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O verdadeiro mundo, inalcançável no momento, mas prometido para o sábio, o devoto, o virtuoso (“para o pecador que faz penitência”). (progresso da ideia: ela se torna mais sutil, mais ardilosa, mais inapreensível – ela se torna mulher, torna-se cristã…)”

– Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, cap IV

Platão é nosso primeiro personagem conceitual! E, de todos os nossos rivais, ele é possivelmente o mais perigoso! A razão é muito simples: Platão deu o pontapé inicial e instaurou o modelo transcendente do pensamento! Com ele o niilismo toma rumos desastrosos e agourentos. Nós seguiremos seus passos como grande exemplo de niilismo negativo, que inevitavelmente desemboca no cristianismo e segue até nossos tempos. Toda a filosofia de Nietzsche começa pela crítica do platonismo e todo o seu esforço é por revertê-lo!

Primeiramente precisamos descer até o meio grego, imaginar Platão em sua academia ou andando pelas ruas. O ambiente grego é o da competição, do agonismo, da luta e da rivalidade, seja na ágora, no teatro, no atletismo ou na filosofia. A todos os cidadãos é reconhecido o direito de agir e falar. Certo, o problema de Platão é: se todos podem pretender a tudo, como ter o bom senso? Como selecionar os pretendentes e candidatos mais capazes? Como diferenciar os bons e os ruins? Como distinguir e discernir?

Na democracia grega, a partir do momento em que se é um cidadão (o que são poucos), não há outra maneira de diferenciar o bom do ruim, o melhor do pior. Não existem critérios externos: “sou rei”, “sou nobre”, “sou burguês”, “sou rico”, “fui eleito”. Se todos os cidadãos são iguais, torna-se necessário encontrar uma maneira de medir suas falas e atitudes. Platão procurará por um critério.

Filtrar as pretensões, distinguir o verdadeiro pretendente dos falsos”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

Muito bem. Platão foi discípulo de Sócrates, e também muito influenciado pelas ideias de Heráclito e Parmênides. Há aqui então a oposição do filósofo de Éfeso: “tudo muda, nada permanece” e o eleata: “o ser é e o não ser não é”. Um fala de mobilidade completa e o outro de imobilidade absoluta. De um lado o vir-a-ser e do outro o ser. Diferença absoluta. O que faz Platão? Junta os dois.

O “tudo muda/nada permanece” de Heráclito é encarado de maneira radical em Platão! Até mesmo assustadora! Um abismo de forças e diferenciações. O que é no momento seguinte já não é mais, sendo assim, torna-se impossível qualquer conhecimento do mundo sensível! A ênfase é dada com peso radical no “tudo muda”, de modo que não podemos confiar nos sentidos. Desespero gnoseológico platônico, tudo muda, nada permanece, caos completo! Platão propõe uma saída através da dialética, deixando o reino do sensível e entrando cada vez mais no reino do inteligível. Saindo do vir-a-ser e entrando no ser, onde tudo sempre permanece o mesmo. Nasce aqui a oposição: Ser/vir-a-ser, mundo real/mundo das ideias, sensível/inteligível. O que encontramos quando saímos da caverna? O conceito platônico por excelência: as ideias!

O conceito de Ideia mostra que Platão não está preocupado em definir as coisas justas, um conjunto de coisas justas, um conjunto de atitudes justas. Certo, diria ele, alguém pode ser corajoso, pode ser belo, mas o que é a Coragem e a Beleza em si? Platão quer saber o que é a Justiça, o Belo, a Coragem em si! Ele quer a pureza absoluta! O conceito nasce puro, reto, soberano! A Ideia é somente o que ela é, inalcançável, imparticipável! Podemos tentar nos aproximar dela, subir até ela, mas nunca nos tornaremos ela, nunca participaremos completamente. Somos meros aspirantes às ideias puras. Olhamos fascinados, elas brilham no céu das ideias, de onde caímos e queremos retornar.

As demais almas seguem avante, todas ansiosas pela região superior, mas são incapazes de atingi-la, sendo então carregadas para baixo, num mútuo pisoteamento e colisão, cada uma tentando ultrapassar a que lhe é vizinha”

– Platão, Fedro

Exatamente por ser pura, inalcançável, imperecível, incorruptível, ela será o critério! Aí entra o grau de participação de nós nas ideias. Qual o grau em que fazemos parte de uma ideia pura? Qual o grau de participação que temos na Coragem? Qual o grau de participação que temos na Beleza? Qual o grau de participação que temos na Justiça? Queremos subir, deixar nossas impurezas e alcançar os graus mais elevados. Somos impuros e precisamos deixar o vir-a-ser não corroer nossa aspiração pelo inteligível, pela pureza, pelo mundo de lá.

