Devemos cultivar nosso jardim” – Voltaire, Cândido

Trazer em si um punhado de vivências é ter a pele marcada, curtida. É uma maneira de tornar-se distinto, e este é o objetivo daquele que segue a máxima: “torna-te quem tu és”, pois apenas através de inúmeras vivências um homem pode cultivar-se ao ponto de tornar-se aquele que é. O homem de poucas vivências é pobre, já o de muitas, apenas ele próprio, o que, convenhamos, já é muito.

O caminho traçado por Nietzsche é simples: experiência, vivência, cultivo. O trabalho de si através de inúmeras experiências (não esquecer que ela anda de mãos dadas com a prudência), e um cultivo daquilo que se vivenciou. Este é o espírito livre, um homem de ação, que tomou as rédeas de sua própria existência, que aprendeu a arte de não apenas sobreviver, mas embelezar a própria vida e cultivar-se, esculpir-se.

Não, nós não queremos ser melhorados para alcançar um objetivo, para chegarmos em algum lugar, não queremos evoluir, mas simplesmente aprender a cultivar nosso jardim. Parece simples, mas não é assim tão fácil. Cada vivência é para nós deverá se tornar uma chance de praticar a jardinagem: nós temos a possibilidade de regar aqui, podar ali, tirar umas ervas daninhas acolá. A máxima “tornar-te quem tu és” é um exercício de paciência, que exige prudência, experimentação, cuidado e atenção. O cultivo das vivências é o ponto máximo entre a ética e a estética, aqui uma obra de arte chamada vida começa a tomar forma.

Por que se cultiva um jardim? Ora, pela própria beleza e prazer que este jardim nos dá. Suas flores são cheirosas; suas árvores, frondosas; seus frutos, mais doces, gostamos de imaginar as raízes descendo mais profundamente enquanto as folhas, flores e frutos crescem em direção ao sol. E depois da Aurora, aproxima-se a filosofia do meio-dia, momento ótimo para o cultivo.

Nascidos dos mistérios da alvorada, eles ponderam como é possível que o dia, entre o décimo e o décimo segundo toque do sino, tenha um semblante assim puro, assim tão luminoso, tão sereno-transfigurado: — eles buscam a filosofia da manhã” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §638

Quais sementes queremos plantar? Aonde deve estar cada uma? Cuidado, umas crescem melhor na sombra, outras precisam de muita água. Leva tempo para aprender, mas é nestes momentos que nós lembramos de tudo aquilo que superamos. Aprender a arte da jardinagem é aprender a falar a língua da imanência. Com calma, com serenidade, podemos olhar para tudo aquilo que fomos, mas que de alguma forma ainda nos constitui e nos alegrar.

Claro que não planejamos as crises, as doenças, a solidão, mas agora delas nos servimos. Por isso a necessidade premente das vivências, afinal, sem elas, sobre o que nos debruçaríamos? O olhar aberto daquele que experimentou muitos estados é o mesmo olhar que agora pode cultivar estas diferentes perspectivas. Somente o homem de vivências pode cultivar-se, porque não está preso a si mesmo, porque foi vários ao longo de sua vida, porque aprendeu a deixar e a ficar. Cultivar-se é uma conquista!

Jardineiro e jardim — De dias úmidos e turvos, da solidão, de palavras sem amor que escutamos, nascem conclusões, à maneira de cogumelos: surgem numa manhã, não sabemos de onde, e olham para nós, cinzentos e ranzinzas. Ai do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o solo de suas plantas!” – Nietzsche, Aurora, §382

Desprender-se foi também uma conquista, e a solidão permitiu isso! O conhecimento foi uma conquista, a experimentação permitiu isso. O cultivo mostra ao homem que ele não está condenado ao solo no qual cresceu. Dá mostras de que estamos o tempo todo em mudança, em devir. Com tudo isso, a identidade foi jogada fora, há muitas flores em nosso jardim para encontrarmos qualquer unidade! Não nos peçam para permanecermos os mesmos! Encontramos inúmeras possibilidades da alma! Não estamos mais preocupados com uma reputação sólida, com a fama, com o reconhecimento, com os aplausos dos bajuladores ou qualquer elogio falso. Há um devir-imperceptível naquele que cultiva a si próprio. Podemos cultivar nosso jardim sem culpa…

Tudo isso temos liberdade para fazer; mas quantos sabem que temos essa liberdade? Em sua maioria, as pessoas não creem em si mesmas como em fatos inteiramente consumados? Grandes filósofos não imprimiram sua chancela a este preconceito, com a doutrina da imutabilidade do caráter?” – Nietzsche, Aurora, §560

 - Alexandra Levasseur
– Alexandra Levasseur

Através do cultivo nos tornamos incompreensíveis. Encontramos possibilidades de nossa alma em que ninguém mais poderia chegar, alcançamos costumes e perspectivas que ninguém tem acesso. Depois de sermos um, queremos ser vários, depois de uma razão adequada, demasiadamente adequada, é hora de explodir o bom senso e encontrar novas perspectivas, muitas delas sem tradução. Não basta ser um, não podemos ser um. Talvez aqui uma razão inadequada seja perfeita, porque não nos será mais permitido nos comunicar da maneira convencional (tornar-comum) porque retiramos do cultivo toda nossa singularidade.

