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O que é, de fato, o homem absurdo? Aquele que, sem negá-lo, nada faz pelo eterno. Não que a nostalgia lhe seja alheia. Mas prefere a ela a sua coragem e o seu raciocínio. A primeira lhe ensina a viver sem apelo e satisfazer-se com o que tem, o segundo lhe ensina seus limites. Seguro de sua liberdade com prazo determinado, de sua revolta sem futuro e de sua consciência perecível, prossegue sua aventura no tempo de sua vida. Este é o seu campo, lá está sua ação, que ele subtrai a todo juízo exceto o próprio. Uma vida maior não pode significar para ele uma outra vida. Seria desonesto”

Camus, O Mito de Sísifo, p.79

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Marc Perez

Um filósofo inventa personagens para testar seus conceitos. Ele os coloca sob a tensão de sua filosofia. Assim, o herói absurdo é aquele que superou essa prova de fogo. É o mais absurdo dos homens. É a afirmação de uma existência possível frente à violência absoluta do pensamento. É a resistência finita da vida frente à velocidade infinita da morte. É a consistência que um jeito de viver adquire apesar das chances ruins. É uma aposta que vinga necessariamente.

É absurdo empreender uma campanha sabendo que se está vencido de antemão. Ainda assim, o herói absurdo se afirma plenamente. Sua vida é este experimento. Viver, apesar de todas as chances. Escolher a vida conhecendo a morte, negando o inevitável fim para afirmar o inesgotável meio. “Meu campo é o tempo“, dizia Goethe. Como suportar uma partida onde seu time entra em campo sabendo que a derrota é certa? É simples: aprendendo a saborear o jogo, enquanto acontece. A existência é esse sagrado jogo onde a sorte se apresenta de antemão no simples fato de participarmos.

Os heróis absurdos têm pontos em comum. Eles nada querem de outra vida, são muito pouco nostálgicos e completamente indispostos a saltar. Eles aspiram a se esgotar, sem reino, sem divino e sem eterno. Eles preferem a felicidade efêmera à ilusória divindade. É o que Camus chama de viver sem apelo. Eles se dedicam a uma vida sem posteridade, onde só há presença, pois sabem que a ausência, a falta, o futuro e o passado são invenções um tanto engenhosas.

Nesses heróis o que delineia o absurdo não é a liberdade, mas o seu exato oposto, a condenação. A liberdade para o homem absurdo é a presença. Enquanto a condenação é o que define sua conduta. Assim, o absurdo não autoriza todos os atos, “tudo é permitido não significa que nada é proibido“, ele apenas se apresenta nas consequências de um ato. Escolher matar, escolher morrer, é ser vencido pelo absurdo. No fim, é ser superado pela vida, é entregar o jogo. O assassinato de si e dos outros é a maior covardia possível.

A liberdade é a afirmação de um condenado. Para ele, não há moral, pois não há nenhuma ideia que legitime ou não um ato. Mas ele conhece sua responsabilidade e cria seus valores a partir de sua revolta. Por mais que haja responsáveis, jamais haverá culpados. O juízo implica uma péssima maneira de viver. A vida do homem absurdo é um sopro que se pretende turbilhão, que contrapõe à brevidade toda a intensidade de que uma existência é capaz. Assim são estes três personagens:

1 – O amante

Se amar bastasse, as coisas seriam mais simples. Quanto mais se ama, mais se consolida o absurdo”

Camus, O Mito de Sísifo, p.83

Don Juan pergunta “Por que seria preciso amar raramente para amar muito?”. Ele não suporta o amor que se enfraquece no desenrolar de uma relação e assim prefere o amor sempre. Amar sempre, para Don Juan, é viver com o gosto do beijo de uma nova mulher. Ele não busca o amor, seria ridículo. Ele sabe do amor, ele experimenta o amor. É desta maneira que se propõe ao amor, é pela multiplicidade, é pela descoberta de uma nova maneira de ser que se torna um herói.

