Essa razão universal, prática ou moral, esse determinismo, essas categorias que explicam tudo fazem o homem honesto dar risada. Não têm nada a ver com o espírito. Negam a sua verdade profunda, que é a de estar acorrentado” – Camus, O Mito de Sísifo, p.34

O homem vive à beira de um abismo e ele mesmo tem também o abismo dentro de si. O mundo é o caos profundo de forças não razoáveis. O homem é a razão nostálgica em busca de princípios imutáveis. O laço que os une é o absurdo, sua própria condição. Armados apenas com o pensamento percebemos todas as negações que uma afirmação carrega dentro si e também – o que pode ser mais importante – todas as afirmações que uma negação têm dentro de si. Seguimos assim mesmo, pois nós, homens absurdos, não aceitamos outras condições: morrer ou saltar não são opções. Resistir à morte, apostar na vida, encontrar a liberdade, isto sim! Mas qual liberdade resta a este espírito acorrentado?

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Marc Perez

Que vida pode nascer  do apelo humano ao silêncio irracional do mundo? Precisamos encontrar toda a lógica de que uma existência é capaz. O absurdo é a razão lúcida que constata o seus limites. Constatamos esse limite ao perceber que essa pequena e irrisória razão é exatamente o que nos opõe ao mundo. Não há par da razão na criação. Somos justamente opostas por ela ao mundo. Eis o paradoxo,  esta razão é nossa melhor aposta. Essa razão absurda é nossa primeira e mais valiosa conquista. Nossa pátria é exatamente essa evidência tão difícil de conquistar.

Uma aposta dilacerante e maravilhosa surge do absurdo. Nada é certo, ao menos isso é uma certeza. O absurdo nos liberta de toda espécie de julgamentos, de toda a moral, nos recupera uma outra certeza, a de sermos inocentes. Viver sem apelação é a nossa vontade. Sem recorrer ao passado nem ao futuro. Sem recorrer à verdade nem a deus. Sem recorrer a nada de que não envolve alguma espécie de bom entendimento.

O que é viver uma experiência, um destino? Ora, sabemos bem, é afirmá-lo plenamente! A ausência de sentido nos convida a dar sentido. Sendo assim, a consciência do absurdo é mãe de toda criação. Por isso, uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta, o confronto perpétuo do homem com sua escuridão. Viver é, antes de mais nada contemplar o absurdo!

Chegamos ao limite máximo. Não podemos resolver o absurdo. Qualquer resolução nos impede a liberdade. O salto e o suicídio são maneiras de dar às costas ao absurdo. Num só golpe, damos fim ao absurdo, mas não há vida imanente, honesta, potente sem ele. Toda efetuação depende do caos, do mundo, da existência. Para o homem forte, não há espetáculo maior do que a batalha de uma razão rodeada de uma realidade que a supera, este é o espírito do absurdo.

Empobrecer essa realidade cuja inumanidade constitui a grandeza do homem supõe empobrecê-lo também. Compreendo então porque as doutrinas que me explicam tudo ao mesmo tempo me enfraquecem. Elas me livram do peso de minha própria vida, e no entanto preciso carregá-lo sozinho. Neste ponto, não posso conceder que uma metafísica cética se alie à moral da renúncia” – Camus, O Mito de Sísifo, p.67

Ao homem absurdo, a revolta jamais é renúncia. Sua consciência não é uma recusa, pelo contrário. A consciência e a revolta dão valor à vida. Em tudo que houver ânimo, interesse, amor, encontraremos aí alguma potência. A morte é assim o ponto inaugural de nossa revolta. Somos o Caim do anjo da morte. Fazemos questão de morrer irreconciliados. Não há boa morte.

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Marc Perez

O homem absurdo não pode fazer outra coisa senão esgotar tudo e se esgotar! A liberdade se apresenta como um desafio. Estar vivo e consciente já é resistir a inúmeras violências. Não é? Tratemos agora também de investir contra a morte. Jogar-se no mundo, isto é, buscar as condições que permitem a vida. O suicídio é um desconhecimento. Ele não é a maior liberdade de escolha, mas uma imensa servidão. Ser superado pelo mundo é perder essa primeira verdade do homem absurdo:  sua liberdade é um desafio.

