A arte da conduta recíproca entre o homem e o rapaz na relação de amor” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 115

Não é fácil falar do uso dos prazeres quando se trata dos rapazes. Isso sempre foi uma inquietação para os gregos e motivo de profunda reflexão sobre as relações. Neste sentido, fica claro que não podemos tratar o assunto como uma simples questão de homossexualidade. Para os gregos, amor é amor e não faz distinção de sexo. Não há, nesse caso, uma oposição clara, entre o amor heterossexual e homossexual. O cerne da questão está no tipo de relação que o amante e o amado mantém, que, no caso de dois homens, se torna mais complexo.

Ter costumes frouxos consistia em não saber resistir nem às mulheres nem aos rapazes, sem que este último caso fosse mais grave do que o outro” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 237

Os gregos se inclinavam para o belo, isso diz muito. Não há qualquer tipificação do prazer como heterossexual ou homossexual, não há confronto nem oposição, são apenas duas maneiras de se obter prazer, sem que isso classifique aquele que deseja e busca prazer, sua preocupação está na aphrodisia, em não tornar-se escravo de seus prazeres e pensar qual a melhor maneira de se relacionar com suas possibilidades.

Por isso a questão não passa pela proibição ou qualquer tipo de moralização quanto ao prazer homossexual, a reflexão cai sempre na pergunta: “como e de que forma deve-se obter prazer com os rapazes?”. Ou seja, em minha busca pelo prazer, de que forma me submeto a eles? (veja mais aqui) Estes prazeres foram alvos constantes de reflexão e questionamento. Isto porque, apesar do prazer sempre inclinar-se para o belo, há diferenças importantes, para os gregos, entre um homem e uma mulher.

Foucault descreve de que maneira a relação entre dois homens envolve a questão de status. Se, para os gregos, o prazer com a mulher e com os escravos era visto como uma forma de obter prazer com uma propriedade, tudo se torna muito diferente entre “homens livres”. Qual é a maneira que um homem obtém prazer com outro? Entre os rapazes, diz Foucault, esta prática era vista como natural. O problema consistia quando se tratavam de dois homens adultos, pois a entrega fácil aos prezeres e a passividade eram malvistas entre os gregos.

Dentro desta possibilidade, as reflexões se concentram no papel do erasta e do erômano. O primeiro, homem feito, mais velho, com uma posição política, fica em uma posição de conquista, de corte, de atividade, e de dominação. O segundo encontra-se na posição de amado, aquele que é cortejado, que não deve ceder com facilidade, mas ao mesmo tempo deve reconhecer os esforços do erasta em agradá-lo.

A diferença crucial está no fato do rapaz ser alguém em formação, um aprendiz que terá a mesma posição que o erasta no futuro. Ou seja, a sutileza desta relação é que ela está fadada a terminar (na maioria das vezes) e que também é uma relação de formação, de pedagogia. Aquele que se coloca como objeto amado e cobiçado pelo homem mais velho está com seus dias contados. Não se trata então de uma questão dietética ou econômica, como discutimos em textos anteriores, mas sim de um caráter diferente, de “limites”:

A primeira barba, como se sabe, passava por essa marca fatídica, e a navalha que a cortava devia romper, como se dizia, o fio dos amores” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 251

Toda a questão se torna muito mais complexa aqui, e é fácil para nós entender o por quê. Aquele que vai governar deve aprender a governa a si mesmo, mas na realidade estes são poucos: homens, nascidos na cidade-estado, que atingiram uma certa idade, etc. Ou seja, estes homens livres estabelecem relações entre si mesmos que são diferentes das outras. Eles dividem o mesmo espaço, um espaço de luta, contenda, competição, diferente da relação homem/mulher.

A preocupação está no campo da conduta, onde ela pode ser vergonhosa e onde é honrosa. Por isso o problema não era exatamente o número de pretendes ou o quanto o rapaz era assediado, mas a maneira com a qual ele respondia a esta procura. Estamos aqui no delicado campo das relações, onde cada um não quer e não pode deixar-se levar passivamente por seus desejos nem pelo desejo dos outros.

