Conatus é um conceito importantíssimo, além de muito elegante, porque com ele Espinosa pode estruturar, juntamente com sua noção de Deus, toda sua Ética. Este termo vem do latim e significa “esforço”, influenciou Schopenhauer e posteriormente o conceito de Vontade de Potência em Nietzsche, além de ter grande importância para Bergson e Deleuze.

Se a essência de Deus é a de ser a causa de si, então ele necessariamente existe e ao mesmo tempo é causa de tudo que existe (ver aqui). Nós não temos essa sorte, não somos causas de nós mesmos, somos parte de uma cadeia infinita de acontecimentos que nos trouxeram até aqui. Mas ao menos temos a sorte de existir em Deus, ser uma parte de sua existência infinita, da potência do ser. Sendo assim, somos uma parte limitada em extensão e tempo da potência infinita de Deus.

Chegamos ao ponto, então, em que podemos definir a essência do homem: toda coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser ( Espinosa, Ética III, prop. 6). Não somos seres infinitos como Deus, mas também temos a capacidade de ser causa de nós mesmos e de agir para preservar nossos ser. É importante notar aqui que Ser é no sentido de uma parcela finita da potência infinita de Deus; o Ser é uma potência ativa de afetar e ser afetado (ver aqui). Temos interesse em tudo que contribui para manter nossa forma e nossas relações. O Conatus é a essência atual de um ser. Temos a potência que parte de nós mesmos, de nossa própria essência, para criar as condições de persistir em nosso ser. Não possuímos conatus, somos conatus, assim como tudo que existe, porque tudo realiza um esforço para permanecer em seu ser enquanto pode.

O conatus é a expressão de um corpo e de uma mente conectados, que se expressam ao mesmo tempo como atributos diferentes. No corpo é essa capacidade de ser afetado juntamente com essa mobilidade de suas partes que o constituem sem levá-lo a se desfazer. Essa característica é que permite que o corpo mude, amplie, os afetos dos quais é capaz. Uma mobilidade, um desdobramento de suas habilidades, o permitem se comportar, agir, de novas maneiras.

Não que haja uma finalidade (Espinosa toma esse cuidado), mas simplesmente porque tudo resiste em si até que uma causa maior a separe. Sendo assim, podemos dizer que não desejamos aquilo que é bom, mas é bom aquilo que desejamos. Ou seja, aquilo que nos constitui é desejo, não como desejo a algo exterior, mas sim no sentido em que Deleuze abordou posteriormente (ver aqui). Desejo e conatus estão muito próximos, são quase sinônimos, mas explicamos cada um de maneiras diferentes.

A cada instante, portanto, as afecções determinam o conatus; mas a cada instante o conatus é a procura daquilo que é útil em função das afecções que o determinam. É por isso que um corpo vai sempre o mais longe que pode, tanto na paixão quanto na ação; e aquilo que ele pode é seu direito” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 177

Quando o desejo aumenta, Espinosa chama isso de alegria; quando o desejo de alguma forma é constrangido pelo exterior, Espinosa chama isso de tristeza. Estes dois afetos são os geradores de todos os outros que sentimos: amor, ódio, inveja, contentamento, etc., mas é importante notar que eles não são causa de nossos comportamentos e sim consequências. Desta forma, Espinosa contribui para entendermos a origem e natureza dos afetos (veja aqui)

Estatua de Espinosa em Haia, feita por Frederei Hexamer
Estátua de Espinosa em Haia, feita por Frederei Hexamer

Muito diferente de Freud, que o afirmou pelo conceito de pulsão de morte, Espinosa não acredita que trazemos qualquer impulso destrutivo dentro de nós; muito pelo contrário, somos pura positividade, uma vontade que se afirma plenamente em nome da vida. Como poderíamos trazer em nós uma pulsão de morte se somos parte da substância divina? Podemos dizer que nem mesmo Nietzsche entendeu inteiramente este conceito porque não se trata de simplesmente preservar-se, mas de criar as condições para aumentar sua potência pois isso aumenta sua capacidade de existir. O ser se afirma, e ao afirmar-se procura tanto conservar-se quanto aumentar sua capacidade de afetar e ser afetado. Foi necessário que Deleuze aparecesse para pôr em bom estado de funcionamento o que se havia estragado com séculos de idealismo, seu conceito de desejo (veja aqui) se baseia diretamente em Nietzsche e Espinosa.

Há uma impossibilidade lógica, causal, conceitual, ontológica de auto-destruição. E também não é inércia! A inércia daria provas de um mundo onde Deus não seria o produtor de si mesmo como a realidade que vemos. Deus existe, logo, o conatus pode agir, produzir e expandir-se no processo. Por sermos parte da produção divina, agimos. E quando agimos, realizamos nossa essência e buscamos por afetos que preencham nossa essência da maneira mais adequada.

