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Neste ponto já não posso me furtar a oferecer uma primeira, provisória expressão da minha hipótese sobre a origem da ‘má consciência’: não é fácil apresentá-la, e ela necessita ser longamente pensada, pesada, ponderada. Vejo a má consciência como a profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão da mais radical das mudanças que viveu – a mudança que sobreveio quanto ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §16

Nietzsche possui uma hipótese: a má consciência é uma profunda doença que o homem contraiu. Isso significa que todo o árduo processo de construção de um indivíduo soberano, legislador, criador de valores se perdeu quando a cultura criou para si o homem dependente, malogrado, fraco! O indivíduo passa a, em vez de afirmar-se pela diferença, afirmar-se pela igualdade, procurar sempre aquilo que é o mesmo em si e no outro.

Susano Correia – Homem Face a Face com o Abismo

Ou seja, o homem tornou-se incapaz de afirmar plenamente as forças que o constituem, e passa a conformar-se às leis, regras, princípios e mandamentos que pairam acima dele. Pior, procura negar com todas as forças tudo o que difere, pois sente que qualquer diferença ameaça a base de sua igualdade. A sociedade constitui-se então por homens cada vez mais doentes, mais prostrados, mais fechados, atemorizados. Há apenas uma saída, desacelerar, frear os instintos.

O homem escolhe não mais dar vazão para seus impulsos, renegando todo o seu passado de nomadismo, agonismo, disputa! A Moralidade do Costume, que deveria criar uma individualidade imponente e afirmadora, recai sobre um homem acovardado, assustado, pusilânime. De projeto de soberania, filósofo legislador, espírito livre, além do homem, artista criador, criança, encontramos um homem malogrado, afogado no ressentimento, chafurdando na lama da má consciência, castrado pelos ideais ascéticos.

Enquanto o homem dispunha de si mesmo, de seus valores, sua força, nenhuma má consciência lhe vinha abater-lhe o espírito, ele a sacudia logo que aparecia! A partir do momento em que escolheu viver em celas apertadas demais para sua vontade de potência, sua ânsia de dominar e de viver, a má consciência fincou raízes profundas criando o que conhecemos hoje por espírito ou alma. Pelo menos esta é a hipótese de Nietzsche, a cisão radical do homem com as forças que o habitam tem sido o principal fator de sua doença. 

Mas, ainda assim, a negação destes impulsos não é o bastante para varrê-los da existência. Pelo contrário, o máximo que fazemos é jogá-los para debaixo do tapete. Há uma latência constante naquilo que não se pode extravasar, impulsos que pedem vez e voz. Ele se agitam dentro de nós, procurando por um momento de fraqueza, aguardando uma brecha para encontrarem seu caminho para fora. Nietzsche chama este assustador processo de “interiorização do homem”.

Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é  que chamo de interiorização do homem: é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’. Todo o mundo interior, originalmente delgado, como que entre duas membranas, foi se expandindo e se estendendo, adquirindo profundidade, largura e altura, na medida em que o homem foi inibido em sua descarga para fora”

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §16

Quanto maior a retração dos instintos, maior a interiorização do homem. Mais crescem suas galerias, corredores, cavernas e segredos. O homem que caçava, conquistava, coletava, dominava, explorava, agora corre por entre estas passagens internas recentemente abertas e ainda demasiadamente estreitas. O homem selvagem foi domesticado à força e agora pode ser encontrado debatendo-se dentro de seu próprio corpo.

Há definitivamente uma espécie de ruptura quando os instintos perdem a utilidade para o homem. Quando todos os impulsos que antes eram usados para conquistas, ou mera sobrevivência, tornam-se inúteis, o homem perde seu rumo. Os instintos volta-se para trás, esta limitação transforma o ser humano em um animal amansado, domado, em uma palavra: doente.

A hostilidade, a crueldade, o prazer na perseguição, no assalto, na mudança, na destruição – tudo isso se voltando contra os possuidores de tais instintos: esta é a origem da má consciência”

– Nietzsche, Genealogia da Moral II, §16

Aqui está a origem óbvia, explícita, da má consciência: uma força barrada, impedida de se manifestar. Nietzsche fala de imposições culturais, históricas e religiosas que obrigam os impulsos mais naturais e genuínos do homem a voltarem-se contra ele mesmo. Uma vontade de potência impedida de encontrar seus caminhos para fora. Este processo cria uma tensão constante, que não tem para onde fluir. O resultado é a sensação permanente de desconforto, irritabilidade. Esta condição cansa o ser humano, o fadiga. Preso em seu cativeiro ele procura por meios de saciar-se, sem sucesso.

