Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo” – Nietzsche, Ecce Homo, pr.§2

Se Apolo representa as forças de ponderação e autodomínio, podemos trazer Dionísio como seu antípoda, completo oposto. Deus estrangeiro, asiático e misterioso, Dionísio representa a potência de ruptura e dissolução das fronteiras. Enquanto Apolo fica do lado da bela individualidade, do onírico, Dionísio carrega consigo forças orgiásticas, de rompimento completo das inibições.

O êxtase do estado dionisíaco, com sua aniquilação das usuais barreiras e limites da existência, contém, enquanto dura, um elemento letárgico no qual imerge toda vivência pessoal do passado. Assim se separam um do outro, através desse abismo do esquecimento, o mundo da realidade cotidiana e o da dionisíaca” – Nietzsche, Nascimento da Tragédia, §5

Força irrefreável, sem configuração, bárbara. Dionísio é o deus da música, tanto quanto Apolo, mas em sua face abissal, não representacional. Uma superabundância de forças que tudo carrega. Dionísio é perigoso, nele encontram-se o excesso, o êxtase e a vertigem. O culto dionisíaco na Grécia antiga era regado a vinho e orgias. O impulso dionisíaco desorganiza, ele é o fora, o estrangeiro. Aniquilamento dos hábitos e instituições!

Se Apolo é sinônimo de beleza e comedimento, Dionísio é representante do disforme, do anômalo, da descomunal força da natureza. As duas pulsões são absolutamente legítimas e reais, mas Dionísio carrega em si um exagero, um despropósito, um desregramento, algo que ultrapassa. Estas forças levam inevitavelmente ao abismo. Aliás, a destruição é a própria representação de Dionísio. Filho de Zeus e Perséfone, sua amante, foi perseguido impetuosamente por Hera. Nos mitos gregos conta-se que foi inúmeras vezes capturado e despedaçado, mas renasceu outras inúmeras vezes. Seu dom é o da metamorfose e ele possui inúmeras faces, por isso Nietzsche o toma como personagem conceitual para sua filosofia.

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Fluxos contínuos, ciclos da vida, nascer e morrer, a visão de mundo dionisíaca traz consigo uma nova concepção da existência e novos modos de vida. Sem começo nem fim, tudo é um eterno vir a ser! Ímpeto sem finalidade e insaciável. É necessário coragem para encará-la de frente. A realidade como o mais puro mar de forças… como Vontade de Potência, domínio, submissão. Por trás do mundo não existem leis universais, não existe um Deus sustentando tudo. Por trás dos fenômenos existe o caos, o mais puro conflito de forças, ou melhor, os próprio fenômenos se mostram como caos, perturbação perpétua, balbúrdia. Para todo o sempre o mundo é um eterno vir-a-ser, e nada além disso.

A dor apolínea representa a força do crescimento, a dor necessária, a dor bem-vinda. Já Dionísio é arauto da dor pura, descabida, do despedaçamento, a vida como dilaceramento do sujeito atravessado pela obscuridade anárquica e impetuosa. Mas eis o desafio dionisíaco, afirmar até mesmo o excesso,  a desordem obscura, o lance de dados. Não existe um lugar no universo especialmente reservado para nós, não há um plano para cada um, mas isso não é motivo para desespero. Sim, o mundo é falso, cruel, inumano, contraditório, indomável, mas isso não quer dizer que devemos perder a confiança na vida. Este Deus nos convida a confiar novamente na existência. 

Daquele fenômeno fenômeno maravilhoso, que carrega o nome de Dionisio, que só é possível de ser explicado a partir de um excedente de força” – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, O que Devo aos Antigos, §4

Apolo permite encarar o desmedido com a medida, mas é pouco. Não queremos olhar o mundo através de nossa individualidade, por mais bela que pareça, queremos também mergulhar nele! Não queremos interpretar o mundo de nossa perspectiva, queremos experimentá-lo em sua plenitude! Sem filtros, sem proteções, sem limitações! As forças dionisíacas são este mergulho de cabeça, transbordamento puro onde homem e mundo não mais se opõem. Quanto mais fundo, mais os antigos dualismos parecem falsos e simplórios, mais nos abrimos para a diferença. Quanto mais fundo, mais longe de si mesmo.

Contudo, é importante levar um importante fato em consideração: as forças dionisíacas (tanto quanto as apolíneas) são pura afirmação e criação. O desejo dionisíaco de destruir está apenas em criar o novo, a negação é submissa à afirmação! No criar está incluído também o destruir! Imanência absoluta, não há espaço para o negativo, outro mundo, outra existência, outro universo. Apenas esta realidade, em todos os seus aspectos, sem deuses para condená-la ou reprová-la.

Eu sou, no mínimo, o homem mais terrível que até agora existiu; o que não impede que eu venha a ser o mais benéfico. Eu conheço o prazer de destruir em um grau conforme à minha força para destruir – em ambos obedeço à minha natureza dionisíaca, que não sabe separar o dizer Sim do fazer Não” – Nietzsche, Ecce Homo, por que sou um destino, §2

Dionísio, ao longo da obra nietzschiana, passa a ser uma visão de mundo, uma perspectiva. Não há como compreender a obra do filósofo alemão sem passar por Dionísio. Ele é o afundamento, a-fundamento. Nele encontramos a morte de Deus, e um convite entusiasmado para reafirmar a ânsia de criação que habita em todos nós. Multiplicidade em constante processo de diferenciação. Metamorfose infinita. Este mundo, como ele é, engole até mesmo as forças figurativas de Apolo.

O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos – a isso chamei dionisíaco, nisso vislumbrei a ponta para a psicologia do poeta trágico” – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, O que devo aos antigos, § 5

Por isso a oposição entre Dionisíaco e o Crucificado é a mais acertada e produtiva para o filósofo alemão. Nietzsche faz o embate entre forças saudáveis, expansivas contra forças doentes e reativas. Negar a negação! O deus grego é o autêntico anticristo, porque vive no vir-a-ser, sem eximir-se da dor e todos os aspectos terríveis da realidade. Nietzsche nos mostra como os gregos, com seus deuses, eram saudáveis o bastante para criar valores e tomar os rumos de suas próprias vidas.

Dionísio é, nas concepção de Nietzsche, o deus que dança, que possui pés ligeiros. Um deus alegre, capaz de rir, gargalhar, e também zombar de todos os valores antigos e degenerados. A tábua de valores precisa e será sempre reescrita sob a força do dionisíaco! Afinal, este deus despreza a moral e os valores cristãos. Com Apolo chegamos à beira da praia, mas com Dionísio mergulhamos no mar de forças que é a realidade! O filósofo alemão nos traz esta entidade como uma concepção de mundo nova, saudável, com um frescor ameaçador, mas ao mesmo tempo cheios de promessas e possibilidades.

Galeria Biscevic

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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