Tudo o que necessitamos, e que somente agora nos pode ser dado, graças ao nível atual de cada ciência, é uma química das representações e sentimentos morais, religiosos e estéticos, assim como de todas as emoções que experimentamos nas grandes e pequenas relações da cultura e da sociedade, e mesmo na solidão: e se essa química levasse à conclusão de que também nesse domínio as cores mais magníficas são obtidas de matérias vis e mesmo desprezadas? Haveria muita gente disposta a prosseguir com essas pesquisas?” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §1

O conceito de ciência varia muito durante a obra de Nietzsche, vamos nos concentrar aqui em sua fase dita científica, especificamente em Humano, Demasiado Humano, Aurora e Gaia Ciência.

O que aqui encontramos é uma ciência crítica determinada a por fim em todos os valores metafísicos que tanto nos limitam. Nietzsche procura este caminho depois da superação de uma crise, seu afastamento de Wagner e Schopenhauer e profundos problemas de saúde. Qual passa a ser então seu objetivo? Ora, se o filósofo do martelo quer trilhar seu próprio caminho então primeiro precisa retirar a poeira das tralhas psicológicas e analisar o que presta e o que deve ser jogado fora!

É nesta fase da filosofia de Nietzsche que a ciência ganha seu valor e sua utilidade. Ela se torna então este impulso, uma força que traz ao espírito livre a possibilidade de iniciar um longo e doloroso processo de desprendimento. Ela é de grande importância porque pode opor-se firmemente à metafísica, questionando seus valores antes inquestionáveis.

É triste, mas por enquanto todos os sentimentos superiores têm de ser suspeitos para o homem científico, de tal modo se acham mesclados com a ilusão e o contrassenso”

– Nietzsche, Aurora, §33

Aqui começa o empreendimento nietzschiano. O impulso ao conhecimento é visto por Nietzsche como um processo importante dos Espíritos Livres: como filosofar à sombra de teólogos, padres e metafísicos? É possível outro modo de entender nosso lugar na sociedade, a origem destes sentimentos morais? Ora, torna-se necessária aqui uma química das representações e dos sentimentos morais! Para opor-se à lógica estabelecida pelos dogmáticos é necessário encontrar uma ciência que busque pela raiz dos problemas. Nietzsche nos faz ver que tudo que foi escrito até agora sobre o homem continha um ranço moral indistinguível do suposto conhecimento que era exposto. Padres, teólogos, filósofos, eles escreveram procurando conhecer o homem ou pregando como deveriam ser?

A ciência aparece aqui como purgante, como lavagem profunda e investigação detalhada, que procura pela origem daqueles sentimentos que parecem tão belos e sublimes e mostra suas origens humanas, demasiado humanas. Mas ao mesmo tempo, uma ciência que permita ver o que há de belo no mundo! Sem necessidade de apelar para outra existência ou outra vida.

Cabe à ciência dissipar erros e ilusões da razão, onde ela está contaminada de moralina, certas perspectivas às quais ela aferrou-se e não quer se soltar (tais como a alma, separação mente corpo ou o pecado original). Uma ciência trágica que dissolve os limites impostos pela própria ciência, pelo próprio conhecimento. Também uma ciência que enfrente os dogmas científicos. Ela tem o papel de esclarecer onde a razão tornou-se tacanha, fechada, limitada, em uma palavra: teológica.

Não obstante. — Seja qual for o resultado dos prós e dos contras: no presente estado de uma determinada ciência, o ressurgimento da observação moral se tornou necessário, e não pode ser poupada à humanidade a visão cruel da mesa de dissecação psicológica e de suas pinças e bisturis. Pois aí comanda a ciência que indaga a origem e a história dos chamados sentimentos morais, e que, ao progredir, tem de expor e resolver os emaranhados problemas sociológicos: — a velha filosofia não conhece em absoluto estes últimos, e com precárias evasivas sempre escapou à investigação sobre a origem e a história dos sentimentos morais”

– Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §§37

O espírito livre questionará todos os valores, como se tudo cheirasse à superstição ou ao menos fruto de seu momento histórico. A consciência científica é um dos caminhos que Nietzsche encontra de questionar a própria razão, o próprio conhecimento. Há aqui um divórcio explícito! Porque enquanto a religião procurará dar respostas que satisfaçam a ciência procurará questionar e inquietar! O espírito livre precisa disso, para desembaraçar-se das teias da moral, somente neste campo eminente onde o ceticismo é levado a sério, onde as experimentações são possíveis, onde todas as autoridades podem ser questionadas é que ainda é possível a superação e o crescimento.

O desmancha-prazeres da ciência. — A filosofia se divorciou da ciência ao indagar com qual conhecimento da vida e do mundo o homem vive mais feliz. Isso aconteceu nas escolas socráticas: tomando o ponto de vista da felicidade, pôs-se uma ligadura nas veias da investigação científica — o que se faz até hoje”

– Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §7

Não é uma questão de felicidade, ou melhor, não é uma busca por uma felicidade passiva, pacífica, submetida, tolhida. Talvez a ciência necessite de uma grande quantidade de dor, de desespero, de suspeita (talvez para elevar e propiciar outro tipo de felicidade).  Sim, porque este suposto conhecimento com fundamentações supra-sensíveis foi construído para nos consolar, adestrar, aquietar! Ele paira sobre uma série de erros que permitem ao homem sobreviver no caos do mundo. A razão foi engolida pela lógica teológica e assim permaneceu, aceitou! Ou seja, a ciência é uma poderosa ferramenta para destituir também a psicologia de seus erros reconfortantes, suas verdades bondosas.

