O medo é uma tristeza instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida” – Espinosa, Ética, definição dos afetos, 13

Those who have nothing to lose - Pavel Filinov
Those who have nothing to lose – Pavel Filinov

Acima de nós: chefes, pais, políticos, deuses ciumentos e rancorosos; ao nosso lado, inimigos, competidores, policiais com spray de pimenta e cassetetes, assassinos perigosos, carcereiros encarnados; abaixo de nós, a massa, o povo, os insurgentes, os revoltados. Todos são suspeitos. O sujeito amedrontado de hoje é o bom empregado de amanhã. A criança assustada de hoje é o bom aluno de amanhã. A mulher “colocada em seu lugar” de hoje é a esposa “bela, recatada e do lar” de amanhã. O securitizado é um arquétipo, os  a concretização da sociedade do medo e da insegurança. Espinosa já disse, o medo leva à apenas uma coisa: servidão.

Compreender sociedades como circuitos de afetos implicaria partir dos modos de gestão social do medo, partir de sua produção e circulação enquanto estratégia fundamental de aquiescência à norma. Pois, se, de todas as paixões, a que sustenta mais eficazmente o respeito às leis é o medo, então deveríamos começar por nos perguntar como ele é produzido, como ele é continuamente mobilizado” – Vladimir Safatle, Circuito dos Afetos, p. 18

O medo nos impede a ação, nos joga contra o que não queremos, no cala quando vamos falar, nos afasta daquilo que, há um minuto atrás, achávamos que podíamos. Se a esperança une, o medo desagrega, se os gritos de ordem inspiram, as balas de borracha aterrorizam. Nos percebemos culpados de crimes que não cometemos, delinquentes, e temos a nítida sensação de estar fazendo algo errado, mas será que estamos? Isso é um modelo de funcionamento da sociedade, mobilizar continuamente o medo e a culpa. Não seria função maior desta fantasia limitar nossa capacidade de produzir novos afetos? Não seria esta a nossa maior razão de impotência? Nos deixamos aprisionar a um circuito de afetos de tal forma, que nos parece natural sempre ter medo.

O medo é  o afeto (bio)político central do poder para a coesão da vida social. É uma máquina de corpos dóceis! Ele funciona como um elemento generalizador, faz indivíduos admitirem um poder superior que transforma a segurança em conceito decisivo para proteger os cidadãos. Para que o soberano tenha legitimidade ele precisa do medo, ele precisa lembrar constantemente que, se não estivesse lá, uma guerra de todos contra todos teria início. O soberano escala os degraus que o medo constrói e diz: “protejo logo obrigo“.

O medo teria a força de estabilizar a sociedade, paralisar o movimento e bloquear o excesso das paixões” – Vladimir Safatle, Circuito dos Afetos, p. 56

Nós nos deixamos limitar por vários afetos: medo e esperança, ódio, cinismo, ressentimento. Sendo o medo um dos afetos mais plásticos que existem, capaz de se interligar com vasos comunicantes, criando micro-medos, que se transformam e conformam. Medo fundamental do endividado: não ser capaz de organizar a vida no interior de uma realidade econômica; medo fundamental das minorias, não serem reconhecidas; medo fundamental dos indivíduos, perderem sua propriedade.

Este afeto é o fator determinante para estarmos isolados da política. O ato político se constitui com coragem, segurança, insistência. A sociedade se crê separada do poder de decisão, da cúpula do governo. E não está? O poder é imaginado como uma instância superior inacessível e incompreensível. Permanecemos calados porque não nos organizamos para alguém nos ouvir. Um povo impotente é um povo separado de sua capacidade de agir politicamente, e infelizmente tem dado muito certo. A teatralização da política nos coloca como espectadores pacientes, ansiosos pelo último ato que tanto demora a chegar. Ou, pior, transforma o medo em ódio e nos faz agir de maneira puramente destrutiva e ressentida! Transformando o prazer em destruir em um niilismo passivo.