Esse animal que querem ‘amansar’, que se fere nas barras da própria jaula, este ser carente, consumido pela nostalgia do ermo, que a si mesmo teve de converter em aventura, câmara de tortura, insegura e perigosa mata – esse tolo, esse prisioneiro presa da ânsia e do desespero tornou-se o inventor da ‘má consciência’

– Nietzsche, Genealogia da Moral II, §16

Nietzsche deixa o campo das hipóteses e encara os fatos: há relação direta entre a má consciência e a repressão dos costumes! Mas a violência e a crueldade apenas mudaram de direção! Nunca, nem por um minuto sequer, deixaram de existir. Da era do Ressentimento e do desespero nasce a Má Consciência! A inversão dos valores é causa direta desta condição. Se o homem não fosse enquadrado em uma sociedade que preza pela paz, pelo descanso, pelo homem manso e calculável, os instintos poderiam fluir em seu curso direto.

Onde estão os instintos que nos habitavam anteriormente? Ainda estão em nós, mas agora agem contra nós, gerando amargura e desespero, medo e desconfiança. A atividade foi trocada pela servidão! A empreitada e a investida tornaram-se obediência às ordens de um superior. Vivemos o que Nietzsche chamava de desordem dos instintos. Se o homem ressentido não se empenhasse com todas as forças para inverter valores, para enfraquecer os fortes, para infectar tudo que toca, a Má Consciência não cresceria com tanto vigor, descendo suas raízes até as entranhas do ser humano. Corpo e alma contaminados pelo ressentimento, de maneira cada vez mais purulenta! Do Ressentimento à Má Consciência, damos mais um passo em direção do abismo!

Isso porque este conceito é resultado de uma doença, e de forma alguma sua solução:

Com ela, porém, até hoje não se curou a humanidade, o sofrimento do homem com o homem, consigo mesmo: como resultado de uma violenta separação do seu passado animal, como que um salto e uma queda em novas situações e condições de existência, resultado de uma declaração de guerra aos velhos instintos nos quais até então se baseava sua força, seu prazer e o temor que inspirava”

– Nietzsche, Genealogia da Moral II, §16

Instintos em desacordo consigo mesmo, perdidos, confusos, desnorteados. Anarquia das forças que constituem a alma, nivelação medíocre da comunicação, barafunda da Vontade de Potência! Como deve ter sido desesperador para Nietzsche confrontar-se com suas descobertas! Principalmente porque o aspecto topológico da má consciência, a interiorização das forças, apenas aumenta da dor e desconforto, mas de forma alguma oferece uma saída para o problema. O remédio nos mata pouco a pouco, lentamente, sem que percebamos.

A matéria prima humana e semianimal ficou não só amansada e maleável, mas também dotada de uma forma”

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §17

Forma que limita, fixa, restringe os movimentos. O homem tornou-se automático, engessado, uma cópia malfeita de si mesmo, sua alma amputou seu corpo. Mas, dirá o ressentido, ao menos agora ele está protegido! Protegido de quê, de quem? De si mesmo? De seus instintos? De sua primitividade? Da sociedade doente que o criou e o mantém? A força sempre se afirmará para fora ou contra aquele que a carrega, não há terceira opção! Para proteger o homem de si mesmo e dos outros, criou-se um mundo vulgar, indigno, banal, desinteressante, vergonhoso, desesperador.

Pois bem, Nietzsche, filósofo do martelo, reclama exatamente estas forças guardadas, que mais incomodam do que dão frutos! Seu objetivo é afirmar a Vontade de Potência que ainda habita o homem. Isso tudo não tem nada a ver com reescrever contratos, revisar pontos obscuros. Não é uma questão de assinar um documento, refundar os direitos do homem, mas de retomar o processo dionisíaco onde uma força simplesmente se sobrepõe à outra. Aqueles que simplesmente possuem mais força, por qualquer motivo que seja, dominam os outros, Nietzsche quer reviver a ágora e o agonismo!

Sua obra consiste em instintivamente criar formas, imprimir formas, eles são os mais involuntários e conscientes artistas – logo há algo novo onde eles aparecem, uma estrutura de domínio que vive, na qual as partes e as funções foram delimitadas e relacionadas entre si, na qual não encontra lugar o que não tenha antes recebido um ‘sentido’ em relação ao todo”

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, § 17

A psicologia do artista está em relação constante com as forças. Mas seria fácil reinar sobre escravos, e não é isso que Nietzsche quer. Um filósofo-artista sempre procura por companhias que se igualem na capacidade de criar. Além do mais, não se reverte a má consciência sem destruir o ressentimento! Por isso a proposição imprescindível de uma transvaloração dos valores. Qual o valor dos valores que geram estes sintomas de doença? Para que servem eles? A quem servem?

