A jovem alma é sacudida, arrebatada, arrancada de um golpe — ela própria não entende o que se passa. Um ímpeto ou impulso a governa e domina; uma vontade, um anseio se agita, de ir adiante, aonde for, a todo custo; uma veemente e perigosa curiosidade por um mundo indescoberto flameja e lhe inflama os sentidos” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, prólogo, §3

É em sua obra “humano, demasiado humano” que Nietzsche lançará as primeiras observações psicológicas do homem decadente que habita ainda o terreno da moral e da metafísica. Seu método filosófico o levará, invariavelmente, à observação psicológica arguta das crenças e ilusões que este homem carrega orgulhosamente em seu peito.

Qual é o objetivo de Nietzsche? Abandonar o terreno da moral e seguir por novos caminhos. Para isso ele se aproxima da ciência, com seu frio método e cruel questionamento das verdades e veste o pesado casaco do ceticismo. A solidão cética permite a Nietzsche uma nova perspectiva, um novo caminho, um novo olhar, uma nova saúde.

Senso da verdade – Eu elogio todo ceticismo ao qual posso responder: ‘Tentemos!’. Mas já não quero ouvir falar de todas essas coisas e questões que não permitem o experimento. Este é o limite do meu ‘senso da verdade’; pois ali a coragem perdeu seu direito” – Nietzsche, Gaia Ciência, §51

Nasce, para Nietzsche uma possibilidade muito mais interessante: o experimento! E este exige um novo corpo, uma nova alma, uma nova coragem! É na experimentação que cultivaremos este terreno onde antes as ervas daninhas da religião cresciam livres e soltas e agora o frio fogo da ciência e do ceticismo deixaram a terra deserta. A coragem do espírito livre se expressa na vontade de experimentar a si mesmo e ao mundo. Criar um deserto, diz Deleuze, claro, mas povoá-lo. Essa é a força que possui um espírito para não cair no niilismo passivo.

É precisamente a marca da grande saúde, o excesso que dá ao espírito livre o perigoso privilégio de poder viver por experiência e oferecer-se à aventura: o privilégio de mestre do espírito livre!” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, prólogo, §4

Experimentar o mundo e a vida tal qual um experimento científico, este é o objetivo de Nietzsche. Fazer de si uma grande aventura, uma grande jornada! Reaprender a andar e a procurar com olhos mais atentos, aquele curioso olhar com que a criança descobria o mundo. O experimento nos abre novas possibilidade de vida através de uma auto-formação direta! Sem intermediários! Não é assim mesmo que o devir-criança funciona? Quebrando coisas, colocando o dedo na tomada, abrindo e fechando portas. O devir-criança pode ser considerado um empreendimento do Espírito Livre. Uma experimentação leve, sem culpa, sem má-consciência!

Avante — Assim, avante no caminho da sabedoria, com um bom passo, com firme confiança! Seja você como for, seja sua própria fonte de experiência! Livre-se do desgosto com seu ser, perdoe a seu próprio Eu, pois de toda forma você tem em si uma escada com cem degraus, pelos quais pode ascender ao conhecimento” – Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §292

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

Não estamos longe da lógica que Foucault encontrou nos antigos, que, ao colocarem-se à prova ou em abstinência, tinham a possibilidade de descobrirem algo novo de si mesmos! O corpo como uma peneira para sensações. Isto é fazer de si um experimento, saber o que passa e o que não passa! Do mais simples ao mais contraditório: experimentar lugares, experimentar partes do corpo, experimentar estados de corpo, experimentar pessoas, experimentar ideias, experimentar emoções. Como estas peças todas se encaixam? É do nível mais complexo, é da seriedade mais extrema, mas é também com leveza e riso!

