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O mundo visto de dentro, o mundo determinado por seu ‘caráter inteligível’ – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais”

– Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §36

O conceito de Vontade de Potência foi criado por Nietzsche como base para o desenvolvimento de outras ideias. Trata-se de uma proposição ontológica que sustenta toda sua teoria, inclusive sua genealogia da moral é retirada das relações entre a Vontade de Potência.

Nietzsche toma inicialmente este conceito de Schopenhauer. A vontade é cega e insaciável, uma força que estaria para além dos nossos sentidos. Una, ela representa tudo que vemos, é o substrato que constitui a existência. Mas para Nietzsche, a Vontade não está fora do mundo, ela se dá na relação, ou seja, é múltipla e se mostra como efetivação real. É impossível uma só força, uma força única e indivisível, a vontade de potência se diz sempre no plural. Sendo assim, o mundo seria esta luta constante, sem  equilíbrio possível, apenas tensão que se prova pelo movimento, às vezes delicado, outras vezes violento.

A vida é Vontade de Potência, mas não se pode restringi-la apenas à vida orgânica; ela está presente em tudo, desde reações químicas mais simples até à complexidade da psiquê humana (e é é no ser vivo que a vontade de potência pode se expressar com mais força). Ela é aquela que procura expandir-se, superar-se, juntar-se a outras e se tornar maior. Tudo no mundo é Vontade de Potência porque todas as forças procuram a sua própria expansão. Neste campo de instabilidade e luta, jogo constante de forças instáveis, a permanência é banida junto com a identidade: neste mundo reina a diferença. Força como superação, como constante ir para além dos próprios limites.

A vontade se mostra como sede de dominar, fazer-se mais forte, constranger outras forças mais fracas e assimilá-las. Quanto pode uma força? A onda sonora que se expande, o ímã que atrai, a célula que se divide formando o tecido orgânico, o animal que subjuga o outro são exemplos desta Vontade que não encontra um ponto de repouso, mas procura sempre conquistar mais. Cada força, quando dominante, abre novos horizontes, encontra novas passagens, cria novos caminhos.

Se, em física, potência é a capacidade de realizar trabalho; na filosofia, Vontade de Potência é a capacidade que a Vontade tem de efetivar-se. Contra uma interpretação rasa de Darwin, Nietzsche argumenta que o homem não pode e não quer apenas conservar-se ou adaptar-se para sobreviver, só um homem doente desejaria isso; ele quer expandir-se, dominar, criar valores, dar sentidos próprios. Isto significa ser ativo no mundo, criar suas próprias condições de potência. É um efetivar-se no encontro com outras forças.

Por isso não daremos a representação que os escravos dão de potência. Esta não pode ser representada como um lugar a se chegar ou algo a se fazer, não é uma representação, um signo. A Vontade de Potência não é a vontade querendo potência, não significa que a vontade deseja uma potência que não tem. A potência não é algo que possa ser representado. Isso é julgar através dos valores já estabelecidos. Para Nietzsche é exatamente o contrário: a Potência é aquilo que quer na Vontade. E o que é a potência? É um eterno dizer-sim. A potência se afirma na vontade quando diz “Sim” ao devir. É a afirmação pura de sua própria efetivação, a alegria provém da afirmação. E o sentido é o resultado destas forças.

Vontade – eis o nome do libertador e mensageiro da alegria: assim vos ensinei eu, meus amigos”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, Da Redenção

E apenas através de Nietzsche, sendo completa e plena de si, a Vontade de Potência pode ser aquilo que dá sentido e cria valores. Ela cresce e se ultrapassa. Não há falta a ser preenchida, é excesso que transborda. Ela não busca, ela dá; não procura, cria; não aspira, compõe; não exige, inventa; não interpreta, fabrica. E este é o dever e direito do filósofo: criar valores (veja aqui).

Querer liberta: eis a verdadeira doutrina da vontade e da liberdade – assim Zaratustra ensina a vós […] Para longe de Deus e dos deuses me atraiu essa vontade; que haveria para criar, se houvesse – deuses! Mas para o ser humano sempre me impele minha fervorosa vontade de criar”

– Nietzsche, Assim falou Zaratustra

Desta forma, se estabelece uma hierarquia onde algumas forças são capazes de mandar e outras levadas a obedecer, a saúde do corpo depende disso. É com esta concepção de forças ativas e passivas que Nietzsche cria seu método genealógico e tenciona realizar a transvaloração de todos os valores. Sua filosofia assume que é necessário ao homem moderno apropriar-se de sua Vontade de Potência para poder voltar a criar valores. Fazer experimentações, estabelecer novas hierarquias, ultrapassar os valores de seu tempo. Só assim poderá superar a si mesmo e livrar-se da camisa de força que a sociedade colocou em si há séculos. Só a Vontade de Potência permite uma análise imanente capaz de entender o mundo sem ceder para explicações metafísicas e capaz de dar novos sentidos, superando os atuais.