Em todo falar há um grão de desprezo. A linguagem, parece, foi inventada somente para dizer o ordinário, mediano, comunicável. Com a linguagem, aquele que fala se vulgariza” – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, § 26

A máxima “Tornar-te quem tu és” exige outro caminho, do qual a comunicação não dá conta. Para um espírito livre, há até mesmo algo de ofensivo em ser compreendido! Deve haver sempre um pouco de incompreensão, um pouco de mar aberto. Nós podemos explicar como o homem que cultiva a si mesmo crescendo e tornando-se mais potente, mas não podemos dizer qual é o caminho para isso, porque todo caminho pode ser uma possibilidade.

Não queremos, e não daremos, obviamente, um manual “torna-te quem tu és”, sistematizado com as tarefas diárias para conquistar tal proeza. Não apenas porque não nos apraz conduzir, mas principalmente porque isso é impossível. Aquele que assim procede, buscando um universal, cai na mediocridade. O Espírito Livre se relaciona pela diferença, não pelo comum, de um mesmo solo, um jardineiro bem o sabe, nascem várias plantes.

Nós, os incompreensíveis – Alguma vez nos queixamos de ser mal entendidos, mal conhecidos, confundidos, difamados, mal escutados e ignorados? Eis precisamente a nossa sina” – Nietzsche, Gaia Ciência, §371

Estamos para além do bem e do mal, chegamos onde gostaríamos de estar. Há um tanto de solidão e silêncio naquele que torna-se quem é, por estar demasiadamente concentrado em sua tarefa, por estar demasiadamente íntimo de si próprio, não perde tempo com nada que possa tirá-lo de seu objetivo.

 - Alexandra Levasseur
– Alexandra Levasseur

Quantas coisas não precisamos abdicar nesta difícil tarefa? Mas agora podemos ter certeza de nossos próprio valores, daquilo que realmente expressa nossa Vontade de Potência. Nos colocamos à prova exatamente por isso, não para chegar em qualquer lugar de exterior a nós, mas para sabermos exatamente aquilo que somos, conquistar este saber e poder cultivá-lo está compreendido na tarefa “tornar-te quem tu és”.

Nós mesmos crescemos, mudamos continuamente, largamos a velha casca, trocamos de pele a cada primavera, tornamo-nos cada vez mais jovens, mais futuros, mais elevados, mais fortes, impelimos nossas raízes cada vez mais poderosamente na profundeza – no mal -, enquanto abraçamos cada vez mais carinhosamente e mais amplamente o céu, absorvendo cada vez mais avidamente a sua luz com todos os nossos ramos e folhas […] crescemos como árvores – algo difícil de entender, como toda a vida! -, não em um só lugar, mas em toda a parte, não numa só direção, mas tanto para cima e para fora como para dentro e para baixo” – Nietzsche, Gaia Ciência, §371

E se nos for necessário falar, que cantemos! A vida tornou-se uma obra de arte, trouxemos para a superfície nossas forças e fraquezas e as obrigamos à nossa vontade de potência! Vemos agora como a obra está quase consumada, podemos olhar para nós mesmos com orgulho. No lugar da amansamento do homem, de sua vulgarização, de sua domesticação, nós soubemos dar estilo ao caráter. A filosofia tornou-se então esta experiência de cultivo de vida e pensamento, cujo resultado é uma melodia em tom maior . Buscávamos as condições que nos permitissem crescer com mais vigor, e neste percurso aprendemos a cultivar nosso jardim, não importando suas condições.

 – Todos os acontecimentos — dizia às vezes Pangloss a Cândido — estão devidamente encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, afinal, se não tivesses sido expulso de um lindo castelo, a pontapés no traseiro, por amor da senhorita Cunegundes, se a Inquisição não te houvesse apanhado, se não tivesses percorrido a América a pé, se não tivesses mergulhado a espada no barão, se não tivesses perdido todos os teus carneiros da boa terra do Eldorado, não estarias aqui agora comendo doce de cidra e pistache. — Tudo isso está muito bem dito — respondeu Cândido, — mas devemos cultivar nosso jardim” – Voltaire, Cândido, ou, o otimista

Texto da série: “Torna-te quem tu és

 - Alexandra Levasseur
– Alexandra Levasseur

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

11 comentários

  1. Que texto incrível! As palavras certamente não poderão expressar o quanto ele é tocante. Só mesmo quem aventura-se a vivenciar ”o que se é” pode sentir na carne do que ele fala. É um caminho sem volta – creio eu – esse de tornar-se quem se é. Há, me parece, uma força em nós que quando cultivada é capaz de ver beleza mesmo em meio ao caos. Aliás, não há esse conhecimento de si mesmo sem muito – muito – caos. ”Há um tanto de solidão e silêncio naquele que torna-se quem é”, essa frase sintetizou muita coisa. Grata pela leitura, pelas reflexões compartilhadas.

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  2. Para quem quer se soltar
    Invento o cais
    Invento mais que a solidão me dá
    Invento lua nova a clarear
    Invento o amor e sei a dor de me lançar
    Eu queria ser feliz
    Invento o mar
    Invento em mim o sonhador
    Para quem quer me seguir eu quero mais
    Tenho o caminho do que sempre quis
    E um saveiro pronto pra partir
    Invento o cais
    E sei a vez de me lançar

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