Não queremos ser poupados por nossos melhores inimigos, nem por aqueles que amamos profundamente” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 48

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capa da edição japonesa

Talvez este texto soe estranho para os “bem aventurados”: pobres de espírito, os que choram, os humildes, injustiçados, misericordiosos e pacificadores (Mateus 5). Talvez este texto não deva ser lido pelo cordeirinhos perseguidos, insultados, oprimidos, caluniados, que terão a grande recompensa nos céus (Mateus 5).

Zaratustra ama os guerreiros e a guerra. Mas por que? Porque é este que se torna mais forte nos conflitos, é este que cresce com as dificuldades, é este que sente prazer na disputa. O guerreiro quer uma batalha, umas grande batalha, para superar-se. E para isso, claro, necessita de uma inimigo: “deveis ser, para mim, aqueles cujos olhos sempre buscam um inimigo, o vosso inimigo” (p. 46). Mas é preciso deixar claro, Zaratustra faz apologia à guerra, não aos soldados, nem ao exército.

Vejo muitos soldados, quisera ver muitos guerreiros! ‘Uniforme’ chama-se o que vestem: que não seja uniforme o que com ele se escondem!” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 48

O soldado fardado é diferente do guerreiro, este tem a guerra dentro e fora de si, aquele é uma máquina de obedecer, um pau mandado, um robô. É com o suor e da luta que o guerreiro triunfa. Ele a quer como trampolim para se tornar mais forte, ele a quer como a uma amante que o inspira. “Deveis amar a paz como meio para novas guerras. E a paz breve, mais que a longa” (p. 47). Que o dormir e descansar seja apenas ensejo para novas e mais intensas batalhas. Que o guerreiro vá dormir com pesar, porque quer acordar logo e voltar à luta.

Onde está a força daqueles que são mansos e vão para o céu? Onde está a honra daqueles que são pobres de espírito e pacificadores? Não seria esta estranha escolha o mais curto caminho para o nada? Zaratustra ama os guerreiros porque estes amam o conflito.

A guerra e a coragem fizeram mais coisas grandes do que o amor ao próximo. Não a vossa compaixão, mas a vossa bravura salvou até agora os desaventurados/ ‘O que é bom?’, perguntais. Ser bravo é bom. Deixai que as garotas pequenas digam: ‘Bom é o que é bonito e tocante ao mesmo tempo'” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 48

Zaratustra ama o holocausto? Nietzsche nazista? É importante lembrar aqui o caráter lúdico e em parábolas com que Zaratustra se exprime, ele não quer soldados, quer guerreiros. E com ênfase nos ensina:

Podeis ter apenas inimigos para odiar, não inimigos para desprezar. Deveis ter orgulho de vosso inimigo: então os sucessos de vosso inimigo serão também vossos” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 48

O bom guerreiro é aquele que sabe obedecer, pois obedece a si mesmo, o grito que escuta dentro de si. Ele manda e obedece, e assim vai feliz para a guerra e para a morte. O que seria então a guerra? Ela é a mais clara definição da vida! Cada dia, cada minuto é uma batalha onde o guerreiro se põe à prova! Com bravura se lança à vida, com coragem exige o máximo de si. “Que vosso amor à vida seja à vossa mais alta esperança: e vossa mais alta esperança seja o mais alto pensamento da vida” (p. 48). Por isso quando o guerreiro escuta as ordens que a vida lhe dá, ele obedece sem pestanejar!

O homem é algo que deve ser superado! E como faríamos isso sem luta? Sem cicatrizes? Sem nos oferecer como mártires neste conflito sem fim? Zaratustra ama os guerreiros porque são eles que dão a si mesmos em nome daquilo que nasce de seu sacrifício, a vida fala mais alto neles, e é por isso que lutam e morrem sorrindo, porque a vida neles se supera, recria, transforma. Não entendam isso como uma religião, todo sacrifício em Zaratustra é também um renascimento.

Vivei, então, vossa vida de obediência e de guerra! Que importa viver muito tempo? Que guerreiro quer ser poupado?/ Eu não vos pouco, eu vos amo progundamente, meus irmãos na guerra! – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 48

> Assim falou Zaratustra <

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Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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