E sabeis… o que é pra mim o mundo?… Este mundo: uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força… uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou rendimento,… mas antes como força ao mesmo tempo um e múltiplo,… eternamente mudando, eternamente recorrentes… partindo do mais simples ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez… esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio, sem alvo, sem vontade… Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!”

– Nietzsche, Fragmento Póstumo

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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O Meio e o Si
7 anos atrás

Sugiro a leitura (e o compartilhamento no seu blog, caso goste!) desse post, “Graças a Darwin!”:
http://omeioeosi.wordpress.com/2013/07/14/gracas-a-darwin/
Abs

Wesley
Wesley
6 anos atrás

Olá!
Peço permissão pra divulgar seu texto!
Posso?

Sandra
Sandra
6 anos atrás

Muito bom!! Parabéns

claudete isabel spohr
claudete isabel spohr
Reply to  Sandra
6 anos atrás

Muito bom mesmo.

Rafel
Rafel
6 anos atrás

A Vontade de Potência abrange até mesmo aspectos autoritários? Estes não são abominados por Nietzsche?

André Lucas
André Lucas
Reply to  Rafel
1 ano atrás

Acho que um aforismo presente na obra “Humano, demasiado humano II” pode ajudar a responder isso. Título e número da seção a qual me refiro: “É tolice cometer injustiça-52”

Fabiano Oliveira
6 anos atrás

Republicou isso em ▬ Fabiano Oliveira ® ▬e comentado:
Para meu registro – Rebloguei depois desse insight:
Via Twitter: Hoje 07/11/14 Compreendi Nietzsche no Livro “vontade de potência”. – Se sentindo Power ! Independente de qualquer coisa ou circunstância.

Vontade de potência não é resultado da ausência dela é uma concepção da natureza hierárquica básica nas relações, ( relacionamentos ) acontecimentos, e … Enfim o texto ( reblogado ) dispensa maiores detalhes.

Calixto
Calixto
6 anos atrás

Rafael, muito bom o texto. So que a parte sobre potencia ainda ficou nebulosa pra mim. Pode mostrar de outra forma?

Eduardo
Eduardo
Reply to  Calixto
2 anos atrás

Não!

claudete isabel spohr
claudete isabel spohr
6 anos atrás

muito bom mesmo.

Atila
Atila
6 anos atrás

Ao supor que tudo existe em torno de algo querente, Schonpenhauer alçou ao trono de uma antiga mitologia;parece que ele nunca tentou analisar a vontade, pois acreditou na simplicidade e imediaticidade de todo querer, como fazem todos – quando o querer é um mecanismo tão treinado que quase escapar ao olhar observador. Em oposição a Schopenhauer ofereço as seguintes teses. Primeira: Para que surja vontade, é nescessária antes uma ideia de prazer e desprazer. Segunda: o fato de um estímulo veemente ser sentido como prazer ou desprazer está ligado ao intelecto interpretante, que, é certo, em geral trabalha nisso de… Ler mais >

Atila
Atila
Reply to  Atila
6 anos atrás

Ou seja se Niet fala de vontade de potência no mundo, ele fala do mundo como vontade do ser inteligente, que como demasiado humano vê o mundo sua imagem e semelhança, isso se aplica também a Niet ver o mundo como hierarquia ah como foi Demasiado Humano o filosófo que justo era o filósofo do Martelo

Daniel
Daniel
Reply to  Atila
5 anos atrás

A vontade de potência significa: Necessidade de expressão que toda força tem. Ou seja, tudo o que existe, existe na expressão máxima de sua potência. O mundo para Nietzsche é Expressões de forças que enquanto se expressam se subjugam.

Erick Morais
Erick Morais
6 anos atrás

Acho Nietzsche o maior pensador de todos os tempos, a sua definição de vontade de potência explica de uma forma bem interessante as desigualdades que permeiam nossa sociedade. Muito bom.

Laura
Laura
5 anos atrás

Parabéns!