O ressentimento é uma das condições mais perigosas ao homem e, infelizmente, esta parece ser sua condição moderna. Para Nietzsche, o ser humano declina, seu grande medo é que o ressentimento se torne de tal forma contagioso e perigoso que consiga operar uma inversão dos valores. Aqui o pesadelo se torna realidade: os fracos triunfam sobre os fortes.

Mas antes precisamos entender a gênese do ressentimento, e Nietzsche nos dá as ferramentas corretas de dissecação, é preciso ter estômago forte para abrir este corpo podre exalando vingança e impotência, com certeza não é tarefa para qualquer um. Onde se esconde a moléstia? Como lidar com esta enfermidade?

Para entender melhor, precisamos analisar a famosa oposição “moral de senhores versus moral de escravos”. Por trás destas morais encontra-se a Vontade de Potência como força de afirmação e criação que opera uma hierarquização das forças, uma valoração dos valores, uma estrutura onde as forças de conservação servem às forças de criação e expansão. Estes tipos psicológicos são definidos por Nietzsche:

Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de início a moral escrava diz Não a um ‘fora’, um ‘outro’, um ‘não-eu’ – este Não é seu ato criador” – Nietzsche, Genealogia da Moral, 1a. parte, §10

A ação do senhor, em sua própria força e vigor, afirma sua vontade: sua lei é a afirmação de si. Fluxos em um campo de forças buscando cada uma sua própria ampliação e afirmação. O tipo Aristocrático é predominantemente ativo, suas ações são espontâneas, quase inocentes, fruto de um excesso que transborda. Sua saúde necessita de um mínimo de estímulos para explodir em atos, para extravasar e criar, sua capacidade de agir no mundo com esta leveza o faz dizer Sim para seus próprios atos, ele legisla através de sua própria afirmação, se diferencia no processo e todo o resto é uma consequência de si.

O tipo escravo, por um desequilíbrio das forças, não tem vigor o bastante em sua ação, seu ato é sobrepujado pelas forças externas. A fraqueza do escravo impede que sua força se afirme plenamente, ele não é dono de si, é constrangido, desviado, impedido constantemente em razão de forças externas que o ultrapassam. Em face de um mundo ameaçador e perigoso, o escravo diz Não, ele sente o Não como uma entidade ontológica e totalizadora. Tudo é complicado demais, pesado demais, a vida exige demasiado esforço. Ao escravo, levando em conta sua desordem fisiológica, sua debilidade, pusilanimidade, está vedada a ação. Nele, a Vontade de Potência não pode afirmar-se plenamente, o escravo não pode devir, ele não está à altura do mundo.

Se desconhece a essência da vida, a sua vontade de poder; como isto não se percebe a primazia fundamental das forças espontâneas, agressivas, expansivas, criadoras de novas formas, interpretações e direções, forças cuja ação necessariamente precede a ‘adaptação'” – Nietzsche, Genealogia da Moral, 1a. parte, §11

A oposição Senhor/Escravo, Nobre/Plebeu, remete à Vontade de Potência porque é nela onde as forças de diferenciação e expansão organizam o corpo do homem. Ao nobre, por sorte, cuidado, condições adequadas, é possível o livre fluxo de sua força; ao escravo, por azar, descuido, condições desfavoráveis, sua ação está vedada, quase completamente obstruída, sua potência de diferenciação é debilitada.

O nobre confunde sua valoração com o mundo, porque o mundo mesmo parece estar em suas mãos, ele demonstra um controle de si e de sua relação com o que lhe é exterior, os dois movem-se em harmonia, uma dança onde os dois crescem em potência; já o escravo de imediato cria uma separação entre ele e o mundo, negando o exterior em busca de afirmar-se com seus parcos recursos.

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“Homem desconfiado da vida útil de seu próprio coração” Susano Correia

Nietzsche analisa do ressentimento através de uma fisiopsicologia: de que forma o ressentimento nasce da impotência e contamina o organismo? Analisando o Nobre e o Plebeu podemos ver como no primeiro, a ação toma corpo e mesmo a reação é forte o bastante para encontrar caminhos novos e inesperados. O nobre dispõe de uma plasticidade que o faz ativo no processo, ele é capaz de agir de múltiplas maneiras e afirmar-se sempre com o máximo de potência e espontaneidade; não há hesitação em pôr-se à prova! Já o escravo, acovardado pelos estímulos que vêm de fora, cegado pelo medo, não encontra saídas, fica paralisado, consegue apenas esboçar reações mecânicas, reflexos prosaicos, toscos e infrutíferos; não se sente digno de lutar.

A cama está armada para o nascimento do ressentimento. Como diz Nietzsche: “O ressentimento, a ninguém é mais prejudicial que ao próprio ressentido” (Nietzsche, Ecce Homo, §6). Em sua incapacidade de agir, o tipo escravo tende a se tornar cada vez mais doente e incapaz, cada vez mais extenuado e incapacitado. Em sua busca por afirmação, ele recorre a táticas desesperadas: a confundindo com o alívio de energias represadas, tomando excêntricas atitudes que descarregam de uma vez toda sua força, mas que o torna, por fim, ainda mais frágil frente aos estímulos externos.