Esta ideia de experimento foi grandemente influenciada pelo período científico de Nietzsche. Mas agora é a unidade entre ciência e arte que será a base sobre a qual se construirá este empreendimento. Vem à tona uma filosofia existencialista-experimental, no sentido explícito do termo, o que se experimenta é a própria existência! A própria vida deve ser experimentada, ela é a base de si mesma, é apenas na tentativa e erro que ela pode descobrir-se e desdobrar-se! Sendo assim, precisamos aceitar que todo experimento é útil, por mais estúpido que seja! Todo experimento é proveitoso, por mais inútil que pareça!

Da prática do sábio — Para se tornar sábio, é preciso querer experimentar certas vivências, ou seja, cair deliberadamente em suas goelas. Algo certamente muito perigoso: mais de um ‘sábio’ já foi aí devorado” – Nietzsche, O Andarilho e sua Sombra, §298

Claro que não podemos deixar de lembrar da dupla inseparável: experimentação e prudência. Sempre é preciso falar deste outro lado da moeda, para não nos deixar cair em uma experimentação destrutiva por si só. A experimentação nunca pode tirar a própria possibilidade de experimentação, por isso a necessidade premente de ter ao nosso lado sempre uma boa dose de prudência! Afinal, nunca se sabe quando o que nos nutre torna-se um veneno. A vida é um jogo, mas onde pular no desconhecido pode ser uma queda sem volta! A vida exige cuidado, e a experimentação deve ser sempre um empreendimento por mais vida.

Não podemos impedir que ocasionalmente o químico se envenene e se queime nos seus experimentos. — O que vale para o químico, vale para toda a nossa cultura: de que resulta claramente, diga-se de passagem, o quanto ela deve munir-se de bálsamos para queimaduras e de uma constante provisão de antídotos” – Nietzsche, Opiniões e Sentenças Diversas, §13

- Andrea Pramuk
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Ainda assim, uma vida dotada de Vontade de Potência, não pode deixar de experimentar-se até mesmo na doença. Essa foi uma das grandes descobertas de Nietzsche: ir para além da saúde e da doença. Afinal, mesmo a doença é um experimento! O abismo que se abre durante uma crise faz o espírito livre experimentar novas perspectivas, e o permitem retornar mais saudável.

O espírito livre torna-se então grato à doença que o acometeu. A própria doença não é vista como uma doença. Toda curiosidade científica aqui pode ser praticada: quais são os pensamentos que me acometem quando estou doente? Que outro lado de mim aparece quando estou acamado e fraco? Afinal, quem sou eu quando estou doente? É a convalescença que traz para o curioso os resultados de seu experimento. E que pouco a pouco ele pode desfrutar.

As pequenas doses — Se uma transformação deve ser a mais profunda possível, que o remédio seja dado em doses mínimas, mas ininterruptamente, por longos períodos! Que coisa grande pode ser criada de uma vez?” – Nietzsche, Aurora, §534

Que fique claro, não se trata de uma experimentação sem sentido, sem fim, sem ordem! Não se trata de pular de cabeça sem pensar nas consequências! Não basta fazer da vida um experimento, ele precisa girar em torno de uma força constitutiva, uma possibilidade de auto-formação e auto-criação. Projeto de auto-conhecimento, auto-formação! Tornar a moral obsoleta e colocar em seu lugar uma práxis da liberdade! O grande pensamento que toma o espírito livre é de que a própria vida é um experimento! E a própria arte de experimentar permite novas formas de vida faz parte de um projeto de criação de si mesmo, “Torna-te quem tu és”, diria Nietzsche. Estamos em uma existência provisória, em todos os sentidos, realmente todos.

Nós readquirimos a boa coragem de errar, tentar, aceitar provisoriamente — nada é assim tão importante! —, e justamente por isso indivíduos e gerações podem hoje vislumbrar tarefas que teriam parecido, em épocas anteriores, insânia e brincadeira com o céu e o inferno. Podemos experimentar conosco mesmos!” – Nietzsche, Aurora, §501

É impossível não cairmos, pouco a pouco, nas obras Aurora e Gaia Ciência, porque Nietzsche traça este caminho, ele sai da crise em sua própria vida e portanto de seus escritos anteriores. Há aqui toda uma nova confiança, agora na imanência! Anarquia coroada. É possível, finalmente, elevar-se sem iludir-se. Temos agora à nossa disposição esta nova ferramenta: nós mesmos. O quanto experimentamos com nosso corpo? O quanto ele é colocado à prova? Do que pode ele se abster? Pouco a pouco estamos aprendendo! Ultrapassando os limites do nosso próprio corpo. O que antes foi interpretado agora pode ser experimentado!