Esse instinto de liberdade reprimido, recuado, encarcerado no íntimo, por fim capaz de desafogar-se somente em si mesmo: isto, apenas isto, foi em seus começos a má consciência” – Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §17

O problema gira em torno da inibição da descarga para fora. Uma liberdade reprimida, um movimento que encontra-se impedido! O ser humano sofre repreensões demais para suas expansões. Nada cabe neste mundo, por isso o homem volta-se para dentro, se fecha para o fora, abrindo galerias internas (onde pensa ser livre). A força que, dirigida para fora, como afirmação de si, mesmo em meio à violência e crueldade, é digna do artista é exatamente a mesma força que, dirigida para dentro, de maneira mesquinha e pequena, constrói ideais negativos que chamamos aqui de Má Consciência.

Já terão adivinhado o que realmente se passou com tudo isso, e sob tudo isso: essa vontade de se torturar, essa crueldade reprimida do bicho-homem interiorizado, acuado dentro de si mesmo, aprisionado no ‘Estado’ para fins de domesticação, que inventou a má consciência para se fazer mal, depois que a saída mais natural para esse querer-fazer-mal fora bloqueada

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §22

A destruição de Nietzsche é uma destruição ativa! Muito diferente da destruição dos ressentidos, que querem apenas nivelar o homem para baixo, tornando-o digno do sermão da montanha e da piedade divina. Mas uma criação envolve sempre uma parcela de destruição. Aquilo que deve perecer em nós, a doença, a mesquinhez, a fraqueza, as inibições.

Já por tempo demais o homem considerou suas propensões naturais com ‘olhar ruim’, de tal modo que elas nele se irmanaram com a ‘má consciência’. Uma tentativa inversa é em si possível – mas quem é forte o bastante para isso?

– Nietzsche, Genealogia da Moral, Segunda dissertação, §24

A Má Consciência é um fenômeno muito mais fisiopsicológico do que moral. Ela assemelha-se mais a um engasgo do que uma mancha da alma, ela deve lembrar mais uma condição física do que espiritual. A má consciência é, em certo sentido, natural, ela nasce da força voltada para trás (diferente do ressentimento que se finge forte, mas quer enfraquecer a todos). O caminho mais natural para as forças foi bloqueado, mas elas continuam lá!

Se fosse só isso o problema seria facilmente revertido! Mas uma questão muito mais preocupante nasce quando o ressentimento se apropria da má consciência para lhe dar um novo sentido.

Texto da Série:

Genealogia da Moral

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Vagner
Vagner
2 anos atrás

Explendido… magnífico…belo belo belo.

Jaqueline
Jaqueline
2 anos atrás

Amei. Gostei da explicação ,da explanação. Ótimo!

Leonardo
Leonardo
2 anos atrás

Grande texto. Muito bem abordado e explicado, fiel à realidade. O homem é seu grande vilão quando tenta viver escondido de si mesmo, e apesar de paradoxal, somente assim pode sobreviver. Ou encara a si e aos outros como todos o são, ou oculta seus eus para tentar uma vida um pouco menos pessoal. Parabéns!

FRANCISCO ALVES DE MEDEIROS NETO
FRANCISCO ALVES DE MEDEIROS NETO
2 anos atrás

acho que NIETZSCHE nos dar essas reflexões sobre a má consciência, dentro de uma reflexão de si mesmo. ao refletir, estes fundamentos seus RAFAEL TRINDADE.

Ana Beatriz
Ana Beatriz
2 anos atrás

A filosofia tem sido para mim uma jornada de auto descoberta, e esse texto e parte disto. Obrigada. Tambem me remeteu a Harry Haller, personagem do livro O Lobo da EStepe, de Hermann Hesse… o que nao deixa de ser um pouco de todos nos.

Jailson de Jesus Moura
Jailson de Jesus Moura
2 anos atrás

Parabéns Rafael Trindade, a cada dia vocês me surpreende.

Jailson de Jesus Moura
Jailson de Jesus Moura
2 anos atrás

Parabéns Rafael Trindade, a cada dia vocês me surpreende sobre os conhecimentos referentes aos pensamentos de Nietzsche.
Assim então, cada dia mais fico ” apaixonado” pelo bigodudo…Kkk,

Adriano
Adriano
2 anos atrás

Muito obrigado!