Três metamorfoses do espírito menciono para vós: de como o espírito se torna camelo, o camelo se torna leão e o leão, por fim, criança” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 27

As três metamorfoses do espírito é um dos textos mais importantes de Zaratustra. Logo no início do livro Nietzsche nos mostra as transmutações pelas quais um espírito precisa passar para deixar os antigos valores para trás e criar novos, sair do niilismo negativo e chegar no niilismo ativo. Estas metamorfoses expressam também a maneira como podemos interpretar a liberdade.

Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o forte, resistente espírito em que habita a reverência: sua força requer o pesado, o mais pesado” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 27

O Camelo é forte, mas ainda é servil… Sente-se livre porque é capaz de seguir as ordens impostas pelo sacerdote, é resistente o bastante para sempre seguir adiante carregando os valores que lhe foram colocados nas costas. Sua felicidade constrangida e limitada encontra-se nos poucos momentos em que não está servindo voluntariamente, mas entende que é assim que deve ser, não há outra maneira.

O que é pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 27

O Camelo carrega valores metafísicos que lhe foram empurrados goela abaixo, nunca lhe passaria pela cabeça que poderia ser diferente. É apenas desta maneira que sabe viver. O paraíso é tudo aquilo que não é aqui, pois este mundo é o inferno. A crença no além não passa de uma fantasia de liberdade, definida de maneira quase que exclusivamente negativa, ou seja: não-trabalhar, não-sofrer, não-ser perseguido, não-ser explorado, não-sofrer, não-passar fome… etc… etc…

Quanto mais o servo sofrer aqui neste mundo, maior será a sua recompensa no outro mundo. Mas não precisamos ir tão longe, quanto mais o pai de família trabalhar para criar seus filhos, maior será a sua satisfação na velhice; quanto mais o empregado se esforçar, maior será seu contentamento no final de semana. E assim por diante… a liberdade é algo que sobra, é a pequena recompensa, reduzida e estritamente delimitada.

O que é mais pesado, ó heróis?, pergunta o espírito resistente, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 27

O Camelo pensa que é autônomo para obedecer, pensa que fez suas escolhas (qual seu espaço para escolher?), pensa que desejou assim. Confunde sua força com a mansidão e o medo. Sim, o Camelo é muito forte, podemos ver em suas costas marcadas pelo peso, recurvadas por carregar todos os valores que lhe foram impostos. Como ele consegue? É impressionante notar sua força, mas horrível perceber como ela é mal empregada! A tradição lhe recai na cabeça no formato de um grande Dragão que diz “Tu Deves“. Ao acatar, o pobre espírito vive a crença ilusória da liberdade, “eu consigo“, diz ele iludindo-se, quando na verdade é apenas carregado pelas forças dos valores que lhe foram imputados.

O Camelo não é livre, porque sujeitou-se à metafísica (acredita-se sujeito autônomo para ser punido caso infrinja uma lei), à moral (acredita no bem e no mal como linhas bem definidas) e à religião (Deus o punirá caso infrinja um de seus mandamentos). Sua liberdade é meramente negativa, ela existe de maneira privada, fechada entre quatro paredes, restrita em seu íntimo. Ou então acredita que é livre quando escapa das coações às quais está submetido (o domingo é seu dia de alforria, onde “pode fazer o que quiser”, nas férias será livre para ir onde quiser, na aposentadoria será livre para viver como quer).

O Camelo luta simplesmente para conservar-se! Conservar sua situação pequena, pois está no limite e qualquer mudança é um grande perigo. Este passa a ser o seu único intuito, seu objetivo: conservação das condições que o escravizam! E empenha-se com tanto afinco que realmente torna-se muito bom nisso! Bom até demais, pois nada muda ao seu redor! Com as costas curvadas, vemos o Camelo se movendo de lá pra cá, sempre da mesma maneira, pouco a pouco ele se torna rígido, fechado, inflexível. Que liberdade é essa? O direito de conservar-se e nada mais, para trabalhar mais no dia seguinte, para sustentar valores que não são seus. Recebe o salário para comer, come para trabalhar, trabalha para receber o salário e poder comer.

Já conhecemos a história: a mãe que faz jornada dupla, e se alegra com sua força; o vestibulando que estuda 12 horas por dia e sente-se cheio de orgulho. Onde está o sentido de tudo isso? Pode ser que um dia se rompa esta ligação entre carregar o peso da vida e sentir-se livre apenas nos poucos segundos onde o sofrimento e a dor cessam.

A liberdade negativa é medida pela pergunta perspicaz: livre de quê? Ou seja, algo ainda oprime, algo ainda impõe valores! Assim o Camelo oscila entre a dor e o tédio, porque não saberia nem mesmo o que fazer caso lhe fosse possível uma liberdade positiva, ele ficaria confuso e procuraria por novos mestres a quem servir! Emancipar-se da igreja, por exemplo, para servir à ciência é uma das nossas mais comuns formas de “libertação”, o que Nietzsche definiu muito bem como “niilismo reativo“.

A liberdade do Camelo é a fuga deste mundo, de todas as maneiras que isso se mostrar possível… Mas pode chegar o dia em que o espírito percebe a falta de sentido em carregar os valores alheios, algo se desprende, algo se perde e se solta, desnorteado ele ruma lentamente para o deserto… uma marcha vagarosa, pesada, arrastada, mas decidida: as coisas não podem mais ser como são.