Don Juan liberta o amor da concepção romântica. Ele desconhece o amor eterno e vive sob os ventos de um amor como desejo, ternura e desafio. Por tantas vezes tentaram imputar a ele uma tristeza disfarçada, como o canastrão, o falsário, o inconsequente. Eles pensam que é preciso rebaixar a grandeza, sentem-se insultados por ela. Mas não enxergamos assim. Não podemos nos envergonhar das múltiplas maneiras que existem de se desfrutar a vida. Nos homens, a tristeza vem sempre da ignorância ou da esperança. Don Juan é alegre pois sabe do mundo que vive. Não tem esperanças, ele age, ele alcança, efetua-se a qualquer custo. O que quer está ao alcance de suas mãos.

Don Juan é o mestre da conquista. Seu gênio consiste em saber seus limites. Seu riso explode ao ser desmascarado por uma mulher. Para quem aceita as regras do jogo, um destino não é uma punição. Sua honestidade para com a vida é esta suprema capacidade de rir. Esta vida o completa, não há nada pior que perdê-la. Para ele, não há um sentido profundo nas coisas. Ele percorre rostos calorosos, peles ardentes. Ele não “coleciona mulheres”, ele esgota o amor de que é capaz. O tempo anda com ele.

2- O ator

O ator reina no perecível. Todos sabem que de todas as glórias, a dele é a mais efêmera.”

Camus, O Mito de Sísifo,  p.92

Um escritor conserva a esperança através de seus escritos, um músico conserva a esperança através de suas composições, um escultor, um pintor, um fotógrafo, um cineasta conservam-se em alguma medida. Eles possuem uma existência que os ultrapassa, e por isso são menos absurdos.

O ator entrega-se ao seu destino de poucas horas. Toda a grandeza de sua representação está no tempo de palco e, por que não, de sua vida. Seus gestos, seus silêncios, sua respiração não darão testemunhos de quem foi. É por isso que o ator nos desperta para o absurdo, ele captura a nossa consciência, nos coloca corajosamente de frente aos nossos destinos.

Não é à toa que a igreja por tanto tempo desprezou os atores. Sua multiplicação herética das almas, a orgia das emoções, a negação em viver um único destino os condenam profundamente. E, assim, alguns deles se tornam heróis absurdos. “O que importa não é a vida eterna, mas a eterna vivacidade” diz Nietzsche.

A vida de um ator é uma entrega a alegrias sem futuro. Ao entrar no palco, ele sabe que vai morrer em três horas com o rosto que tem hoje. Precisa sentir nesse pouco tempo todo um destino excepcional. Precisa alterar a densidade do tempo. Precisa fazer falar o silêncio. Sua vocação é uma grande condenação: entrar o mais fundo possível em vidas que não são a dele. O teatro é arte que quer que tudo cresça e se traduza em carne. O ator está sempre nu.

3 – O conquistador

Sempre chega o momento em que é preciso escolher entre a contemplação e a ação. […] Para um coração orgulhoso não há meio termo. Há Deus ou o tempo, a cruz ou a espada.”

Camus, O Mito de Sísifo, p. 101

O conquistador, aquele que age, que toma o que é seu, que proclama seus direitos, pode ser também um herói absurdo. Costuma-se ver com maus olhos esse personagem, como se ele pensasse menos por agir mais. Mas isso não é verdade. A conquista faz das tripas coração e do pensamento, ação! Desconfiamos daqueles que dizem saber sem nada expressar. Uma filosofia se expressa no corpo. Não há teoria para a filosofia. Não saber expressar, em matéria de filosofia, é não saber.

Conquistar um pensamento, um conceito, é abrir uma nova possibilidade. É fazer uma dobra na existência, é um descobrimento, um novo território. Terra à vista! Se isso não acontece, pra que filosofia? Se não formos um pouco conquistadores, melhor deixarmos de lado a filosofia. Escolhemos a ação não por desconhecer a contemplação, mas porque ela não pode nos dar tudo. Se estamos privados do eterno, queremos nos aliar ao tempo.

Sabemos bem, ser um conquistador é ser um pouco inútil. É fincar uma bandeira na lua pensando que agora ela nos pertence. Mas não se trata de pertencimento, trata-se de “pensar como se“. Nenhuma vitória permanente é possível frente ao absurdo, mas é a conquista que empurra o homem a uma vida atenta. Mesmo humilhada, a carne é a única certeza. O herói absurdo quer a luta, quer o esforço, quer a conquista!