O platonismo funda assim todo o domínio que a filosofia reconhecerá como seu: o domínio da representação preenchido pelas cópias-ícones e definido não em uma relação extrínseca a um objeto, mas numa relação intrínseca ao modelo ou fundamento”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

Do caos brota uma ideia, e da ideia é possível ordenar o caos. Percebem como esta é exatamente a nossa maneira de funcionar? É assim que nós aprendemos a pensar! É assim que Platão, do plano de imanência niilista, cria o conceito de ideia! Nenhuma coisa se dirá antes deste critério de discernimento. Só depois disso poderemos separar. Platão realiza um salto deste para outro mundo, há um absoluto na ideia. Ele quer identificar no meio do caos uma linha de pureza absoluta. Aí sim, o conceito de ideia permite a diferenciação, ele seleciona o bom do ruim, separa o verdadeiro do falso! Os pretendentes mais próximos e mais afastados.

Assim, o mito constrói o modelo imanente ou o fundamento-prova de acordo com o qual os pretendentes devem ser julgados e sua pretensão medida”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

Niilismo Platão

– Zdenka Palkovic

Ou seja, a ideia é o imparticipável, ela está lá em cima, é inalcançável, mas é ela que oferece os critérios de seleção, ou seja, ela permite organizar o mundo aqui embaixo! Percebem? É sempre um critério de julgamento, um grande tribunal vertical para ver o quanto cada um consegue se aproximar das formas puras, subir até elas. Eterno julgamento, eterno programa de calouros, eterno masterchef. Tudo será pensado e organizado de acordo com estes critérios exteriores. O mundo aqui embaixo está salvo do caos graças ao mundo lá de cima.

A ideia discerne as cópias boas das ruins. Há transcendência, mas a aplicação é neste mundo! Este era o objetivo inicial do filósofo grego: dentro de um plano de imanência criar conceitos para resolver problemas. A dualidade platônica é entre as coisas boas e ruins, mais próximas ou mais distantes. Imitações que se aproximam e afastam. Mas há sempre um modelo, o quanto cada um é uma boa ou uma péssima cópia? A utilização é dentro deste mundo, para selecionar os pretendentes! As piores cópias são aquelas que não têm compromisso com as ideias, não estão nem aí para a Beleza, a Justiça, o Belo, o Amor; as boas cópias são as que mais se parecem com a ideia original, mas se disciplinam para se assemelhar. O critério é sempre o grau de proximidade. Das coisas menos degradas até as mais degradadas.

Mas nós perguntamos: O que há além do ponto mais afastado da ideia? Quanto mais longe vamos, onde chegamos? No abismo dos simulacros: cópias de cópias, que de tão distantes se tornam outra coisa, que já não têm compromisso nenhum com as ideias, que não aspiram a nada, que não se preocupam com a pureza, se desviaram. Os piores são os que pretendem qualquer coisa sem ter fundamento para isso! Exemplo platônico: os sofistas. Eles não têm compromisso, não se importam com nada, não possuem critérios! Platão odeia os simulacros tanto quanto odeia os sofistas! Odeia todos que não têm compromisso com a Ideia. Em seu mundo, todos devem olhar para ela e admirá-la, buscá-la. Sendo assim, o discípulo de Sócrates é o autêntico caça-simulacros! Se pudesse, destruiria todos, mas contenta-se em expulsá-los de sua cidade modelo. Não há nada pior do que os simulacros.

As cópias são possuidoras em segundo lugar, pretendentes bem fundados, garantidos pela semelhança; os simulacros são como os falsos pretendentes, construídos a partir de uma dissimilitude, implicando uma perversão, um desvio essenciais”

– Deleuze, Lógica do Sentido, Platão e o Simulacro

Platão precisa de um critério para organizar o mundo, ele encontra seu critério em outro lugar, não na imanência, mas apelando para uma regulação externa, criando o conceito de Ideia. O verdadeiro mundo? Ele é inalcançável no momento, mas prometido, quem sabe, para aqueles que não se deixam levar por este mundo pequeno e degradado. Há um mundo maior que o nosso! Cometemos o pecado original, não temos acesso a ele, mas quem sabe um dia, quem sabe depois da morte, quem sabe se nos comportarmos? Estamos aqui para melhorar, para ajudar, para pagar pelos pecados…

Desses, todos aqueles que se purificam suficientemente através da filosofia passam a viver daí por diante inteiramente sem corpos, e se transferem a moradas ainda mais belas cuja descrição não nos é fácil fazer”

– Platão, Fédon

O niilismo negativo é o começo de tudo, é dele que partirá o reativo e o passivo. A separação: sensível, mutável, corporal, imperfeito, temporal versus imutável, ordenado, perfeito, atemporal; Eidos (essências) e eidolos (ídolos, cópias, representações) criam a primeira distância entre a vida e ela mesma. Vivemos como se estivéssemos de passagem, olhando sempre para outro lugar. Podemos aqui entender o platonismo e seu sucessor, o cristianismo, como a grande manifestação do niilismo! Só não sabemos ainda o quanto o mundo platônico é capaz de sustentar-se, e por quanto tempo.

Texto da Série:

4 Formas de Niilismo

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Leo Neo
Leo Neo
2 anos atrás

Excelente explanação Rafael, parabéns!

Luis Silva
Luis Silva
2 anos atrás

Muito bom. Somente não entendi a colocação “pecado original”.

Guilherme santos
Guilherme santos
1 ano atrás

Muito bom o texto !!