A descarga de afeto é para o sofredor a maior tentativa de alívio, de entorpecimento, seu involuntariamente ansiado narcótico para tormentos de qualquer espécie” – Nietzsche, Genealogia da Moral, 3a. parte, §15

O ressentido busca o alívio de sua dor, seu desconforto, a Vontade de Potência busca caminhos para afirmar-se, mas encontra apenas becos sem saída. Então, já incapaz de afirmar, até mesmo a reação torna-se inautêntica, incapaz de criar e diferenciar-se, inapta para dar conta da relação entre as forças interiores com as exteriores. Chega o momento para o qual Nietzsche nos alertou: a dor se contamina de ressentimento. Mágoa, raiva, ira, ódio tomam a consciência. Ao fraco, abre-se o assustador destino de ressentido, a incapacidade de esquecer aqueles que o ofenderam, a raiva contida, dissimulada, daqueles que o superaram, a dor persistente e atrofiadora, a sede de vingança.

Sofrimento de obstrução fisiológica”  – Nietzsche, Genealogia da moral, 3a. parte, §17

O ressentido afunda lenta e invariavelmente em seu ressentimento, alimentando retaliações imaginárias, planos de redenção e julgamentos finais. Sujando-se em sua própria imundície, o ressentido deixa-se levar pela imaginação, torna-se profundo, procura por sinais, interpretando signos que possam levá-lo a redimir-se frente sua plateia imaginária. O caminho rancoroso que o ressentido segue o afasta da saúde, ele se fecha cada vez mais, cria mundos, e, eventualmente, torna-se inacessível.

Onde ainda se encontra a saúde do homem moderno contaminado pelo verme do ressentimento? Ele acredita demasiadamente na identidade para se deixar levar pelo devir; ele se encontra exageradamente afundado em si mesmo para realizar os encontros que só acontecem na superfície; ele acredita excessivamente em quem é para dar um chance à espontaneidade em si mesmo.

É preciso ter ainda o caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo, tendes ainda o caos dentro de vós” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 18

Do caos emergem as forças! Na criação, o homem do ressentimento se desfaz, desmonta. O ressentimento é o primeiro degrau que Nietzsche encontra ao seguir escada abaixo em direção à má consciência e aos valores ascéticos. Ao psicólogo cabe estudar a fundo seus sentidos e seus sintomas, buscando neutralizá-los, ou (por que não?) conduzi-lo por seu deserto até atravessá-lo e encontrar terras novas (transvaloração dos valores).

Texto da série: Ressentimento

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

19 comentários

  1. Encontrei uma forma de achar Deus utilizando a filosofia de Nietzche, mas me surpreendeu quando vi quem era Deus: Era eu mesmo! Sim, pois eu não precisava de mais ninguém, a não ser para desfrutar das belezas da vida, independente daquilo que ela me oferecesse.

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  2. Parabéns pelo texto, muito bem escrito! Porém, tenho algumas problematizações.
    Entendo que Nietzsche era uma autarquista, conservador, atacava ferozmente o anarquismo e detestava a democracia porque é onde se vive também o “fraco”.
    Esse mesmo autor, perpassa ideias misantrópicas, como em seu livro o anticristo ele diz: “quem entendeu meu zaratustra talvez nem exista mais, e a humanidade? a humanidade é o resto”.
    Em seu texto você diz (…) “Ao nobre, por sorte, cuidado, condições adequadas, é possível o livre fluxo de sua força; ao escravo,por azar, descuido, condições desfavoráveis, sua ação está vedada, quase completamente obstruída, sua potência de diferenciação é debilitada”.
    Acredito que “condições adequadas” e “condições desfavoráveis” – a partir de uma análise Histórico-Social-, legitimariam, de certo forma, o ressentimento e a revolta, já que essas predisposições – de Classe Social e não de uma “vontade de potência”- , selecionariam os verdadeiros “criadores” sem antes mesmo de haver criados certos homens verdadeiramente criativos.
    Um abraço !

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  3. agora entendi. o ressentimento so faz mal a mim mesmo. que bom que achei esse texto, pois eu ja tava me auto destruindo de tanto ressentimento. mas me encontro numa situaçao que minha vontade esta bloqueada e nada posso fazer pra melhorar minha vida, tambem nao tenho coragem pra me suicidar. acho melhor me dar como derrotado, e aceitar minha miseravel existencia, em vez de sentir ressentimento.

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  4. Eu discordo de voce porque voce quer usar nietzsche e toda mentalidade ocidental da psicologia pra explicar algo que vai muito alem de sua racionalidade ocidental. Eu descobri pesquisando no google em ingles como se livra do ressentimento. Não é necessario ter ressentimento, pois os que me prejudicam irão cedo ou mais tarde, neste vida ou na proxima, encontrar seu proprio karma, e pagar pelo que fez. Foda-se o ateísmo ocidental e foda-se nietzsche. Só a espiritualidade é superior a materia fraca e debil. Foda-se a razão. foda-se o ateísmo.

