Giacomo Balla - dinamismo de um cachorro na coleira
Giacomo Balla – dinamismo de um cachorro na coleira

Pense em algo, pense em qualquer coisa, ela é possível de existir? Digo, ela tem contradições internas que impedem sua existência? Não? Então ela existe? A resposta é: não necessariamente, isso apenas faz com que esta coisa tenha a possibilidade de existir… conhecer a essência de uma coisa, saber que ela é possível, não a torna necessária.

Mas o que faz algo efetivamente existir? Ou ela é produzida por si própria ou por outra coisa. A potência de uma coisa existir está em si mesma ou vem de fora. No nosso caso, somos versões reduzidas desta potência de existir, somos causados por forças exteriores que nos engendraram e, ao mesmo tempo, temos em nós parte destas forças que nos permitem existir. O finito reflete o infinito, ou seja, somos parte de um ser absolutamente infinito que existe em si mesmo e se produz necessariamente, chamá-lo-emos Deus.

A realidade, como um todo, é um devir de produção e criação. Esta existência é absoluta em todos os aspectos: infinita e eterna. O Deus de Espinosa é a potência infinita de expressão e atualização, não há nada fora dele, nada o limita, nada está para além de sua existência. Deus é causa sui, ou seja, ele é definido por sua potência de ser, existir e produzir. Isso significa que a unidade de Deus se manifesta através da multiplicidade: a expressão de Deus se dá na diferença.

Estamos indo muito rápido? Deus é a causa de todas as coisas que existem. Ele é a causa imanente, não transitória; ele não cria o mundo e vai embora, muito pelo contrário, o mundo é ele mesmo, ele se manifesta através do mundo. Cada essência, eu, você, todas as coisas, cada modo afirmar-se em Deus, em maior ou menor grau. E ele se exprime absolutamente e infinitamente através dos atributos, dos quais só conhecemos dois: pensamento e extensão. Nós, seres limitados por natureza, exprimimos parte da potência infinita de Deus; esta potência em ato é chamada de Modo por Espinosa.

Certo, podemos passar adiante. Como essa potência se manifesta? Através do poder de existir, de afetar e ser afetado. Como parte da potência infinita de Deus, eu tenho em mim forças que se esforçam para manterem-se na existência. É o conatus, uma força ativa que se esforça (tal como Deus), para produzir. E mais, esta potência que existe em ato, ativamente, tem características singulares de afetar e ser afetado (veja aqui). Já falamos sobre tudo isso em outros textos, por isso não nos alongaremos nestas questões, vamos logo para a potência.

Existir é a capacidade de afetar e ser afetado, é agir no mundo; essência é um grau de potência, conatus que se esforça para permanecer existindo; toda existência é, pela garantia das causas naturais, necessária, já que é expressão de um grau certo de potência divina. Essência é potência. Somos corpos, limitados em extensão e duração, modos, como diria Espinosa, mas os modos estão em Deus. Isso significa que afirmar a minha potência é afirmar o que há de divino em mim. Tomar parte da potência é expressar o que há de Deus em você, ser causa ativa na criação do mundo. Toda expressão da potência é boa, sem exceção, por quê? Porque a potência é a manifestação do Infinito no seio do finito, ela é a força de composição do universo que gera bons encontros. A questão ética é então efetuar sua potência, da mesma maneira que Deus, ou, a natureza, o faz.

Umberto Boccioni - Dinamismo do corpo humano, 1913
Umberto Boccioni – Dinamismo do corpo humano, 1913

Fazemos isso através do corpo. O corpo é um conjunto de relações que estão em uma determinada harmonia. Estas forças se conjugam de forma que mantém a sua proporção de velocidades e repousos entre as partes. O conatus é a capacidade deste corpo manter a sua forma. O que pode um corpo? Ele pode o quanto ele tem potência. Um moralista define o corpo pelo que ele deve; mas nós, imoralistas convictos, definimos o corpo pelo que ele pode. Não sou um escravo aqui com um lugar garantido no céu, isso é pura ilusão para aguentar o sofrimento. Eu sou o que eu posso, eu sou minha potência, que é a minha essência em ato. Eu sou tão perfeito quanto eu posso ser.