Interregno moral — Quem já estaria agora em condições de descrever o que substituirá, um dia, os sentimentos e juízos morais? — ainda que possamos ver claramente que todos os seus fundamentos se acham defeituosos e que seu edifício não permite reparação: seu caráter obrigatório diminuirá dia após dia, enquanto não diminuir o caráter obrigatório da razão! Construir novamente as leis da vida e do agir […] conforme o gosto e o talento, e o melhor que fazemos, nesse interregno, é ser o máximo possível nossos próprios reges [reis] e fundar pequenos Estados experimentais. Nós somos experimentos: sejamo-lo de bom grado!” – Nietzsche, Aurora, §453

Não estamos mumificados, não passamos por rituais de para uma vida após à morte, não queremos ser enterrados com nossas riquezas materiais, e, definitivamente, não queremos a eternidade!, a menos que seja uma eternidade na própria existência! mas ela será, de agora em diante, uma via para experimentarmos a nós mesmos. Nos preparamos para isso e assim aprendemos a crescer. O caos torna-se nosso cais, somos nômades e levamos nossa casa nas costas, ou melhor, na superfície da pele. Por isso nossa casa sempre se transforma, cresce, transmuta, descola. Finalmente torna-se apertada demais e precisamos encontrar outra.

Mudar de pele — A serpente que não pode mudar de pele perece. Assim também os espíritos aos quais se impede que mudem de opinião; eles deixam de ser espíritos” – Nietzsche, Aurora, §573

O retorno a nós mesmos é sempre um retorno ao desconhecido, porque não mergulhamos duas vezes em nós mesmos da mesma forma que não entramos duas vezes no mesmo rio. A vida que quebra a casca é uma força que está madura o bastante para deixar certezas para trás e mudar de pele. Com que objetivo? Um só: acumular uma somatória de “eus”, acumular vivências. A morte de Deus abriu o mar novamente, cabe a nós sermos bom navegadores e exploradores!

Hábitos breves – Eu amo os hábitos breves e os considero o meio inestimável de vir a conhecer muitas coisas e estados, até ao fundo do que têm de doce e de amargo; minha natureza é inteiramente predisposta para hábitos breves, mesmo quanto às necessidades de sua saúde física e de modo geral, até onde posso ver: do mais baixo ao mais elevado […] E um dia o seu tempo acabou: a coisa boa separa-se de mim não como algo que me repugna – mas pacificamente de mim saciada, tal como eu dela, e como se nos devêssemos gratidão mútua, estendendo-nos a mão em despedida. E algo novo já espera na porta, e igualmente a minha crença – a indestrutível tola e sábia! O de que esse algo novo será o certo, o certo e derradeiro” – Nietzsche, Gaia Ciência, §295

Texto da série: Espíritos Livres

- Andrea Pramuk
– Andrea Pramuk

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

6 comentários

  1. Já li alguns versos de Nietzsche, mas confronto com seu ceticismo. Acredito que todos temos almas. Seria mórbido e triste pensar ser apenas 60% água, células, sais minerais, neurotranmissores e toda parte biológica. OK! Doenças podem ser explicadas pela disfunção do padrão do funcionamento corporal, mas e o restante? E o que a ciência explica? Será que quando piso na grama descalça e leio um livro estou apenas liberando serotonina? Tudo bem, é uma boa experiência, mas pára por aí?! E quando as pessoas se comunicam pelo olhar? Ou pacientes melhoram milagrosamente? Concordo que experiências são válidas, desde que estejam dentre seus próprios limites.

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