Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?…” – Nietzsche, Genealogia da Moral, 1a parte, § XIV

Em Nietzsche, tudo é trabalho de interpretação e avaliação. “Como nasce uma moral?“, se pergunta o filósofo do martelo, “de que forma um valor se transforma, cresce ou perde força?“. A resposta para estas perguntas encontra-se na saúde e na doença daqueles que avaliam. Cabe então, como Nietzsche fez em Genealogia da Moral, se perguntar: quem avalia?

Todo saber é um saber perspectivo, que nasce daquele que o enuncia e mantém. Bom é aquele saudável o bastante para criar valores; aquele capaz de, seguindo a própria força que o constitui, atuar no mundo. Boa é toda a força que afirma, produz, funda. O bom não é decorrência de algo, de algum efeito, de reconhecimento externo, ele é pura força que segue sua própria natureza. Por isso, muitas vezes, inspira medo nos outros. Sua ação não está separada de quem ele é, ou seja, um homem ligado ao que pode é bom, forte, senhor.

Primeiro e espontaneamente, de dentro de si, concebe a noção básica de ‘bom’, e a partir dela cria para si uma representação de ‘ruim'” – Nietzsche, Genealogia da Moral, 1a parte, §XI

Mesmo quando o homem fica doente (veja aqui), quando cai impotente, é preciso uma reserva, um plus de força, uma confiança de que a doença pode lhe trazer os benefícios necessários para quanto recobrar a saúde. Isso é muito importante, doença não é sinônimo de ressentimento. Um bom filósofo precisa estar preparado para seus momentos de debilidade, sem se deixar levar pelo desgosto, sem maldizer a vida; assim, a doença lhe permite novas perspectivas que não poderiam ser alcançadas de outra forma. A doença se transforma em ressentimento, se deixa contaminar, apenas quando as forças ativas perdem a capacidade de atuar (veja aqui). A mente se torna inundada pelos acontecimentos passados e a sede de vingança começa lentamente a tomar forma e buscar por um sentido.

O ressentimento nasce com a incapacidade das forças criativas de afirmarem-se, a perda desta plasticidade da Vontade de Potência é a principal causa do corrompimento. Trata-se de um melindre sem fim, o homem se deixa levar pelos piores afetos. Assustado, sem saber o que fazer, ele reage de maneira insensata, leviana, desconexa. Sua falta de engenhosidade o impede de enfrentar seus problemas e triunfar. Eventualmente, até mesmo sua reação perde efeito, ele apenas ressente, permanece imóvel, sem saber o que fazer, sem saber como atuar, o mundo o assusta e o homem passa a detestá-lo.

O escravo, dentro da perspectiva nietzschiana, é aquele que, por impotência, não consegue afirmar-se, não leva sua força até seu limite. A perda de plasticidade o torna rígido, ele se perde em seu mundo, sem conhecer as ferramentas que poderiam ajudá-lo ou sem saber manejá-las. O perigo mora na possibilidade assustadora de que a moral dos escravos passe a criar valores. E, para o horror de Nietzsche, isso acontece. Não que o fraco possa realmente criar valores, em razão de sua condição, isso ele não pode, mas está dentro de suas possibilidades inverter os valores, dando-lhes uma nova feição e anunciá-los como se fossem inteiramente novos.

A rebelião escrava na moral começa quando o próprio ressentimento se torna criador e gera valores: o ressentimento dos seres aos quais é negada a verdadeira reação, a dos atos, e que apenas por uma vingança imaginária obtêm reparação.” Nietzsche, Genealogia da Moral, 1a. parte, §X

Se os senhores criam a partir da vontade de potência que se afirma no mundo, dominando, regendo, governando; a moral dos escravos nasce de sua fraqueza, de seu ódio, de sua sede de vingança. A moral dos senhores é fruto de quem conquista, escala rochas em busca do topo; a moral escrava existe para conservar, nasce para evitar que as poucas forças que ainda o constituem se percam, é o descanso pacato do fim da semana. Numa está a coragem e a audácia, noutra, o medo e a covardia; numa existe singularização, noutra, a generalização.

