Tudo o que necessitamos, e que somente agora nos pode ser dado, graças ao nível atual de cada ciência, é uma química das representações e sentimentos morais, religiosos e estéticos, assim como de todas as emoções que experimentamos nas grandes e pequenas relações da cultura e da sociedade, e mesmo na solidão: e se essa química levasse à conclusão de que também nesse domínio as cores mais magníficas são obtidas de matérias vis e mesmo desprezadas? Haveria muita gente disposta a prosseguir com essas pesquisas?” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §1

O conceito de ciência varia muito durante a obra de Nietzsche, vamos nos concentrar aqui em sua fase dita científica, especificamente em Humano, Demasiado Humano, Aurora e Gaia Ciência.

O que aqui encontramos é uma ciência crítica determinada a por fim em todos os valores metafísicos que tanto nos limitam. Nietzsche procura este caminho depois da superação de uma crise, seu afastamento de Wagner e Schopenhauer e profundos problemas de saúde. Qual passa a ser então seu objetivo? Ora, se o filósofo do martelo quer trilhar seu próprio caminho então primeiro precisa retirar a poeira das tralhas psicológicas e analisar o que presta e o que deve ser jogado fora!

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

É nesta fase da filosofia de Nietzsche que a ciência ganha seu valor e sua utilidade. Ela se torna então este impulso, uma força que traz ao espírito livre a possibilidade de iniciar um longo e doloroso processo de desprendimento. Ela é de grande importância porque pode opor-se firmemente à metafísica, questionando seus valores antes inquestionáveis.

É triste, mas por enquanto todos os sentimentos superiores têm de ser suspeitos para o homem científico, de tal modo se acham mesclados com a ilusão e o contrassenso” – Nietzsche, Aurora, §33

Aqui começa o empreendimento nietzschiano. O impulso ao conhecimento é visto por Nietzsche como um processo importante dos Espíritos Livres: como filosofar à sombra de teólogos, padres e metafísicos? É possível outro modo de entender nosso lugar na sociedade, a origem destes sentimentos morais? Ora, torna-se necessária aqui uma química das representações e dos sentimentos morais! Para opor-se à lógica estabelecida pelos dogmáticos é necessário encontrar uma ciência que busque pela raiz dos problemas. Nietzsche nos faz ver que tudo que foi escrito até agora sobre o homem continha um ranço moral indistinguível do suposto conhecimento que era exposto. Padres, teólogos, filósofos, eles escreveram procurando conhecer o homem ou pregando como deveriam ser?

A ciência aparece aqui como purgante, como lavagem profunda e investigação detalhada, que procura pela origem daqueles sentimentos que parecem tão belos e sublimes e mostra suas origens humanas, demasiado humanas. Mas ao mesmo tempo, uma ciência que permita ver o que há de belo no mundo! Sem necessidade de apelar para outra existência ou outra vida.

Cabe à ciência dissipar erros e ilusões da razão, onde ela está contaminada de moralina, certas perspectivas às quais ela aferrou-se e não quer se soltar (tais como a alma, separação mente corpo ou o pecado original). Uma ciência trágica que dissolve os limites impostos pela própria ciência, pelo próprio conhecimento. Também uma ciência que enfrente os dogmas científicos. Ela tem o papel de esclarecer onde a razão tornou-se tacanha, fechada, limitada, em uma palavra: teológica.

Não obstante. — Seja qual for o resultado dos prós e dos contras: no presente estado de uma determinada ciência, o ressurgimento da observação moral se tornou necessário, e não pode ser poupada à humanidade a visão cruel da mesa de dissecação psicológica e de suas pinças e bisturis. Pois aí comanda a ciência que indaga a origem e a história dos chamados sentimentos morais, e que, ao progredir, tem de expor e resolver os emaranhados problemas sociológicos: — a velha filosofia não conhece em absoluto estes últimos, e com precárias evasivas sempre escapou à investigação sobre a origem e a história dos sentimentos morais” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §§37

