Precisamos esclarecer essas duas palavras muito utilizadas em nosso site, que funcionam como complemento e também resultado da diferenciação feita entre Ética e Moral. Apesar de parecerem sinônimos, nós não usamos os conceitos de poder e potência para dizer a mesma coisa. Eles derivam de Espinosa e chegam a Nietzsche, mas é principalmente com Deleuze que encontramos os ecos que mais nos inspiram a utilizá-los dessa maneira.

O que é o poder? É o ato, ou a relação que impede alguém de se realizar pela afirmação de sua potência. Dito de outra maneira, é aquilo que afasta alguém do que pode. É despotencializar, é coagir, é desviar a potência de seus caminhos. O poderoso quer dominar, quer se utilizar e se apropriar do outro. Na base desse tipo de relação, há uma espécie de transferência onde um se apropria da capacidade que o outro tem de agir. A questão é que muitas vezes o outro deseja essa transferência, ele quer ser menos responsável e conforta-se com o poder do outro e com sua impotência.

Um poder não gera potência naqueles que governa, se gerasse potência, não seria um poder e não se colocaria acima do outro. Todo poder é triste, diz Deleuze, ele administra a tristeza, ele é sempre um obstáculo diante da efetuação das potências. Tudo piora quando percebemos um ciclo vicioso nesse processo, os afetos dão prova de que só quer o poder quem é impotente. Quanto mais fraco nos tornamos, mais desejamos o poder.

O desejo de dominar é impotente por si só. Ele investe no poder pois não suporta a potência do outro e não encontra meios de crescer sozinho. O poder é aquilo que cresce por sobre a potência, como o parasita hospedado em um organismo, que ele chama de seu. O poder só se exerce sobre servos, ele nunca se faz sozinho, ele é extremamente dependente daquilo que expropria. A servidão que essa relação promove torna o poder algo muito tentador. É simples, e todos nós conhecemos bem. Cada indivíduo, quando impotente, tenta dominar o outro para tornar-se mais forte que ele. A vontade de dominação do outro é o medo de ser dominado por ele, é a tristeza de não conseguir se compor com o outro, é o ódio da diferença

O rosto é um produto do poder, é a máscara social que se cola sobre a verdadeira face, aquela que não tem identidade, que é apenas devir. A identidade fixa não passa de uma sedução com que nos roubam de nós mesmos. Somos capturados pelas falsas promessas! E se sustentamos  o rosto que o poder nos dá,  somos autorizados a usar e abusar através dele. Nos tornamos cúmplices do poder participando desse jogo de dominação dos outros e de nós mesmos. Até mesmo o que chamamos de “eu” é fruto do poder; um rebaixamento de certas intensidades em nome de outras.

O prazer é o modo mais sutil de operação do poder. Há uma máquina de rejeição que cria o desejo por aceitação. Ele cria a tristeza e depois oferece o prazer fácil, descomprometido, impotente. Tira a potência com uma mão e oferece o poder com a outra. O poder é como um filtro que só deixa passar o mínimo necessário de alegria para que as relações não desfaçam. É neste sentido que Deleuze diz que existem alegrias tristes. É mais uma provocação do que um oxímoro: são alegrias bestas, que mantém tudo como está, a barra de chocolate que se come no intervalo para suportar o segundo turno do trabalho.

Qualquer tristeza resulta de uma relação de poder sobre nós. Elas são prova de nossos limites, deixam clara nossa impotência em relação ao mundo e aos afetos.  Quem não consegue expressar sua própria potência precisa do poder para roubá-la dos outros. E estamos tão impotentes que achamos que não há nada fora das relações de poder. Mas, pensando bem, se o poder nos constrange, como poderíamos achar que ele é a solução de nossos problemas? Temos de concluir que o que há de mais pleno na vida está para além do poder. Mas onde?