O desejo em nós quer a si mesmo, ele não se volta ao exterior em busca de um objeto que lhe falte. O ser humano não é um vazio a ser preenchido, ele é uma vida que quer a si mesma e procura ampliar as suas condições de expandir-se construindo a realidade ao seu redor. Deste modo, cabe ao homem selecionar dentre as milhares de possibilidades aquelas que mais contribuam para perseverar no seu ser. O desejo do homem é o tempo todo preenchido, mesmo que seja por tristeza, cabe então ele cuidar de si para ter cada vez mais a capacidade de preencher-se de alegrias.

Sendo assim, bom é tudo que aumenta a força de nosso conatus e mau tudo o que diminui, as coisas não são boas em si. Mas, pela imaginação, podemos ser enganados, imaginar que nosso conatus aumenta quando, uma análise racional mostraria que na verdade ele diminui. Somos facilmente enganados. Esta é a marca da servidão, buscar nossa servidão como se fosse nossa liberdade. Mesmo enfraquecido, mesmo trilhando caminhos que não parecem adequados, o conatus é sempre o esforço por afastar a tristeza e conquistar a liberdade.

O conatus é a necessidade interna, que essência causa efeitos determinados. Um corpo afetado de maneira tal age de maneira tal, de acordo com o que pode, de acordo com sua essência. O corpo tem uma história, ele passa por variadas transformações, marcas, ao longo do tempo, isso o permite agir de novas maneiras, aprender, conhecer o mundo. Essas relações moldam o indivíduo internamente e o modificam externamente, no seu modo de se relacionar com sua existência. Ser indivíduo significa, conforme a potência aumenta, ser cada vez menos egoísta, cada vez mais ligada À sua própria capacidade de existir e agir. Assim, o conatus não aumenta por eliminar as paixões da equação, mas sim por fazer um bom uso delas.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

49 comentários

  1. Cara, amo teus textos! Tenho 17 anos, sempre amei essa linha da filosofia, e esse tem sido meu refúgio! Espero pegar uma base aqui pra poder partir para os livros ♥

    Curtir

    1. Obrigado, Nico…

      Espero que este “refúgio” te dê coragem para sair e enfrentar o mundo com mais força e afirmação!

      A paz serve para novas guerras (no sentido lúdico, claro)

      Curtir

  2. Esclarecedor! Me sinto grata sempre que leio seus textos. A simplicidade e eloquência com que coloca questões de complexidade ímpar, são realmente dignas de repetidas leituras; Obrigada!

    Curtir

  3. Rafael,
    Meus Parabéns pela postagem, excelente tópico.
    Se me permite apenas um apontamento: Nietzsche com seu conceito de “Vontade de Potência” simplesmente “repete” Espinosa, pois não se trata da conservação do Ser, mas sim de sua expansão e aumento.
    Quem falava em simplesmente “autoconservação” era o Schopenhauer com a ideia de “Vontade” (ou Vontade de Vida), sendo que esse simplesmente está repassando o Conatus Hobbesiano.
    Em suma, Nietzsche repete Espinosa e Schopenhauer repete Hobbes.
    É claro que os Modernos são muito mais originais e melhores do que os “Oiticentistas” alemães…

    Abraços

    Yacov

    Curtir

  4. 1) Como a concepção intelectualista percebe a ética ?
    2) Qual o contraponto da concepção voluntarista a concepção intelectualista sobre a ética ?
    3) Qual a proposta racionalista para a construção de uma vida virtuosa ?
    4) descreva as diferenças entre vontade e desejo e como isso afetam as concepções voluntaristas e intelectualistas.
    5) Apresenta (citar e explicar) a contradição existente entre ética dos desejos e as teorias de Freud.

    Curtir

  5. Fala Rafael tudo tranquilo. Mano tenho uma dúvida aqui. “toda coisa se esforça, enquanto está em si, por perseverar no seu ser“ dessa passagem. Depois disso, tu afirma que podemos ser causa de nós mesmos. Mas como a gente pode ser causa ? Porque a única causa não é causada pro Espinosa é Deus e todo o resto vem daí. Aí ficou minha dúvida, isso seria no terceiro estágio do conhecimento na ciência intuitiva ? Se tu pudesse explicar. Não é uma crítica negativa, apenas uma dúvida, pra esclarecer mesmo. Porque na passagem citada, na parte, ”em si” vem do latim né, do ”sui generis”, então, fica incoerente pra filosofia do Espinosa, talvez, o próprio tenha errado ou o tradutor, talvez. Não sei. Dá uma luz aí. Abraço!

    Curtir

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s