O espírito livre questionará todos os valores, como se tudo cheirasse à superstição ou ao menos fruto de seu momento histórico. A consciência científica é um dos caminhos que Nietzsche encontra de questionar a própria razão, o próprio conhecimento. Há aqui um divórcio explícito! Porque enquanto a religião procurará dar respostas que satisfaçam a ciência procurará questionar e inquietar! O espírito livre precisa disso, para desembaraçar-se das teias da moral, somente neste campo eminente onde o ceticismo é levado a sério, onde as experimentações são possíveis, onde todas as autoridades podem ser questionadas é que ainda é possível a superação e o crescimento.

O desmancha-prazeres da ciência. — A filosofia se divorciou da ciência ao indagar com qual conhecimento da vida e do mundo o homem vive mais feliz. Isso aconteceu nas escolas socráticas: tomando o ponto de vista da felicidade, pôs-se uma ligadura nas veias da investigação científica — o que se faz até hoje” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §7

Não é uma questão de felicidade, ou melhor, não é uma busca por uma felicidade passiva, pacífica, submetida, tolhida. Talvez a ciência necessite de uma grande quantidade de dor, de desespero, de suspeita (talvez para elevar e propiciar outro tipo de felicidade).  Sim, porque este suposto conhecimento com fundamentações supra-sensíveis foi construído para nos consolar, adestrar, aquietar! Ele paira sobre uma série de erros que permitem ao homem sobreviver no caos do mundo. A razão foi engolida pela lógica teológica e assim permaneceu, aceitou! Ou seja, a ciência é uma poderosa ferramenta para destituir também a psicologia de seus erros reconfortantes, suas verdades bondosas.

É neste sentido que Nietzsche buscará a ciência como um dos caminhos para “tornar-se quem se é”! O espírito livre quer retornar a si mesmo sem a mediação dos dogmas e metafísicos que lhe foram inculcados na cabeça. Ele está cheio de bagagem da qual não necessita. Não queremos mais discutir o sexo dos anjos, e a ciência é este poderoso martelo com o qual se quebram os erros da razão! O espírito científico congela e esvazia os erros da razão.

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

Substituto da religião — Cremos dizer algo de bom sobre uma filosofia, quando a apresentamos como substituto da religião para o povo. De fato, na economia espiritual são necessários, ocasionalmente, círculos de ideias intermediários; de modo que a passagem da religião para a concepção científica é um salto violento e perigoso, algo a ser desaconselhado” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §27

Ciência e teologia seguem caminhos opostos! O que quer o questionador espírito científico que nos traz Nietzsche? Apenas uma coisa, tornar leve, mas também mais forte, pairar destemido sobre os homens supersticiosos, costumes, leis e avaliações dogmáticas! A ciência nos conduz ao novo, ela é instrumento primoroso de para quebrar ídolos.

É preciso então, dirá Nietzsche, apropriar-se da ciência com fins de auto-afirmação. Ela tem uma função propedêutica, ou seja, é ela quem dá início, não surpreende então figurá-la como o primeiro conceito de nossa série, “Espírito Livre”, porque esta forma de pensar invariavelmente lançará o espírito livre na crise. O que mais poderíamos desejar? Estamos cansados das respostas apaziguadoras, porque apenas desta maneira ele poderá sair dessa crise fortalecido, limpo do fanatismo e das crenças metafísicas ingênuas.

A ciência exercita a capacidade, não o saber. — O valor de praticar com rigor, por algum tempo, uma ciência rigorosa não está propriamente em seus resultados: pois eles sempre serão uma gota ínfima, ante o mar das coisas dignas de saber. Mas isso produz um aumento de energia, de capacidade dedutiva, de tenacidade; aprende-se a alcançar um fim de modo pertinente. Neste sentido é valioso, em vista de tudo o que se fará depois, ter sido homem de ciência” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §256

Ou seja, a ciência esclarecerá através de um processo lento e gradual, tornando assim mais definidos os caminhos, permitindo escolher melhor. O máximo que ela pode nos dar são ficções úteis, condições de crescimento da Vontade de Potência. A ciência amadurece os espíritos livres e se converte em paixão do conhecimento, capaz de desdobrar o autoconhecimento em uma prática de constante auto-formação. Desta forma podemos caminhar mais livres pela existência, o anti-dogmatismo científico nos ensina a não nos prender facilmente a ideias estabelecidas.

