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Dois anos ele caminha pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retornarás, porque ‘o Oeste é o melhor’. E agora depois de dois anos errantes chega a última e maior aventura. A batalha final para matar o ser falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Dez dias e noites de trens de carga e pegando carona trazem-no ao grande e branco Norte. Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perder-se na natureza” – Alexander Supertramp, maio de 1992

Chris tratava todos à sua volta com um código moral rigoroso. Estava sempre pronto para discutir e dar respostas fortes àqueles que falavam uma coisa mas viviam outra. A coragem de viver o que se diz levou Chris McCandless a procurar outro nome para expressar quem era: Alex Supertramp.

Sua natureza, depois que saiu para viver sua grande aventura de ir para o Alasca, tornou-se tão diferente que era preciso um outro nome para designar todo aquele novo modo de afetar e ser afetado pelo mundo. Para ele, viver e pensar eram a mesma coisa, a verdade se manifestava em seu modo de vida.

O objetivo de Alex era apenas um: viver radicalmente aquilo que acreditava, mergulhar na natureza selvagem, perder-se e encontrar-se nela, até não saber mais onde um acaba e a outra começa. Antes de escrever sobre isso, era preciso viver, mais do que falar, era preciso sentir na pele e isso significava mudar radicalmente seu modo de vida. Por isso muitos pensaram que ele era louco, porque foi um dos poucos que deixou para trás a hipocrisia das palavras que todos pregam e as transformou em atitudes e ações. Encontramos quatro princípios que nortearam suas atitudes.

  1. Honestidade: Muitos dizem para você ser honesto e verdadeiro com os outros, mas quantos conseguem? Ou melhor, quem consegue ser honesto consigo mesmo? Alex levou isso a sério e resolveu viver do modo que gostaria, desafiando todos ao seu redor ele. A honestidade está em falta em nossa vida porque ela própria é construída em cima de inúmeras mentiras, Alex viu isso muito claramente em seus pais. Transformar a falsa honestidade do dia a dia em verdadeira honestidade, torná-la um de seus quatro pontos cardeais, indica que você começará a tomar rumos muito diferentes para sua vida.
  2. Desapego: Saber o que é seu e o que não é, encontrar um modo puro de viver. Alex doou e posteriormente queimou todo o seu dinheiro, para saber exatamente o que era dele: roupas do corpo, a força suas pernas e braços. Ele levava somente o que precisava e várias vezes recusou mais utensílios que tornariam sua vida fácil demais. Pedir carona, dormir em uma cabana, tudo era um exercício, uma prova para si mesmo de que poderia viver desta forma, sem os objetos supérfluos que faziam parte de sua vida anterior. Desapego como forma de ganhar coragem e resistência. É fácil falar que objetos materiais não trazem felicidade para o homem, Alex fez questão de provar isso, em vez de ouvir a verdade, resolveu vivê-la.url
  3. Natureza: o terceiro ponto cardeal para Alex Supertramp era olhar para a natureza mais do que para os costumes. O que significa viver conforme a natureza? Qual a linha que separa a vida natural da civilizada? Ora, Chris teve que cruzar esta linha para transformar-se em Alex Supertramp. Convenções, tradições, discursos, moralismos, hipocrisias, desperdícios, é preciso deixar tudo isso para trás, sim, porque tudo isso nos afasta de nós mesmos. Alex viveu como um animal, não no sentido negativo do termo, mas de modo positivo: viveu segundo sua natureza, sem negar seus impulsos, suas vontades, seus desejos. Se tantas vezes falaram para Chris da importância da natureza, as pessoas à sua volta não deveria ter se assustado com suas escolhas. Assim como o pássaro voa por sua própria natureza, e isso não carece de explicação, Alex seguiu seu próprio destino: por sua própria natureza.
  4. Ousadia: Alexandre (um dos maiores conquistadores da história) Supertramp (andarilho, vagabundo). A ousadia é assunto de muitos, mas atitude de poucos. Quantos de nós não quer mudar de vida mas não tem coragem? Alex teve a ousadia de ir para o Alasca, simplesmente porque era difícil, porque lá se sentiria mais em contato consigo mesmo. Ousadia para procurar a vida difícil, não a fácil, ousadia para estar o tempo todo em guerra, o tempo todo à prova. Ousadia de viver conforme seus princípios, sem mentir nem para si nem para os outros. Alex só tinha coragem de olhar nos olhos das pessoas e dizer quem era porque sua vida condizia exatamente com aquilo que pensava e queria.

Chris seria um rico advogado, bem sucedido, pai de família, mas nada disso tem importância. Tudo isso seria falso se fosse realidade, ele estaria vivo, mas sua existência não teria sentido. Era preciso levar sua vida ao limite de suas crenças, entrar em guerra com todos à sua volta, aproximar a vida daquilo que a própria vida quer. É preciso escandalizar aqueles que Alex mesmo chamou de “pessoas de plástico”, para fazer algo de verdadeiro e de eterno se materializar.

Só pode haver verdadeira vida como vida outra, e é do ponto de vista dessa vida outra que vai se fazer aparecer a vida comum das pessoas comuns como sendo precisamente outra que não a verdadeira. Vivo de uma maneira outra, e pela própria alteridade da minha vida eu lhes mostro que o que vocês buscam está em outro lugar que não aquele em que buscam, que o caminho que vocês pegam é um caminho outro em relação ao que deveria pegar” – Foucault, A Coragem da Verdade

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Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

1 comentário

  1. Difícil deixar de comentar sobre um belíssimo post como esse aí Rafael! Há filmes / livros e biografias que nos tocam no íntimo do ser (Os miseráveis, O Dr. Jivago, Crash, Vida nos Bosques, Ensaios de Emerson, entre outros…), incluindo o relato verídico de McCandless.
    Estou lendo um livro do Lipovetski, “A Era do Vazio”, que muito bem caracteriza esses 4 elementos que faltam no cotidiano no homem contemporâneo!
    Abraços e meus parabéns pela reflexão.

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