Desde que se é uma pessoa, tem-se necessariamente a filosofia de sua pessoa” – Nietzsche, A Gaia Ciência , prólogo, §2

Imagem Nietzsche blog estilizadaFriedrich Nietzsche sabe filosofar com o martelo, mas também sabe dançar. Sua definição do filósofo é tão múltipla quanto as forças que nele habitavam. Há nele uma singularidade belíssima: a vida confunde-se com o pensamento. O simples fato de existir, se reflete em uma maneira de existir – eis a filosofia: quais são os valores que engendram uma vida? Como a saúde e a doença fazem de um corpo um filósofo?

Num homem são as deficiências que filosofam, no outro, as riquezas e forças. O primeiro necessita da sua filosofia, seja como apoio, tranquilização, medicamento, redenção, elevação, alheamento de si; no segundo é apenas um formoso luxo, no melhor dos casos a volúpia de uma triunfante gratidão, que afinal tem de se inscrever, com maiúsculas cósmicas, no firmamento dos conceitos” – Nietzsche, A Gaia Ciência, Prólogo, §2

Nietzsche não quer saber de mundo das ideias, este ídolo quebrou-se há muito tempo. O filósofo alemão também não perde tempo subindo uma montanha com as tábuas que serão gravadas com as leis de deus, Deus está morto, resta este mundo e nós que o habitamos. Quem filosofa são os homens, e ela nasce da saúde ou da doença. Se no primeiro existe uma Vontade de Potência em constante atualização, no segundo encontramos um corpo enfermo, fraco, procurando em que se segurar.

Que virá a ser do pensamento mesmo que é submetido à pressão da doença?” (Nietzsche, A Gaia Ciência). De onde nascem as filosofias ascéticas? De onde nascem os ideais? Nietzsche responde isso em seu livro Genealogia da Moral: o homem doente vive a falta de sentido, não tem a capacidade de afirmar-se, não pode suportar a dor e cria mundos e planos onde procura descansar e se esconder. Todo idealismo, toda filosofia e religião até agora, todo platonismo disfarçado, todo desejo revolucionário de um mundo perfeito foi produto de um corpo cansado, esgotado, ávido por um paraíso perdido onde possa repousar.

A filosofia nasce do corpo, em Nietzsche, filosofia e fisiologia se confundem. “Temos de continuamente parir nossos pensamentos em meio a nossa dor, dando-lhes maternalmente todo sangue, coração, fogo, prazer, paixão , tormento, consciência, destino e fatalidade que há em nós” (Nietzsche, A Gaia Ciência). Saber viver, enfrentar a dor, fazer do sofrimento ferramenta para superar-se. Se a vida é o prato do dia, a dor é seu tempero. O filósofo faz de seu corpo instrumento para afirmar valores e encontrar novos modos de vida.

Nietzsche sofria de dores de cabeça horríveis que às vezes o deixavam de cama por dias. Ele era extremamente sensível ao clima e à culinária dos lugares por onde passava. Parte de sua vida foi dedicada à encontrar o melhor clima, os melhores pratos, os melhores livros, músicas. Aquilo que não o matou, o fortaleceu. “O veneno que faz morrer a natureza frágil é um fortificante para o forte – ele nem o chama de veneno” (Nietzsche, A Gaia Ciência). Ele soube fazer de sua dor o remédio para tornar-se mais forte (veja aqui), não o entorpecente para fugir do mundo e de si mesmo. Se o sofrimento é a condição de crescimento e criação de qualquer artista, porque não seria também do filósofo?

Mas o fato de que hoje todos falem de coisas de que não podem ter qualquer experiência vale particularmente, e desgraçadamente, para os filósofos e os estados filosóficos: – a pouquíssimos é dado conhecê-los, e todas as opiniões populares acerca deles estão erradas” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §213

Isso fez de Nietzsche um filósofo sem meias palavras. É de se esperar, então, que sua concepção de filósofo não seja das mais amistosas. Filos (amigo) e sofia (sabedoria) são interpretados por ele de uma perspectiva diferente. O filósofo, para Nietzsche, é aquele que carrega o martelo, e faz a sabedoria passar pelas mais duras provações. Que grande amigo da filosofia é este personagem cuja dureza e rispidez tira o melhor que tem de seu material de trabalho. O filósofo, com sua disciplina e rigidez, talvez até truculência, busca lapidar um diamante bruto, desinfetar a ferida purulenta.

Entendo o filósofo como um terrível corpo explosivo diante do qual tudo corre perigo” – Nietzsche, Ecce homo, as Extemporâneas, §3

Para Nietzsche, a filosofia não deve ser o refúgio dos fracos. Filosofar está distante de rezar, pregar, salvar, cuidar… O filósofo é o contrário de um sacerdote e a filosofia não é uma casa onde os doentes descansam. Não há compaixão na filosofia! Os autêntico filósofos são comandantes e legisladores: eles dizem ‘assim deve ser!’, eles determinam o ‘para onde?’ do ser humano” (Nietzsche, Além do Bem e do Mal). Ser filósofo é tornar sinônimo querer e criar, é dar vazão à Vontade de Potência. O filósofo cria valores, recicla, redispõe, reordena. Filosofar é comandar:

Seu ‘conhecer’ é criar, seu criar é legislar, sua vontade de verdade é – vontade de poder. Existem hoje tais filósofos? Já existiram tais filósofos? Não têm que existir tais filósofos? …” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §211

A filosofia é a criação e transvaloração de valores. E para criar, os filósofos assumem diferentes perspectivas, trazem um novo olhar (aquele que só um homem sadio poderia trazer). O filósofo não sai do mundo para refletir, pelo contrário, se ele faz avaliações, seu dever é mergulhar no mundo. Sendo assim, o filósofo não poderia deixar de ser também um experimentador. Para ir além do bem e do mal, é preciso experimentar para além da moral. O pensador é como um alquimista, ele mistura afetos e forças!