- Andrea Pramuk
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Ainda assim, apesar da grande importância da ciência, ela jamais poderá indicar o “para onde?” de nós. Porque desta maneira corre o risco de tornar-se dogmática. O principal, para Nietzsche, está no questionamento das verdades, no ceticismo de não aceitar tão facilmente uma verdade nova e na experimentação que encontra caminhos não trilhados. Se ela cair novamente em dogmatismos, procurando a verdade por trás das coisas, ela se tornará reativa (niilismo reativo). Para Nietzsche a busca por verdades eternas, pontos imutáveis, é sinal de que uma força de criação declina e torna-se fraca. Não nada para ser descoberto ou desvelado.

Supondo que todos esses trabalhos fossem realizados, viria ao primeiro plano a questão mais espinhosa: se a ciência estaria em condições de oferecer objetivos para a ação, após haver demonstrado que pode liquidá-los – então caberia uma experimentação que permitiria a satisfação de toda uma espécie de heroísmo, séculos de experimentação, que poderia deixar na sombra todos os grandes trabalhos e sacrifícios da história até o momento. A ciência ainda não ergueu suas construções ciclópicas até hoje; também para isso chegará o tempo” – Nietzsche, Gaia Ciência, §7

A ciência exige um rigor em ponderar, em julgar, e até mesmo em condenar, porque certas coisas não podem ser mais toleradas! Outra questão é que ela não se beneficia do reconhecimento que os artistas e religiosos obtém! Ainda assim, ciência e arte estão muito próximas para Nietzsche. Visto da perspectiva da Vontade de Potência, as duas são a possibilidade de experimentação e auto-superação!

No final, veremos como ciência e arte se juntam em busca de uma estética do experimento. A beleza de um ator-experimentador que abre para si novas possibilidades de vida! Por que haveriam elas de contrapor-se? A ciência não é mais uma busca de verdade a todo custo, ela não se apoia em uma Ditadura da Verdade. Uma existência ético-estética é a única possibilidade que restou ao espírito livre!

Quem a ele se habitua talvez não consiga viver senão nesse ar claro, transparente, vigoroso e bastante elétrico, nesse ar viril. Nenhum outro lugar lhe será suficientemente puro e arejado […] nesse elemento claro e severo ele tem toda a sua energia: aí ele pode voar! […] façamos o que somente nós conseguimos: trazer luz à terra, ser ‘a luz da Terra’! E para isso temos nossas asas e nossa rapidez e rigor, por isso somos viris e mesmo terríveis, como o fogo. Que nos temam aqueles que não souberem aquecer-se e iluminar-se junto a nós!” – Nietzsche, Gaia Ciência, §293

Texto da série: Espírito Livre

- Andrea Pramuk
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Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