O Sim dos senhores nasce da ação, do prazer em viver uma vida ousada, cheia de riscos, vigor, energia, experimentação. Esta vida é percebida como uma ameaça para os escravos que, em face de sua debilidade, procuram um lugar seguro, onde possam se conservar, adaptar-se facilmente, descansar. As duas forças habitam uma sociedade, um mesmo homem e até uma mesma e única ação. Vemos como nas mãos de Nietzsche, estas duas palavras perdem seu sentido original e se transformam em conceitos filosóficos

A vida se faz do encontro entre as forças ativas e reativas, o problema é quando o que Nietzsche chama de moral escrava passa a dominar, a negação toma o primeiro plano, a manutenção do status quo, o medo da diferença, a repetição monótona, reprodução irracional, hábitos engessados, sedentários. A moral dos escravos deprecia a vida porque a inverte, tomando o plano transcendente como verdadeiro e o plano imanente como falso, morre o devir, nasce a forma; morre a ética, nasce a moral (veja aqui). A rebelião escrava inverte valores e faz girar a roda do niilismo, começando pelo niilismo negativo.

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Na moral dos escravos a diferença é vista sempre como uma ameaça, ela pode prejudicar, ela assusta e cria reservas. Não há nada que um tipo escravo tema, e consequentemente odeie, mais que o tipo senhor. Esta insegurança mostra o quanto o escravo vê a vida como hostil. Mas, pela perspectiva do escravo, o mundo é realmente hostil, porque sua reação é mecânica e desprovida de criatividade. Poucas vezes ele consegue o que quer, e muitas vezes o mundo lhe mostra uma face cruel e impiedosa. Por isso para o escravo é essencial inverte os valores, para se conservar, encontrar um caminho, mesmo que estreito, para manter-se. Nietzsche mostra como até na doença é a Vontade de Potência que atua.

A fraqueza é mentirosamente mudada em mérito, não há dúvida“, quando ocorre a inversão dos valores, troca-se a guerra pela paz, “a impotência que não acerta contas é mudada em ‘bondade’; a baixesa medrosa, em ‘humildade’; a submissão àqueles que se odeia em ‘obediência’“, a felicidade que antes era conquista torna-se anseio de tranquilidade, repouso e apatia. “O que há de inofensivo no fraco, a própria covardia na qual é pródigo, seu aguardar-na-porta, seu inevitável ter-de-esperar, recebe aqui o bom nome de ‘paciência’, chama-se também a virtude; o não-poder-vingar-se se chama não-querer-vingar-se, talvez mesmo perdão” (Nietzche, Genealogia da Moral, 1a parte, § XIV).

Lógica simples: se o outro é mau, se o outro é ruim, logo eu devo ser bom. Eu me crio maldizendo o outro. Inverter valores para declarar forte o que é fraco e maldizer os fortes. As identidades aqui se fecham (síntese conjuntiva) , o escravo não pode criar, mas pode inverter valores, se digo que o outro é mau, eu devo ser bom, contrariamente à moral aristocrática que diz, “eu sou bom, tudo aquilo que não convém comigo deve ser mau“. A visão do escravo é tacanha, canhestra, ele não consegue ver o mundo ao seu redor porque este o ameaça, por isso ele se fecha, se esconde, mas não sem antes condenar aqueles que não vão para as sombras.

Ao escravo está vetada a ação, cabe a ele apenas reagir. Se não pode criar uma moral, pode ao menos inverter os valores. “A força é ruim, a fraqueza é boa“, eis a sua moral, claramente perspectiva, desprezível, decadente! A moral escrava expressa sua vida em declínio, seu julgamento é sua condenação. O ressentimento é sintoma de uma desaceleração das forças que constituem um corpo, da morte da diferença que antes se expressava.

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Há muito de ressentimento na psicologia cristã, mas seria leviano afirmar que apenas ela representa a inversão de valores de nosso tempo. O ressentimento está em toda parte, do fascismo ao anarquismo, passando pelo socialismo. Também, infelizmente, nos movimentos sociais, mesmo no feminismo e no movimento negro é possível encontrá-lo. É a erva daninha que cresce em todo jardim, por mais bem cuidado que ele esteja. Vivemos uma era de niilismo profundo onde nem os mais fortes escapam de uma parcela de ressentimento.