É neste sentido que Nietzsche buscará a ciência como um dos caminhos para “tornar-se quem se é”! O espírito livre quer retornar a si mesmo sem a mediação dos dogmas e metafísicos que lhe foram inculcados na cabeça. Ele está cheio de bagagem da qual não necessita. Não queremos mais discutir o sexo dos anjos, e a ciência é este poderoso martelo com o qual se quebram os erros da razão! O espírito científico congela e esvazia os erros da razão.

Substituto da religião — Cremos dizer algo de bom sobre uma filosofia, quando a apresentamos como substituto da religião para o povo. De fato, na economia espiritual são necessários, ocasionalmente, círculos de ideias intermediários; de modo que a passagem da religião para a concepção científica é um salto violento e perigoso, algo a ser desaconselhado

– Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §27

Ciência e teologia seguem caminhos opostos! O que quer o questionador espírito científico que nos traz Nietzsche? Apenas uma coisa, tornar leve, mas também mais forte, pairar destemido sobre os homens supersticiosos, costumes, leis e avaliações dogmáticas! A ciência nos conduz ao novo, ela é instrumento primoroso de para quebrar ídolos.

– Andrea Pramuk

É preciso então, dirá Nietzsche, apropriar-se da ciência com fins de auto-afirmação. Ela tem uma função propedêutica, ou seja, é ela quem dá início, não surpreende então figurá-la como o primeiro conceito de nossa série, “Espírito Livre”, porque esta forma de pensar invariavelmente lançará o espírito livre na crise. O que mais poderíamos desejar? Estamos cansados das respostas apaziguadoras, porque apenas desta maneira ele poderá sair dessa crise fortalecido, limpo do fanatismo e das crenças metafísicas ingênuas.

A ciência exercita a capacidade, não o saber. — O valor de praticar com rigor, por algum tempo, uma ciência rigorosa não está propriamente em seus resultados: pois eles sempre serão uma gota ínfima, ante o mar das coisas dignas de saber. Mas isso produz um aumento de energia, de capacidade dedutiva, de tenacidade; aprende-se a alcançar um fim de modo pertinente. Neste sentido é valioso, em vista de tudo o que se fará depois, ter sido homem de ciência”

– Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §256

Ou seja, a ciência esclarecerá através de um processo lento e gradual, tornando assim mais definidos os caminhos, permitindo escolher melhor. O máximo que ela pode nos dar são ficções úteis, condições de crescimento da Vontade de Potência. A ciência amadurece os espíritos livres e se converte em paixão do conhecimento, capaz de desdobrar o autoconhecimento em uma prática de constante auto-formação. Desta forma podemos caminhar mais livres pela existência, o anti-dogmatismo científico nos ensina a não nos prender facilmente a ideias estabelecidas.

Ainda assim, apesar da grande importância da ciência, ela jamais poderá indicar o “para onde?” de nós. Porque desta maneira corre o risco de tornar-se dogmática. O principal, para Nietzsche, está no questionamento das verdades, no ceticismo de não aceitar tão facilmente uma verdade nova e na experimentação que encontra caminhos não trilhados. Se ela cair novamente em dogmatismos, procurando a verdade por trás das coisas, ela se tornará reativa (niilismo reativo). Para Nietzsche a busca por verdades eternas, pontos imutáveis, é sinal de que uma força de criação declina e torna-se fraca. Não nada para ser descoberto ou desvelado.

Supondo que todos esses trabalhos fossem realizados, viria ao primeiro plano a questão mais espinhosa: se a ciência estaria em condições de oferecer objetivos para a ação, após haver demonstrado que pode liquidá-los – então caberia uma experimentação que permitiria a satisfação de toda uma espécie de heroísmo, séculos de experimentação, que poderia deixar na sombra todos os grandes trabalhos e sacrifícios da história até o momento. A ciência ainda não ergueu suas construções ciclópicas até hoje; também para isso chegará o tempo”

– Nietzsche, Gaia Ciência, §7

A ciência exige um rigor em ponderar, em julgar, e até mesmo em condenar, porque certas coisas não podem ser mais toleradas! Outra questão é que ela não se beneficia do reconhecimento que os artistas e religiosos obtém! Ainda assim, ciência e arte estão muito próximas para Nietzsche. Visto da perspectiva da Vontade de Potência, as duas são a possibilidade de experimentação e auto-superação!

No final, veremos como ciência e arte se juntam em busca de uma estética do experimento. A beleza de um ator-experimentador que abre para si novas possibilidades de vida! Por que haveriam elas de contrapor-se? A ciência não é mais uma busca de verdade a todo custo, ela não se apoia em uma Ditadura da Verdade. Uma existência ético-estética é a única possibilidade que restou ao espírito livre!

Quem a ele se habitua talvez não consiga viver senão nesse ar claro, transparente, vigoroso e bastante elétrico, nesse ar viril. Nenhum outro lugar lhe será suficientemente puro e arejado […] nesse elemento claro e severo ele tem toda a sua energia: aí ele pode voar! […] façamos o que somente nós conseguimos: trazer luz à terra, ser ‘a luz da Terra’! E para isso temos nossas asas e nossa rapidez e rigor, por isso somos viris e mesmo terríveis, como o fogo. Que nos temam aqueles que não souberem aquecer-se e iluminar-se junto a nós!”

– Nietzsche, Gaia Ciência, §293

Texto da Série:

“Espírito Livre

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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