Ética

Os epicuristas e a boa vida

A filosofia epicurista ficou mais famosa pela ética do que pela canônica ou pela física, ainda que estas últimas sejam fundamentais para a primeira. De maneira geral, isso é fruto do helenismo, época de difusão e popularização da filosofia, onde as demandas por pensar a felicidade tornam-se mais urgentes. No entanto, é sempre bom lembrar que essa divisão em três doutrinas é apenas didática. A teoria da natureza e sobre o conhecimento são condições necessárias para a reflexão sobre a felicidade.

A ética epicurista – diferente da platônica, aristotélica ou estoica – começa com a pergunta: o que move os seres humanos? É a partir da resposta para o móvel da ação humana que Epicuro irá propor sua visão sobre a felicidade. Primeiro, encontrar o que já está dado na natureza humana em ato, para depois pensar a finalidade imanente às ações. 

“Chamamos o prazer princípio e fim da vida feliz. Com efeito, sabemos que é o primeiro bem, o bem inato, e que dele derivamos toda a escolha ou recusa e chegamos a ele valorizando todo bem como critério do efeito que nos produz”

– Epicuro, Sentenças e Máximas

Sim, parece bastante simples: a ética epicurista começa com a percepção de que o prazer é o início e o fim da vida feliz. No entanto, Epicuro não foi o único a propor uma ética hedonista, isto é, relativa aos prazeres. Antes dele, os cirenaicos, uma escola socrática menor, já havia proposto tais ideias. Estes foram completamente desprezados pela maior parte dos filósofos, pois propunham o prazer a qualquer custo, para além das convenções sociais e moralidade costumeiras. Assim, o epicurismo depende de uma qualificação da visão sobre os prazeres para tentar requalificar o hedonismo.

Historicamente – aliás, infelizmente – a doutrina epicurista foi lida como uma busca irrefreável pelo prazer. Leituras estas posteriormente movidas por detratores cristãos, interessados em deslegitimar uma filosofia que era vista como inimiga por se opor ao cristianismo ponto a ponto. Hoje sabemos que estas críticas não se sustentam, pois o epicurismo é, antes de mais nada, uma busca disciplinada por prazeres simples, constantes e comunitários.

“Se as coisas que proporcionam prazeres aos dissolutos pudessem livrar o espírito das angústias sobre os fenômenos celestes, a morte e os sofrimentos e se, ademais, elas lhes ensinassem o limite dos desejos, não teríamos nada a repreendê-los, já que estariam mergulhados em prazeres sem nenhuma mistura de dor e de tristeza que constituem precisamente o mal”

– Epicuro, Máximas Fundamentais

As pinturas de Pierre-Henri de Valenciennes ilustram essa série

Os prazeres desenfreados dos libertinos não se enquadram na ética epicurista, simplesmente porque atrapalham a felicidade. Isso fica claro quando consideramos que a ideia de vida feliz da maior parte das escolas helênicas – a eudaimonia – tem a constância como paradigma. Ou seja, se episódicos e inconstantes, os prazeres mais atrapalham do que auxiliam a vida. É preciso compreender de uma vez por todas que o epicurismo é rigoroso em relação aos prazeres e é isso que o diferencia das outras escolas hedonistas.

Se o prazer é princípio e fim, então pode-se concluir que a dor é contrária à nossa natureza. Isso está bem claro, dizem os epicuristas, ao observar um recém-nascido: se tem fome, ele chora; quando saciado, parece contente. A busca pela harmonia com nossa natureza depende então de uma reflexão sobre os prazeres que compensam as dores. Mais do que uma reflexão, a ética epicurista é um esforço no sentido de afastar as dores e fazer durar os prazeres.

Assim, a filosofia tem como objetivo principal fornecer a cada um os meios de realizar uma vida boa. Dizendo de outra forma, o pensamento coloca-se em função do fim que se apresenta em nossa natureza, o prazer, rumo ao qual todos os desejos se orientam. O estudo da natureza, da razão e dos sentidos é o caminho para a redução dos temores, que impedem a fruição dos prazeres simples. Em outras palavras, não existe ética sem uma filosofia dedicada, ao mesmo tempo, a afastar os medos e avaliar os prazeres.

Os prazeres e dores são afecções, tão evidentes quanto as sensações, que nos indicam o caminho a seguir. Perguntamos então: se é tão óbvio, por que se preocupar com isso? Porque a vida humana, principalmente no que concerne aos desejos, não é tão simples assim. O tempo todo nos enganamos tomando como objetos necessariamente prazerosos aquilo que não passa de opinião, geralmente equivocada. 

“Nenhum prazer é em si um mal, mas as coisas que nos proporcionam certos prazeres acarretam sofrimentos às vezes maiores que os próprios prazeres”

– Epicuro, Máximas Fundamentais

O prazer, em si mesmo, não pode ser um mal, pois é uma evidência tal qual a sensação de calor ou frio. No entanto, há uma dinâmica complexa entre prazeres e dores, onde os primeiros se transformam nos segundos e vice-versa. Com a intenção de viver uma boa vida, aprender a avaliar os prazeres, sabendo quais desejos seguir e quais abandonar – é este o principal objetivo da filosofia de Epicuro.

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