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Na Dietética, o que estava em questão era, sobretudo, o domínio de si e a violência de um ato perigoso; na Econômica era a questão do poder que se deve exercer sobre si na prática do poder que se exerce sobre a mulher. Aqui, a partir do momento em que a Erótica assume o ponto de vista do rapaz, o problema é saber de que maneira ele poderá assegura o seu domínio não cedendo aos outros” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 266

A dificuldade está para os gregos em estabelecer uma relação ética com o outro, de modo que um não ceda nem se submeta. Tudo gira em torno da liberdade de cada uma das partes! Dentro da própria questão sexual havia uma reflexão sobre a questão social. A relação entre ativo e passivo podia ser pensada também, dentro do campo da política, como as relações de superioridade e inferioridade. Relação de rivalidade e de hierarquia.

Quando, no jogo das relações de prazer, desempenha-se o papel do dominado, não se poderia ocupar, de maneira válida, o lugar do dominante no jogo da atividade cívica e política” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 274

Eis o cerne da questão, começa a ficar claro que o problema não está na relação homossexual, mas ao modo como cada um se coloca na relação, se submete a ela, tem uma parte ativa na sua realização. A Ética envolvida na erótica traz como objetivo a constituição de homens ativos, que exerçam o comando de seus prazeres e da cidade, mas mais ainda, que saibam cuidar de si próprios. E possam governar aos outros apenas na medida em que se tornaram capazes de governar a si mesmos.

O mais importante aqui é notar como os gregos sabiam que o sujeito pode produzir a si mesmo e se tornará, eventualmente, um sujeito cada vez mais ativo neste processo. A formação de si, através das relações e do exercício sobre si é o que permite tornar-se senhor de si. Não se trata de uma questão moral, podemos dizer que é muito mais uma questão ética.

O debate do amor pelas mulheres com o amor pelos rapazes é mais do que um justa literária; mas não é por isso o conflito entre duas formas de desejo sexual lutando pela supremacia ou pelo seu respectivo direito à expressão; é o enfrentamento entre duas formas de vida, duas maneiras de estilizar o próprio prazeres, e os discursos filosóficos que acompanham essas escolhas” – Foucault, Cuidado de Si, p. 216

Ao longo de tempo esta reflexão se concentrará na relação com as mulheres, passando para os vínculos conjugais dentro do que os gregos chamaram de econômica. De que forma juntar forças? Como fazer aliados? De que maneira multiplicar o prazer sem perder-se nele? Todas estas perguntas abrem o sujeito para o campo social no qual habita e no qual muitas forças o atravessam.

Enquanto os gregos trataram a questão do amor com os rapazes como uma erótica, ou seja, um uso dos prazeres dentro do cuidado de si; podemos constatar facilmente como a questão da homossexualidade sofreu fortes críticas na história da sexualidade. Caindo no campo da normalização, o amor pelo mesmo sexo ganhou status patológico, na modernidade, com a psiquiatria e a psicologia, e pecado, no cristianismo.

Os gregos souberam pensar o amor como uma forma de constituição subjetiva do próprio sujeito, quem se ama e como se ama é parte importante de quem nós somos e podemos nos tornar. Tudo isso para tornar ainda mais agradáveis as coisas boas e suportáveis as ruins. Tudo se passa no campo das intensidades, de potências que se afirmam em relações que aumentam ou diminuam nossas possibilidades de vida.

A Erótica começa na problematização do amor aos rapazes, mas pouco a pouco se espalha para as múltiplas formas que temos de no relacionar. Somos senhores ou escravos de nossos prazeres? Deles desfrutamos ou somos seus reféns? Os gregos souberam responder a estas perguntas sem cair no campo da moral e da normalização.

- Taíme Govêa
– Taíme Govêa

Texto da série: Cuidado de Si

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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