Fazer invenções, testar vidas, pensamentos, práticas. Aí faz-se a diferença entre o “trabalhador filosófico”, definido por Nietzsche como um pensador menor, e o “livre-pensador”, o filósofo legislador. Um busca compreender para reproduzir e copiar, o outro compreende para inventar e criar em cima. “Filosofia, tal como até agora a entendi e vivi, é a vida voluntária no gelo e nos cumes – a busca de tudo o que é estranho e questionável no existir, de tudo o que a moral até agora baniu” (Nietzsche, Ecce Homo). Ir para além da moral, mas não se esconder, não fugir, não ter nojo. Nietzsche faz a negação da negação, ele vira o rosto para tudo que denigra este mundo. O filósofo não se isola, ele anda no mundo para exaltá-lo e conhecer seus inimigos.

Talvez seja indispensável, na formação de um verdadeiro filósofo, ter passado alguma vez pelos estágios em que permanecem, em que têm de permanecer os seus servidores, os trabalhadores filosóficos; talvez ele próprio tenha que ter sido crítico, cético, dogmático e historiador, e além disso poeta, colecionador, viajante, decifrador de enigmas, moralista, vidente, “livre-pensador” e praticamente tudo, para cruzar todo o âmbito dos valores e sentimentos de valor humanos e poder observá-los com muitos olhos e consciências, desde a altura até a distância, da profundeza à altura, de um canto qualquer à amplidão. Mas tudo isso são apenas precondições de sua tarefa: ela mesma requer algo mais – ela exige que ele crie valores” – Nietzsche, Além do Bem e do Mal, §211

A tarefa do filósofo é então a de assumir uma postura nova, dar vazão à alegria criadora, à inspiração de artista e deixar-se levar pelo mar de forças que o fará viver e pensar como um juiz de si. A tarefa do filósofo é criar e ordenar valores. Mas como chegar tão alto? Como atingir os cumes do pensamento? Zaratustra ensina a dançar: somente aqueles com pés leves podem ir tão longe. Sim, a transvaloração de todos os valores implica em tornar tudo leve. Deixar todo peso, todo “Tu deves!”, é a tarefa do filósofo dançarino.

É preciso ser muito leve, a fim de levar sua vontade de conhecimento a uma tal distância e como que acima de seu tempo, a fim de criar para si olhos que abarquem milênios e, além disso, um céu puro nesses olhos! É preciso haver se livrado de muita coisa que justamente a nós, europeus de hoje, oprime, inibe, detém, torna pesados” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §380

Aprender a dançar é aprender a ir além de si mesmo, criar valores, legislar, tornar-se senhor de si, sapatear em tudo que é pesado e lento (veja aqui). O verdadeiro dançarino é aquele que, apesar da dor dos pés machucados, parece voar. Dor, superação e beleza. O sofrimento transforma-se em meio para descolar-se do chão. E que outro caminho haveria? Não queremos a preguiça do homem sedentário.

Tornar-se leve, flexível, imbatível, escorregadio, nômade, impossível de emboscar. Criar o novo, experimentar, inverter valores, inventar novos modos de vida: eis o filósofo. Zaratustra disse que só acreditaria em um deus que soubesse dançar, ele estava certo; Nietzsche, por sua vez, só acreditaria em um filósofo que soubesse dançar, tal como ele sabia.

Eu não saberia o que o espírito de um filósofo mais poderia desejar ser, senão um bom dançarino” – Nietzsche, A Gaia Ciência, §381

> Texto da série: “O que é Filosofia?” <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

8 comentários

  1. olá, gosto muito do seu site, sempre leio várias coisas aqui.

    Eu gostaria da sua ajuda!

    “Para Nietzsche, a filosofia não deve ser o refúgio dos fracos.”

    “Todo idealismo, toda filosofia e religião até agora, todo platonismo disfarçado, todo desejo revolucionário de um mundo perfeito foi produto de um corpo cansado, esgotado, ávido por um paraíso perdido onde possa repousar.”

    Pode me indicar trechos que o Nietzsche fala contra a filosofia como forma de consolo?

    Muito obrigada!
    (coloquei meu e-mail ali embaixo, vc tem acesso a ele?)

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    1. Oi, Carol, os textos que falam sobre o assunto estão em sua maioria na terceira parte da genealogia da moral. É um livro muito interessante parao qual fizemos uma série aqui no blog

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      1. Muito obrigada! Estou tendo dificuldades para encontrar um trecho que diga diretamente contra a filosofia como forma de consolo! Sabe me dizer algum?

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  2. Os seus escritos sobre Nietzsche são de uma agudeza admirável. Não é fácil perceber a filosofia do mestre como você a percebe. Só se pode explicar aquilo que se sabe.

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