O absurdo não liberta, ele amarra. Somos poeira assentando aos poucos. Sem sentido, sem lugar, sem resposta, sem destino. Nossa condição é tudo menos a da liberdade. Mas a consciência disso nos coloca uma estaca no peito. Querer é suscitar paradoxos! Não há liberdade ‘em si’, não interessa se o homem é livre ou não. Há uma clareza de nossa consciência numa noite perpétua. Um desespero lúcido que nos faz vivos. É preciso recuperar isso a todo instante.

Não há futuro para quem vive no absurdo. Sem esperança e sem futuro, nós recuperamos a ação presente. Só existe aquilo que somos e podemos. Agir, ser livre, pressupõe colocar as forças num determinado sentido. O absurdo exalta nossa liberdade de ação. Antes de constatar o absurdo, considerávamos a meta, os fins, os objetivos como desejos reais e livres, mesmo desprezando tudo o que precisa ser feito para atingir tais metas. Agora não podemos mais cair nessa armadilha. Não há futuro.

O absurdo me esclarece o seguinte ponto: não há amanhã. Esta é, a partir de então, a razão da minha liberdade profunda” – Camus, O Mito de Sísifo, p.70

Vislumbramos um universo de estranhas proporções e escolhemos permanecer. Vislumbramos uma sociedade absolutamente inóspita, mas ainda assim dizemos sim. Nada é possível, mas ao menos tudo está dado. Como a um condenado à morte. Sabemos que depois de tudo não há nada. Sabemos que ao fim de nossos dias, simplesmente não haverá nem poderá ter tido nada. E seguimos… Aceitar a vida em semelhante universo é dele tirar suas forças. Eis o homem absurdo. Viver uma vida sem consolo nos permite recusar a morte à qualquer custo. As pequenas e as grandes. As lógicas e as ilógicas. A morte é nossa verdadeira antagonista. Nossa força vem na mesma proporção de nossa recusa em aceitá-la.

Devemos admitir que nossa liberdade só tem sentido em relação ao seu destino limitado. Assim, nossa verdadeira busca não é a de viver melhor, mas a de viver mais. Viver melhor nos arremessa numa finalidade à qual descartamos de antemão. Queremos é viver. Mas viver mais não é somente uma questão temporal. É também uma questão de encontro. Queremos encontrar a vida nas esquinas. Queremos saborá-la às tardes. Queremos discuti-la apaixonadamente e em detalhes.

Oh, minh’alma, não aspira à vida imortal, mas esgota o campo do possível” Píndaro

Estar diante do mundo e da vida com frequência exige a revolta com a morte. Bater todos os recordes não é viver cem anos, mas experimentar a vida com a maior frequência possível, nem que seja por segundos. O sol que bate na praia, o vento que refresca o rosto, as letras enfileiradas numa página de livro, uma ideia que nos toma pela mão. A vida se encontra nela mesma. Sentir o máximo possível é a nossa mais profunda liberdade.

Com o puro jogo da consciência, transformo em regra de vida o que era convite à morte – e rejeito o suicídio.  Conheço sem dúvida a surda ressonância que percorre essas jornadas. Mas só tenho uma palavra a dizer: que ela é necessária.” p.75

Texto da Série: Homem Absurdo

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

10 comentários

  1. Que colocação bacana! Venho estudando a filosofia de muito, como forma de resposta melhor para um mundo contemporâneo. Achava que não tínhamos saída, mas temos. A filosofia abre portas.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Há poesia nesses textos. Um gosto te ler, Rafael! E que delícia conhecer mais do Camus – ou melhor- olhar por outro olhar a filosofia do absurdo. Com certeza quero estudar melhor isso. Se tiver um curso sobre ele, em vista, me avisa por favor!

    Anita

    Curtido por 1 pessoa

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