No mais solitário deserto acontece a segunda metamorfose: o espírito se torna leão, quer capturar a liberdade e ser senhor em seu próprio deserto” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 28

Um dia nós nos cansamos de viver nas horas vagas. Um dia, cansamos de fugir. Um dia, algo precisa mudar, um limite precisa ser traçado. O Leão ainda vive uma liberdade negativa, pois quer se ver “livre de alguma coisa”. Mas já é um grande passo! Ele aprende a dizer Não! Nasce a revolta. Quer lutar e quer vencer. Quer uma outra coisa. Começa o processo de destruição dos antigos valores.

O Leão quer tornar-se livre, mas de quê? Dos valores que não são seus, que não lhe pertencem, que não lhe convêm. Então, quanto a cultura lhe diz: “faça assim”, o Leão responde “Não”. Quando a sociedade lhe diz “Tu Deves!”, o leão responde, “Não devo!”. A recusa é o primeiro passo, ela cria espaço, há um descolamento, uma margem de manobra.

Criar liberdade para si e um sagrado Não também ante o dever: para isso, meus irmãos, é necessário o leão” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 28

A liberdade desta transmutação é a destruição! Exige muita energia! Todo o cansaço se transforma em Ira, Raiva, esforço de esfacelar ídolos, quebrar seus pés de barro! Mas e depois? O que colocar no lugar? Como andar por cima dos escombros dos valores antigos?

A última metamorfose da liberdade acontece com a mudança do “livre de” em “livre para”:

Criar novos valores – tampouco o leão pode fazer isso; mas criar a liberdade para nova criação – isso está no poder do leão” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 28

O Leão ainda não pode criar! Sua liberdade é mediada por valores que lhe parece opostos, e desta forma regula sua maneira de mover-se no mundo. Essa é a limitação do Leão, sua autonomia ainda está muito presa aos antigos valores, e corre o risco de tornar-se apenas uma “liberdade do contra”, caindo num círculo vicioso de negação perpétua. Sair do movimento de pura destruição, esta seria a terceira metamorfose, começar do zero, erigir novos valores, autênticos, genuínos, verdadeiros.

Inocência é a criança, e esquecimento; um novo recomeço, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 28

Depois do Leão, pouco importa a pergunta “livre de quê?”, isso já não é mais importante. De agora em diante, a criança deve perguntar-se: “livre para quê?”. Sim, as crianças são anarquistas por natureza, nada está acima delas, cabe então o duro processo de criação de novos valores, um novo modo de vida, uma nova maneira de relacionar-se.

A liberdade da Criança é para prescrever para si mesma seu próprio bem e mal, para tornar-se seu próprio juiz. O aspecto lúdico desta última metamorfose faz da realidade um grande jogo, onde a conservação e a destruição não são seus aspectos mais importantes. Se os valores antigos foram destruídos então a criança é livre para a eterna criação. Os deuses estão todos mortos, cabe à criança este divino dever de criar.

O espírito aqui joga um jogo onde ele mesmo estabeleceu as regras, esta é sua liberdade, seu bem, seu mal. Jogar no mundo, apropriar-se dos aspectos lúdicos da vida, mergulhar na existência sem julgá-la ou escarnecê-la. Viver! É este seu mais inocente objetivo! Eis a criança: uma roda que gira por si mesma, afinal, após perder-se do mundo é preciso recriar um mundo novo.

Três metamorfoses do espírito eu vos mencionei: como o espírito se tornou camelo, o camelo se tornou leão e o leão, por fim, criança” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 29

– Hummingbird, by Karin Kuhlmann

Três metamorfoses que refletem três maneiras de entender a liberdade:

  • A primeira pode ser encarada como uma forma de servidão voluntária. A grande emancipação almejada pelo Camelo é apenas um reflexo de sua pequena autonomia no mundo, recheado de encargos, pesos, dificuldades; sua liberdade restringe-se às pequenas alegrias que conquista a duras penas, seu modo de viver é conservando-se, e nada além disso.
  • A liberdade do Leão é mais interessante, pois aprende a dizer não, revolta-se, aprende a destruir; sua força encontra-se na oposição e na energia que utiliza para derrubar ídolos com pés de barro. Ele traça novos limites. Sua agressividade está em desvencilhar-se dos pesos antigos e pseudoalegrias. Mas este segundo estágio não pode perder-se na sede de destruição, seu modo de viver ainda não é capaz de criar valores, pois está pautado pelos antigos.
  • A Criança é a terceira metamorfose, ela aprende a ouvir seu corpo, torna-se uma roda que gira por si mesma! Por quê? Ela é capaz de gerar e colocar no mundo aquilo que possui de mais íntimo! Sua força não é a de carregar valores, seu vigor não está em destruir; a criança entra em relação com o devir puro, sua independência é voltada para a criação! Corpo e terra reunidos! Razão e emoção! Artista e vir-a-ser!

Tudo torna-se fluido, tudo dança. Podemos ouvir a música? Os que não podem certamente nos julgarão loucos! A criança aprende a melhor liberdade possível, a capacidade de tornar-se aquilo que se é.

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

7 comentários

  1. Não sei se esta relação é correta, mas quando li os dois textos sobre o Nietzsche lembrei imediatamente do personagem Walter White, até parece que ele passou pelas 3 fases da metamorfose durante a série, será que esta relação é plausível?

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  2. O texto certamente é instigante e reflexivo. Porém, agora pai, ouso discordar da atitudes genuínas da criança (pelo menos de 2 anos em diante), vez que, diariamente, reproduz o comportamento de seus pais. Quem tem filho e se faz presente na vida do pequeno entende bem o que estou falando…rsss

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