O homem é seu próprio fim. Se ele quer ser outra coisa, é nesta vida. O conquistador não é necessariamente um general. Sua grandeza não é medida geograficamente. “Os conquistadores são simplesmente aqueles que sentem a própria força o bastante para terem certeza de viver constantemente em tais alturas e com plena consciência dessa grandeza”. Se o tempo é nosso campo, então nossa vitória está na intensidade. Na vida bem vivida, afirmada, plena de força.

Exalto o homem diante do que o esmaga e minha liberdade, minha rebeldia e minha paixão se unem nessa tensão, nessa clarividência e nessa repetição desmedida”

Camus, O Mito de Sísifo, p.102

Texto da Série:

O Homem Absurdo

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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Trosobão
Trosobão
4 anos atrás

Olá Rafael, estou lendo Camus, inspirado por vocês, mas agora me parece que o estilo de vida contemporâneo, de “aproveitar a vida com a máxima intensidade”, de “não se preocupar com o futuro” e de “viver os momentos” e os “amores” se parece muito com este seu texto, gostaria de saber se há alguma relação, se as agências de publicidade se apoderaram deste discurso em algum momento, ou se há alguma outra relação?

jgmelo
jgmelo
4 anos atrás

Como me causa mal estar a minha profunda ignorância. Quanto menos sei, mais sei que nada saberei. Viver é preciso, saber é preciso? Luz, muito mais luz. Nos ilumine, infinita e eterna luz!

Thainá
Thainá
4 anos atrás

Muito interessante seu texto, Rafael. Busco estudar algumas obras de Camus. Uma das questões que me despertaram interesse é pensar se é possível uma ética posto o absurdo. Na ação do homem revoltado. Você pode me ajudar a partir da sua leitura acerca do filósofo?

Eduardo O. Carvalho
4 anos atrás

Parabéns pelo texto, pela moldura poética. Sinto Nietzsche na angústia de Camus. Esse “Anticristo” que nos empurra para vida!

Ivan Filho
4 anos atrás

Parabéns pelo texto, Rafael!

Anita Regina Santos
Anita Regina Santos
4 anos atrás

Olá, Rafael! Com a volta às aulas, não tenho tido muito tempo de acompanhar as postagens, mas esse não pude deixar de ler. Gosto muito da tua escrita; o texto ficou um primor. Abraço!

jgmelo
jgmelo
4 anos atrás

Rafael, gostei do texto, muito bem escrito. Mas desde sempre uma questão me angustia: poderá um dia a filosofia produzir um conhecimento capaz de nos libertar de nossa ignorância -eis que a busca pelo conhecer parece infindável-, nosso vazio e de nosso inevitável encontro com o desespero?

Lira Filho
Lira Filho
Reply to  jgmelo
4 anos atrás

Também me deparei com essa pergunta, a “resposta” que eu cheguei foi de que justamente não estejamos presos a ignorância, nós nos apropriamos do herói conquistador ao nos debruçarmos sobre o mundo na tentativa de compreender, mas que qualquer ordem de conhecimento (ou visão de mundo) que se propõe dar conta de tudo, nós também estaríamos realizando o que Camus chama de Salto. E no modo como compreendi, até o suicídio é uma “saída” melhor que realizar o Salto.

O Rafael Lauro fala sobre o Salto de Camus num texto bem legal, vou deixar o link aqui.
https://razaoinadequada.com/2018/01/24/camus-o-salto/

wesoafi
wesoafi
4 anos atrás

Jamais devemos abrir mão de nossas inquietações. Pensar exige questionamentos e conjecturas, o constante ir e vir, se posicionar, se ver, projetar, observar além das aparências e perceber que nada está estaticamente definido. Um deleite este canal!

Izabella Procópio
Izabella Procópio
2 anos atrás

Olá Rafael. Eu li o livro. Mas pelo que compreendi, o amante , o ator e o conquistador não são chamados de heróis do absurdo e sim de homens absurdos. Pois os mesmos fogem de qualquer golpe da vida.

Simony
Simony
9 meses atrás

Mas será que é possível viver assim? Pensa bem, aproveitar a vida, não negar o sofrimento mas ser capaz viver intensamente (que nem o ator)… Sei lá, às vezes na vida não te resta opção a não ser mergulhar na melancolia e na escuridão. Não que eu vá me matar ou enlouquecer apesar de isso ser possível de acontecer com muitos. Eu acho que encarar a vida assim parece muito difícil.