A que ponto o medo ensandece os homens! O medo é a causa que origina e alimenta a superstição” – Espinosa, Tratado Teológico Político

Workers - Pavel Filinov
Workers – Pavel Filinov

Tal sentimento é um estado de ser, se insere em um circuito dos afetos, faz parte de uma maneira de existir, ele é natural e consequência inevitável dada determinadas condições. Este estado nos leva à servidão, e pior, o escravo se torna tirano de si e dos outros. O medo é a origem da superstição (“Votar direito muda as coisas”), da ignorância (“não tem o que fazer, política não tem jeito”), da tirania (“no tempo da ditadura é que era bom”), da esperança (“um dia tudo vai dar certo”), do ódio (“Morram todos, que tudo exploda!”). O moralista confunde sua utopia com a conduta ideal dos homens! A impotência do medo cria fascistas, moralistas, padres, homens da lei. Desta forma, nasce uma cartilha de como os homens devem ser, baseando-se em a prioris impossíveis de serem conquistados.

Todo homem que cria leis e traça limites pensando em uma natureza ideal de homem, cria também meios de culpar, difamar e maldizer o homem real (veja aqui). Obediência a preceitos falsos institui um campo político de medo, servidão e tristeza. Aqueles que defendem mais leis, mais polícia, mais “ordem”, mais bons costumes, são aqueles que confundem a paz com a ausência de guerra. Mas há dois tipo de paz, a paz da liberdade e a paz do medo.

Política e medo simplesmente não combinam, estão colocados em lugares diametralmente opostos. São antíteses plenas. Como foi que fundamos uma sociedade baseada neste sentimento? Não havia outra opção? Eu, você, nós, eles, todos temerosos, se protegendo, se escondendo. Não há outra possibilidade? Não há uma saída? O medo não pode monopolizar nossos afetos (bio)políticos!

Só nos libertaremos de tais modos de determinação de sujeitos à condição de mostrar a viabilidade de pensar sociedades a partir de um circuito de afetos que não tenha o medo como fundamento” – Vladimir Safatle, Circuito dos Afetos, p. 20

A política é impedida também pela ideia de que a plebe, os pobres, os excluídos, são perigosos: “democracia direta? Você está louco? E o povo sabe lá decidir alguma coisa?“, ouvimos a todo momento. O representado acha que é melhor outros tomarem a responsabilidade em seu lugar. A quem cabe o poder de decisão? Aos poderosos? Aos políticos aos quais nos rendemos e vendemos? Votar é um modo de escolher a quem vamos servir! Votar é abdicar!

O que é uma ação política? É quando tomamos parte, em nossa potência singular e limitada, naquilo que nos cabe para operar mudanças concretas. É possível fazer isso em um grande conjunto, tomando as ruas da cidade, mas também é possível um agir político no cotidiano, nas relações diárias. O ato político é a ponta de um iceberg que se eleva acima do medo, da esperança e do ódio! A flor de lótus que emerge de um lodaçal de insegurança e assujeitamento.

Um programa político coerente pode ser inspirado em Espinosa e Negri: transformar a tristeza da política em um ato político alegre, amoroso, capaz de transformar o medo da servidão, superando até mesmo a esperança, em um ato de constituição de sujeito políticos que se sentem seguros entre si e em seu agir em conjunto. Quem está na esperança e duvida, teme enquanto espera. Quem está no medo e duvida, espera enquanto teme. A esperança está tão perto do medo que não pode ser usada como ferramenta para desarmá-lo, os dois andam sempre unidos, muito próximos um do outro. É impossível atuar politicamente fundado na esperança sem passar em vários momentos pelo medo. Os dois são fruto das contingências externas e de nossa impotência para atuar sobre elas.

Queremos sair do medo, ultrapassar a esperança para, seguindo uma linha direta, chegar na alegria. Sim! A libertação, aos olhos dos dominados, vem de fora; mas aos olhos dos que lutam, vem de sua própria ação no mundo. A alegria cria um campo comum sem desfazer-se da diferença criadora! Uma política potente precisa nutrir-se de alegria e de amor! Transvalorando o campo dos afetos e permitindo um novo modo de vida!

Uma população que vive em paz por medo ou por inércia não vive numa Cidade, mas na solidão, e a Cidade não é habitada por homens, mas por um rebanho solitário” – Chaui, Espinosa e a Política, p. 262

Texto da série: Afetos (bio)Políticos

A Man in the World - Pavel Filinov
A Man in the World – Pavel Filinov

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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