Mas então eu posso matar? Posso, eu provavelmente tenho potência para isso. Então eu posso estuprar? Posso também, se eu tiver potência para tanto. Mas isso será um bom encontro? (Esta é a diferença entre poder e potência) A questão ética do “efetuar a sua potência” gera muitas confusões! Efetuar sua potência é necessariamente agir para gerar bons encontros, ou seja, compor com o mundo. Pense em um quarteto de cordas: eu tenho a capacidade de tocar violino, mas se estiver nervoso, eu posso tocar fora do tom e arruinar a música. Eu posso também tocar isolado de outros instrumentos, e neste caso nada aconteceria. Ou este ato de vibrar as cordas do meu violino pode ser compor com a harmonia da música que está sendo tocada pelos meus companheiros. Neste caso, as cordas ressoam entre si, isto é o aumento de potência. Há ressonância. Eu atuo no mundo.

Eu ponho a música que eu amo, aqui, todo meu corpo, e minha alma – isto vai por si – compõe suas relações com as relações sonoras. É isto que significa a música que eu amo: minha potência é aumentada” – Deleuze, Curso sobre Espinosa

Quando a música ressoa em mim, eu começo a bater o pé no ritmo, isso me alegra, a música por sua vez também se alegra (ela efetuou um bom encontro). Quando eu coloco um fone de ouvido e danço no ritmo, a música se alegra tanto quanto eu. Tudo isso se dá para além da consciência. Eu chego em casa e digo para um amigo, “tal música é muito boa“, ainda estou efetuando bons encontros. Quando faço uma poesia para a mulher amada, quero que a as relações de velocidade e lentidão presentes na poesia afetem de modo a aumentar a potência da mulher que amo. E assim por diante…

Giacomo Balla - A Mão do Violinista
Giacomo Balla – A Mão do Violinista

Agir é agir pela potência, agir é sempre ir em direção da liberdade. Potência e Ética estão muito próximas, assim como Moral e Poder. A afirmação do ser é uma abertura para o infinito, ele multiplica as relações, aumenta nossa capacidade de afetar e ser afetado. Nós somos uma composição de partes em relação. Estas partes mantêm uma proporção e uma singularidade próprias. É como se tivéssemos uma vibração própria, um timbre, podemos pensar no corpo como uma caixa de ressonância; certas forças me atravessam e ressoam em mim, quando isso acontece, geram um bom encontro, minha potência de agir aumenta; no entanto, outras forças me atravessam e diminuem minha potência, então minha potência diminui. O corpo é nosso instrumento ético. A potência do meu ser se expressa através destas relações de proporção entre velocidade e repouso. Tal como a música, tal como a dança, a potência do ser é sua capacidade de gerar bons encontros e suportar maus encontros sem perder suas proporções. Somos corpos que vibram ao som da música divina.

Disse Zaratustra: “para vos revelar inteiramente meu coração, meus amigos: caso houvesse deuses, como suportaria eu não ser deus? Portanto, não há deuses” (Nietzsche, Assim Falou Zaratustra). Temos uma resposta lindíssima que podemos reinterpretar aos olhos de Espinosa: “Vós sois deuses“.

> Veja também: “Nietzsche: Vontade de Potência” <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

24 comentários

  1. Rafael Trindade. Em primeiro lugar, parabéns pelo texto. Gostaria de fazer um comentário. Peço desculpas antecipadas caso seja um divagação sem fundamento. Adianto que nunca li Espinoza diretamente, apenas texto, comentários e aulas. Portanto me desculpe se eu disser alguma besteira.