O poder é sempre impotente, ele precisa parasitar, enfraquecer, ele precisa que outros os sirvam, ele não suporta a potência. Mas ele não exclui totalmente o outro, porque precisa dele para sustentar-se, e é nesse ponto em que ele é mais esperto. Entretanto, como lembra Estamira, ele é esperto ao contrário. O poder é um campo de dupla servidão, a sujeição se amplia nele, os dois são servos, senhor e escravo, um dependendo do outro. O poder é se alimenta de nossa potência de criar valores e, consequentemente, relações. Senhor e servo constituem relações de poder, o servo sendo em maior ou menor grau cúmplice: um ganha outro perde. Um ganha a submissão e o outro ganha proteção e segurança. Todo poder se constitui numa desistência do outro, mas Nietzsche diz: “que senhor é esse que precisa do olhar do escravo pra se sentir superior?“.

É isso, o poder é uma ilusão, é na verdade a impotência. Será que o verdadeiro senhor não é aquele que está acima do bem e do mal? A potência não demanda reconhecimento, ela dá crédito a si mesma.  Na potência, as relações se constituem por harmonias delicadamente encontradas onde os dois ganham. A liberdade de um amplia a liberdade do outro. A potência procura construir junto, ela não precisa rebaixar, ela é causa de si e não precisa apropriar-se do outro. A liberdade é a da plena afirmação de nossa potência! O desejo que nasce da potência é o critério de si mesmo. Ele vai até a onde a potência o leva. É dessa maneira que a ética se constitui.

Pare um minuto, já dá pra escutar lá longe o grito dos moralistas: Ah! Assim todo mundo vai sair se matando!“. Que ingenuidade!, quer coisa mais impotente que tirar a vida de alguém? Como eles pensam que matar alguém possa ser algo potente? Para nós está claro que matar é investir na impotência do outro de modo absoluto. O assassino é alguém que faz um mal uso daquilo que lhe acontece, que está sob poder de afetos tristes e relações nefastas. Só se mata pela impotência, inclusive, mata-se até a si mesmo por impotência. E não falamos apenas em sentido literal. Quantos mortos vivos não vemos por aí? Quantos não mataram sua vida mas continuaram existindo como fantasmas?

Estar vivo é estar inserido numa cadeia de eventos, é ser arremessado de encontro a forças externas; que mais seria viver senão um ato? Viver de modo legítimo é difícil, adquirir presença, estar no acontecimento, ter plena capacidade de experienciá-lo, não perdê-lo, é resultado de uma potência que se expressa em nós. E tudo o que é potente quer seu crescimento, é uma junção de forças, é um agenciamento que encontra meios, que se potencializa inventando novas interações com o mundo. Aquele ou aquela que é potente, pensa em si, mas afetando seu arredor de maneira positiva. O poderoso também pensa em si, mas não se importa com o que está a sua volta.

O homem não sabe mais ser generoso, por isso pedimos por outros modelos. Nos tornamos mesquinhos, investimos nos limites, não nas linhas. Já não sabemos experimentar as intensidades, então investimos em nossa prisão. Construímos cada vez muros mais altos em vez de pontes mais largas. Criar outro modo de relacionar-se com a afirmação é o que leva à potência. Não queremos carregar valores em nossas costas, nem carregar os ombros dos outros com o peso dos nossos. A potência opera uma transvaloração de todos os valores, ela apresenta-se como capacidade de criação de novas maneiras de se relacionar com os outros.

É preciso eliminar o poder em nós. Sem compaixão, eliminar aquilo que nos afasta de nós mesmos, aquilo que nos afasta de nossa potência. Precisamos estar atentos para este circuitos de afetos que nos preenchem. Não precisamos pedir licença  para afirmar nossos desejos, nem pagar pedágio a ninguém por nossas alegrias. O poder incha, engorda, acumula, a potência se torna mais esbelta, esguia, ágil. Ela dança,  e dançando ultrapassa a si própria. O poder está aí para fazer do corpo uma função, a potência está aí para fazer da vida uma criação.

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

Mais textos de Rafael Trindade

Deixe um Comentário