Mas a história não termina aí, ao ressentido não basta apenas inverter os valores, ele precisa propagá-los aos quatro ventos. “É uma vergonha que o forte seja forte, ele deve ser como eu!”.  Por isso é preciso tanto cuidado: “os doentes são o maior perigo para os sãos; não é dos mais fortes que vem o infortúnio dos fortes, e sim dos mais fracos” (Nietzsche, Genealogia da Moral, 3a parte, §XIII). Aqui vemos o triunfo dos fracos sobre os fortes. A doença contaminado a saúde: o triunfo dos escravos.

Texto da série: Ressentimento

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“Homem canhoto com dois braços” Susano Correia

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

10 comentários

  1. E infelizmente eu sinto que isso tende a piorar, pois somos ensinados e programados e sermos escravos de nós mesmo(ou as vontades que somos ensinados a querer).
    São poucos os que procuram sair dessa ”matrix” e enxergar um novo horizonte, pois há falta de vontade/força(infelizmente não a nada pior que o comodismo)…

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  2. Rafael, muito bons seus textos, parabéns.
    Tenho uma pergunta sobre o além-homem. Pelo que entendi até agora: Ele é “simplesmente” aquele que entendeu que essa existência é a única coisa real que nós temos e que, portanto, é o que mais faz sentido amar, dar valor, e não amar algo fora da vida, um ideal, que nos tira do presente e enfraquece nossos momentos. Ele esquece, desapega. Vive de uma maneira leve, ri fácil, não se preocupa e procura expandir suas forças ativas. E aí o que acho mais difícil: o necessário não o fere, amor-fati é sua natureza mais íntima.
    Mas olhando para mim mesmo e as pessoas ao meu redor eu acho isso tão raro, tão difícil. Tanto que o além-homem me parece ser o que ele menos é: um ideal. Para que faça sentido entender o conceito de além-homem e viver uma vida que vale a pena, com momentos que gostaríamos de eternizar, acho razoável que exista um bom número de pessoas que consiga viver de tal maneira. Porque se quase ninguém conseguir não seria real, seria mesmo um ideal. Então a minha pergunta é se estou imaginando o além-homem de forma muito rigorosa ou se é algo mais comum e muitas pessoas conseguem de fato viver assim boa parte do tempo.

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  3. Olá, pessoal

    Fico pensando o quanto existe um identitarismo nos movimentos sociais de “esquerda”, que quase sempre leva ao reacionarismo, ao embate e a divergência reativa, dificuldade na comunicação. Fico na dúvida: Seria isso também uma forma de ressentimento ? O apego a uma necessidade de idéia “pura”, idealizada, sobre algo ?

    Gostaria de ajuda para pensar sobre isso.

    Obrigado, abraços.

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  4. Complicado quando convivemos tão próximos aos “escravos”. É um desperdício de vida. Devo estar me tornando cada vez mais fraca também.

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  5. hummmm…o ressentimento se espraiou e colore de fraqueza as ideias políticas como o socialismo.
    Mas a autonomia e a beleza da força, do forte, do senhor – o orgulho da saúde criativa e da ação livre : estas ideias não se expressaram politicamente também no século XX? Para onde levaram? Algum registro?

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  6. Eu discordo totalmente de voces aqui e de nietzsche. Pra mim é neurose pura levar a serio essa coisa de ser livre, afirmar a vontade de poder etc Se for assim só as pessoas corajosas teriam direito a vida. E a eugenia de nietzsche é uma farsa, poruqe a eugenia leva em conta uma serie de fatores que sao contraditorios, como inteligencia, coragem, altura, habilidade social. Nõa existe essa de ser livre, ate porque vivemos num mundo onde somos prisioneiros mesmo. Não existe essa de viver a vida intensamente, isso leva a loucura, ninguem vive assim, quem vive, termina louco. A maneira correta de viver é pelo escapismo, o escapismo sim da sentido a existencia. No escapismo eu nao preciso ser eu mesmo, assim nao sofrerei de desejos de vingança, odio e ressentimento. No escapismo eu posso ver o mundo como algo passageiro, pois quando morrer estarei em outro lugar e esse mundo nao vai existir mais. Nietzche reprimiu seu lado espiritual.

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