    A impressão que fica (e muito possivelmente eu esteja errado em relação a isso) é que Espinosa não releva o peso do conjunto dos valores (que fazem parte das sociedades) sobre o julgamento dos indivíduos acerca de seus encontros. Imagine a seguinte situação: numa sociedade onde os valores machistas prevalecem, um indivíduo se gaba por fazer sua mulher preparar comida todo dia; os amigos riem, aprovam; ele fica cheio de si (sua potência de agir aumenta). Para este indivíduo, seu encontro, através de seu comentário, com seus amigos foi um bom encontro, pois aumentou sua potência de agir (o referencial ético de Espinoza, imagino). Indo além, também poderíamos cogitar a possibilidade da mulher deste indivíduo, ao introjetar valores machistas, goste da ação de fazer comida para ele. Temos, então, encontros tidos como bons encontros. Mas, que analisados sob uma perspectiva de igualdade entre gêneros, podem ser interpretados como encontros nos quais sobressai a concretização de uma ideologia opressiva. Peço desculpas se meu exemplo foi confuso, mas quando penso em Espinosa, imagino o seguinte silogismo: para que a potência de agir aumente, o indivíduo, ao participar de um encontro, precisa experimentar este como um bom encontro (pois se entendê-lo como um mau encontro, sua potência de agir vai diminuir), mas o que permite que ele atribua valor a um encontro é sua vivência (vivência em sociedade, na qual aprende o que é certo e o que é errado). Logo, a idéia de Deus, de Natureza, de Substância, aparece como uma máscara que oculta a história (a historicidade da sociedade e seus valores) como o fator que constitui subjetivamente o sujeito. Talvez uma saída para este problema, seja a crença de que um indivíduo possa experimentar um encontro de forma neutra, como se o indivíduo pudesse despir-se de tudo aquilo que o constitui e experimentasse o encontro sem julgamento. Porém, sem julgamento não se pode definir se um encontro é bom ou mau.

    Gostaria que você elucidasse melhor essa questão.

    Abraço!

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    1. Roberto, infelizmente não tenho como me estender na resposta, mas lá vai.

      Realmente, Espinosa não traz um caráter dialético-histórico em sua filosofia. Mas a questão da Ideologia pode ser trazida para a filosofia espinosana através dos Gêneros de Conhecimento, temos um texto sobre isso no blog.

      Quando o homem se gaba por ter uma mulher submissa, ele ACHA que teve um bom encontro, mas pense bem, sua capacidade de experimentar se reduziu, porque ele cada vez menos pode experimentar coisas novas (como por exemplo cozinhar sua própria comida)

      Além do que, a aprovação alheia é fugaz, efêmera. Ele pode perdê-la a qualquer momento, o que mostra que isto não é fruto de sua capacidade de agir mas sim fruto de suas paixões.

      Espero ter razoavelmente esclarecido alguns pontos. Também não sou especialista em espinosa, mas tenho certeza que ele não era machista! 🙂

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      1. Olá Rafael Trindade! Sua explicação é muito pertinente. Aliás, acompanho as demais postagens do blog e acho todas muito interessantes. Quanto à questão de Spinoza não ser machista, também assim acreditava, mas em uma nota de rodapé do tradutor do “Tratado para a Correção do Intelecto” (Col. Os Pensadores), se não me engano, está posto que ele não defendia a educação feminina (isso está colocado a partir da defesa de Spinoza em tratar da educação dos meninos no Tratado). Como na “Ética” Spinoza defende o conhecimento de si e do mundo para alcançar a liberdade, isso me fez descrer que ele enxergaria tais questões de gênero como integrantes na sua visão. O que, visto à época em que ele se encontrava, era a visão de mundo dominante, no fim das contas. Mas a sua filosofia é perfeitamente cabível nessa discussão de gênero. O que é mais complexo é traçar tais atualizações sem incorrer em descaracterizações do pensamento spinozano, pois algumas expressões do filósofo são bastante fortes (aliás, você faz isso muito bem). O que você acha?
        [Também não sou nem filósofa, nem especialista em Spinoza, mas uma leitora curiosa e interessada na sua filosofia e apenas quis (me) acrescentar ao debate]

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      2. Senhores, bom dia! Apesar de não estar aprofundado na linha Espinosana, vejo no texto do colega Trindade boa lucidez quanto a ética descrita em relação à potência, colega Roberto Chu. Segue:
        ” Toda expressão da potência é boa, sem exceção, por quê? Porque a potência é a manifestação do Infinito no seio do finito, ela é a força de composição do universo que gera bons encontros. A questão ética é então efetuar sua potência, da mesma maneira que Deus, ou, a natureza, o faz.” Me faz pensar, que, nem sempre justa aos olhos finitos, nem sempre ética, mas sempre necessária.