6 comentários

  1. NIETZSCHE e o HISTORICISMO

    Na pós-modernidade, o entendimento da ética se centrara no abandono em se identificar um ponto central para se definir uma única moral, imutável. Passa-se a identificar que múltiplos grupos sociais têm diferentes moralidades.
    E dentro desta nova abordagem pós-moderna, Nietzsche é tido com um dos primeiros grandes pensadores, tendo uma tese central em que a moralidade precisa ser explicada de forma a serem excluídas as vontades não-racionais. Tais racionalidades, traduzidas na forma de interesses, são, de fato para Nietzsche, os condutores das inúmeras morais de muitos povos.
    Na busca de uma explicação genealógica da moral humana, Nietzsche parte de uma análise filológica da origem dos termos bom/mau(ruim) e bem/mal. E, a partir de seus estudos, descobre que o entendimento do que se chama de bom não necessariamente vem dos que praticam ações ditas do bem. Foram os ditos bons (nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento) que definiram que o que eles praticavam fossem classificados como atos bons, enquanto que os atos oriundos do povo, do populacho, seriam os atos maus. Aqui temos, pois, por Nietzsche, definida a origem da oposição bom/ruim.
    O pensador ainda estabelece que o direito do poderoso, do dominador, vai tão pregressamente, que a própria linguagem, nas suas origens, se valeu do poder deste dominante na sua construção, a ponto de bom sempre estar ligado ao nobre, ao correto.
    Neste escopo, o filósofo alemão coloca que os conceitos bem/mal (moral dos fracos), diferentemente de bom/mau (moral dos fortes), seria uma moral não natural, imposta pelos ineptos, que não podem lutar pelo que é bom exatamente por serem fracos. Esta moral deles emerge como uma força apoiada no conceito de “minorias oprimidas” e/ou sustentadas pela moral religiosa (no ocidente a moral judaico-cristã), propalando ser o que faz o bem e não o que é bom, o conceito a nortear a moral e a cultura de uma sociedade, bem como o caminho à felicidade individual.
    Nietzsche afirma que a análise das palavras bom/mau(ruim) e bem/mal, coubera antes apenas, e de maneira parcial, aos psicólogos ingleses. Esta foi então, a única tentativa feita para elaborar uma história da moral, sendo que ditos psicólogos ingleses atrelavam-na a utilidade e, a isto, Nietzsche corrobora, mas não totalmente, erigindo daí uma crítica.
    À origem do moralmente bom/ruim dar-se como que emanando do que é útil, sua crítica apoia-se em uma citação do filósofo Hebert Spencer (que Nietzsche cita no Primeiro Tratado de sua obra Genealogia da Moral) e sua teoria lógica que afirma que “bom” e “útil” são essencialmente semelhantes. O “bom” é o “útil” adaptado. “É ‘bom’ aquilo que sempre se revelou ‘útil’”. Nietzsche explica melhor seu ponto de vista crítico ao utilitarismo, colocando que quando as ações “úteis” passam a ser corriqueiras, não deixam, por isto, de serem “úteis” apenas por passarem ao plano do costumeiro: “essa utilidade foi experiência cotidiana em todas as épocas e portanto continuadamente enfatizado, firmando-se na consciência de maneira sempre mais forte. … conceito de bom como essencialmente igual a útil, conveniente, de modo que bom e ruim a humanidade teria sancionado em suas experiências inesquecidas acerca do útil/conveniente e do nocivo/inconveniente.” (Genealogia da Moral – Primeiro Tratado). Bom = Útil.
    Necessário destacar ainda, sobre a conexão bom/aristocrático e mau/populacho, que afirma que o nobre, aristocrático, assim socialmente classificado, é a origem do que hoje se chama de bom. O que é bom, entende-se por espiritualmente virtuoso, eminente, honrado, superior, de uma origem nobre, bem nascido, aristocrata. Já, segundo a análise filológica de Nietzsche, o ruim, pela raiz filogenéticas do termo mau, liga-se ao inepto, mentiroso, inferior.
    Portanto, o ponto de vista da utilidade é insuficiente e inaplicável quando se trata da fonte viva dos juízos de valor supremos que fixam e determinam a hierarquia bom/mau(ruim). De fato foi o sentimento e não a utilidade. Por Nietzsche: “…repito, a consciência da superioridade e da distância, o sentimento geral, fundamental e constante de uma espécie superior e dominadora, em oposição a uma espécie inferior e baixa que originou a oposição entre “bom” e “mau”.” (Genealogia da Moral – Primeiro Tratado)
    A pesquisa histórica de Nietzsche sobre a origem da moral, o levou a concluir que a moral é uma ideologia baseada numa ilusão: um conjunto de conceitos explicáveis não porque é válido pela racionalidade (Kant), mas sim porque serve a diferentes interesses práticos.

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