distante de Surlei. Então veio-me esse pensamento” – Nietzsche, Ecce Homo

Para dar a cabo a sua tarefa, Nietzsche precisou repensar o conceito de Eternidade, que coloca o ser em detrimento do vir-a-ser. Toda a história do pensamento ocidental, desde Platão, está contaminada pelo pensamento transcendente. É preciso então retornar aos pré-socráticos, junto a Heráclito e relembrar o rio que flui eternamente sem nunca parar, e no qual nunca podemos entrar duas vezes.

Nietzsche trabalha arduamente para trazer a eternidade novamente para este mundo e o Eterno Retorno é uma de suas ferramentas conceituais para isso. Podemos entender mais claramente este embate como duas concepções em conflito: Eternidade Temporal versus Eternidade Atemporal. O maior representante da segunda tese, já sabemos, é Platão que pensa a eternidade fora da existência, no mundo das Ideias, mas existem inúmeros outros que seguiram sua filosofia: Aristóteles, com o Motor Imóvel; Plotino, negando a eternidade para a natureza sensível; Santo Agostinho, trazendo o platonismo para o cristianismo e pensando um Deus eterno e atemporal criador de tudo a partir do nada; São Tomás de Aquino; passando por Descartes entre outros… até chegarmos em Kant e a modernidade.

Nietzsche retorna a Heráclito para pensar o mundo como fogo eterno que se consome e se recria, mas sempre aqui, neste mundo. Sua pergunta inicial é simples: “Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente?”, com este problema se torna possível trabalhar em cima do conceito de Eterno Retorno, um dos mais importantes de sua obra.

Ele funciona como uma ferramenta (assim como todo conceito), que o filósofo desenvolve, para enfrentar o niilismo que se espalha como uma sombra pelo corpo da humanidade, toma de assalto o homem e o leva à decadência. Nietzsche vê todo edifício filosófico europeu pautado na eternidade atemporal ruindo rapidamente e resolve tomar um caminho radicalmente diferente para dar conta de uma vida ética.

Depois da Morte de Deus, seria necessário combater o cansaço e a desvalorização de todos os valores. Nietzsche trabalha o Eterno Retorno como uma arma contra o niilismo, para revertê-lo e dar um outro centro de gravidade para os valores: esta realidade, esta vida. A força do Eterno Retorno está na possibilidade de fundar uma filosofia pautada na imanência pura. Eis a sua importância.

A vida tornou-se-me leve, a mais leve, quando exigiu de mim o mais pesado” – Nietzsche, Ecce homo

Textos:

Para Ilustrar nossa série, trazemos o trabalho de Melissa Mccracken.

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