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  2. Valeu pelo comentário, Rafael. Vou ler o texto que vc citou e ver se entendo melhor a questão. Qualquer coisa volta a escrever.

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  3. “Mas então eu posso matar? Posso, eu provavelmente tenho potência para isso. Então eu posso estuprar? Posso também, se eu tiver potência para tanto. Mas será que eu devo?”

    Cara, mas esse “deve” não entra no campo moral, das normas. Não mato porque tenho medo. Medo de ser preso… Não dou um soco na cara no meu chefe, não por falta de vontade, mas medo de perder o emprego, ficar sem dinheiro…

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    1. A palavra “Devo” realmente é ruim….
      Não é uma questão de dever, mas de qual seria o melhor jeito….

      Ainda assim, não fazer as coisas por medo não me parece o melhor jeito de viver… deveríamos encontrar melhores!

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      1. Medo é oque nos fez chegar até aqui, os homens têm a potência relativamente dominada, Espinoza nos remete a reflexão da potência coisa que nos foi retirado na infância com a religião.

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  4. Eu entendo que “ser livre” para Spinoza não é dominar e subjugar outras pessoas, mas dominar as emoções negativas. Uma pessoa que só pode se sentir feliz se dominar alguém, então está se tornando uma escrava de causas exteriores. Sua felicidade irá depender de algo que está fora dela mesmo. E além do mais, o spinozista ver uma outra pessoa como parte de Deus e portanto deseja amá-la e fazer, dentro dos seus limites, que ela seja a mais feliz possível. O amor intelectual à Deus envolve amar e fazer feliz as pessoas, pois elas são partes da natureza e portanto, também formas pelas quais Deus, exprime sua existência não enquanto é infinito, mas enquanto pode se exprimir pela essência da natureza humana. Não sei também se a minha interpretação está correta, pois a filosofia de Spinoza é muito complexa.

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    1. “”””amar e fazer feliz as pessoas, pois elas são partes da natureza .”‘

      Difícil isso. Como posso amar e fazer feliz aqueles que me fazem triste e infeliz. É possível amar Hitler? Como posso amar gente invejosa e rancorosa? Não sei prefiro fugir de pessoas assim.

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      1. Querido Antonio, amor nao se qualifica apenas à esfera romântica. Amar eh compaixão. Você nao precisa amar Hitler e relacionar-se com ele. Você precisa perdoa-lo, e ter compaixão por ter usado sua potência de forma errada e sem ética. Perdao é amor incondicional. Eu perdoo Hitler!

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      2. Amor é incondicional, a paixão não. Hoje nos servimos de todas as idéias e tecnologia do passado certo ou errado, a potência está dentro de cada um de nós somos Deus

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  5. Eu sinceramente curti muito essas ideias , Sermos extensão de Deus é uma explicação fantástica ou seja Deus não interfere em nossas escolhas tudo está se interagindo o tempo todo e quanto a fazer o que eu quiser é mais fantástico ainda pois sou responsável por todos os meus atos e há algo de verdade no pensamento de Paulo de Tarso quando diz: Tudo me é licito mas nem tudo convém , fica perfeito pois usamos a nossa consciência não por medo de matar e ser preso ou de perder o emprego e ficar sem dinheiro mas pelo simples fato de que o outro também somos nós estamos todos interagidos e por esta razão seguimos uma ordem de bom convívio porque vivemos numa sociedade !

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    1. Como o fogo que destrói, nossos pensamentos não tem consistência sólida, mas nossa moral nos é imposta na infância. Talvez o filósofo envergue isso mas não a quebre a condição social.

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