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  5. acho que o RESSENTIMENTO eh valido sim, mas ele deve ser manifestado de forma oculta. o teu discurso de psicologo eh so pra manipular as pessoas, quer que tudo seja bonitinho e belo, o tipo de cara que acha que so as pessoas superiores merecem alguma coisa nessa existencia. eu acho valido mostrar ressentimento de forma mais culta e pacifica, como votando num partido de esquerda, tendo um estilo de vida subversivo, e caso tenha dinheiro fazendo uma magia negra pra quem merece, pelo menos eu penso assim. o ressentimetno pode ser de alto nivel, nao precisa ser o puro odio psicotico de um revoltado que o levaria a morte ou a prisao. o ressentimento pode ser de alto nivel e demonstrado com attitudes mais elevadas. pra ir contra esse lixo ateu do nietzsche.

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  6. foi com voce e devido aos comentarios aqui, que descobri que o ressentimento pode ser culto e de alto nivel, ele eh mostrado atraves do marxismo. nao que eu seja marxista, mas essas ideias a qual voces criticam sao influencia pra eu lidar com minhas emoçoes de maneira mais positiva. eu pude descobrir em mim como eu sempre usei a energia do ressentimento de forma positiva quando aplico a maneira de pensar e agir. nao como um psicotico que faz loucuras, crimes etc e sim aprendi agora a ter um ressentimento mais refinado, demonstrado em açoes sutis. eh fato que o que mais detesto nessa existencia sao caras narcisistas do tipo “alfa“ “popular“ “poderoso“ etc tudo que nietzsche elogia eu desprezo e faço o contrario. prefiro ser escapista e fantasioso. obrigado intelectuais ou da psicologia ou fascistas que comentaram aqui, devido a voces pude aprender um ressentimento mais sutil, mais comportado, mais pacifico, normal e tranquilo.

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  7. eu tive muito ressentimento por culpa do verme do meu pai que me criou na violencia, sempre dando esporro, agredindo, gritando, humilhando. uma professora de educaçao fisica da epoca da escola disse que eu nao pasaria dos 30 de tanto odio que eu sentia. e agora tenho 30. ja soquei a cara do verme do meu pai, e ele ja me internou duas vezes por causa disso. eu tenho que me lembrar do que essa professora falou. nao da pra sentir odio, ressentimento, se pressionar pra vencer na vida, porque isso me traria um destino humilhante, de morte, por culpa desse verme desgracado, e por culpa de pessoas que me humilharam, eu posso morrer e ai sera humilhante, humilhante morrer. por isso nao gosto de nietzsche pois nele tem essa coisa do “`vencer como obrigaçao“. eu desisto de ser feliz, desisto de vencer, desisto de sentir odio, desisto de ter ressentimento, assim nao terminarei morto e humilhado. antes fracassado e vivo do que morto e humilhado.

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  8. Esse conceito de Nietzsche de “morte aos fracos”, lembra o “humanitismo” machadiano do “ao vencedor às batatas”. Sei lá, do pouco que se vi de filosofia de Nietzsche, parece que há um ódio a todo platonismo, cristianismo, etc e etc… E depois vem contarem a história de só pessoas fracas sentem isso, que isso é indigno, etc… E quando o forte reproduz uma geração de fracos? Não seria mais feliz esse ser derrotado, para gerar maior potência? Não seria mais feliz multidões de escravos se tornando senhores do mundo, do que senhores os sujeitando? Porque essa lógica sempre destrutiva, como se o ser humano não pudesse construir nada de bom entre si; que invariavelmente todas paixões, anseios de potência tivessem que passar pelo crivo do egoísmo e luta sem fim; como se o próprio ser humano não fosse já antes um ser nascido a partir de outros… Isso é um mega problema, simplesmente impossibilitar qualquer pensamento de empatia, consideração, como se o ser humano não fosse um ser de outros… Como se simplesmente pudéssemos deixar de lado os outros, quando nossos próprios desejos de potência é de influir nos outros. Que invariavelmente nos escravizam ao outro, pois o desejamos, queremos ter potencia sobre o outro. Clamamos por tocar, agir, poder sabe lá o quê. sobre os outros. Bem, realmente, Nietzsche não se entende com a lógica, com a razão, pois simplesmente não se encaixa nenhum tipo de conceito de verdade nele. Inclusive as próprias ideias que ele propõe, tudo no campo da fantasia e ficção; o caso típico de psicose. Como se, por exemplo, uma pedra atingir uma pessoa não tivesse um senso de realidade mais que “imaginativo”, de tudo ser um efeito psicológico. Muito lindo como meio de romper à racionalidade fria e inútil contemporânea, mas péssimo de ser vivido. A partir do momento que negamos a possibilidade de construção feliz mútua, negamos que podemos sim nos descontrolar em ações idiotas, negamos que no fundo queremos o que há no outro(amor), é meio caminho para enlouquecer. Uma coisa é apresentar Nietzsche para desconstruir as coisas, outra o exaltar como um deus e novo critério de verdade

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  9. Parabéns e obrigado pelo excelente texto. Estou fazendo um estudo sobre o livro de Jó e cheguei ao tema “Ressentimento” e suas colocações aqui foram muito proveitosas.

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