Skip to main content

Carrinho

Close Cart

À exposição que Deleuze faz do niilismo de Nietzsche, nós acrescentamos avatares: Platão, Kant, Schopenhauer são filósofos que representam bem as mais desenvolvidas formas niilistas que encontramos através da história. Consideramos o próprio Nietzsche, por sua vez, aquele que melhor deu conta do problema, isto é, fez dele uma expressão, uma atividade, usou-o como plano de seu pensamento e erigiu conceitos, fez mais do que isso: criou personagens conceituais, tipos ativos que enfrentam os problemas propostos de peito aberto.

Comparar o niilismo negativo a Platão e sua vontade de nada; Confrontar o niilismo reativo com Kant e seu nada de valores; contrapor o niilismo passivo a Schopenhauer e seu nada de vontade; não foi mero exercício. Tentamos, ao mesmo tempo, entender porque não nos agrada determinado tipo de pensamento, quanto entender melhor os problemas que levaram Nietzsche a enfrentar seus antecessores.

A filosofia de Nietzsche , em seu conjunto, permanece abstrata e pouco compreensível se não se descobre contra quem ela é dirigida”

– Deleuze, Nietzsche e a Filosofia

Feito isso, poderíamos agora nos concentrar no desenvolvimento que Nietzsche deu ao niilismo através dos personagens, aqueles que poderíamos chamar de afirmadores. Mas, logo de início, percebemos que há um intrometido entre eles. Entre os personagens afirmadores, nascidos do solo niilista, há um falsário. Um representante dos últimos homens: o asno dialético.

Entenderemos por partes. Primeiro, a questão da dialética. Entenderemos mal a filosofia nietzschiana se não percebemos o traço fundamental que a opõe às outras. A saber, a antidialética. Sendo a dialética, de  modo geral, uma arte de fazer duas lógicas convergirem, um jeito que os filósofos encontraram de dissolver em sínteses as contradições inerentes aos problemas. Pensamento que leva muito a sério o papel do negativo na construção do raciocínio lógico, da moral, da estética. A grande preocupação da dialética é descobrir precisamente qual o papel do negativo na constituição das grandes questões. É uma maneira de se fazer filosofia construindo conclusões com bases em ideias opostas.

Nicholas Roerich

A questão é que dialética toma o mundo pelo não-ser e faz depender disso o seu saber. Basta lembrar de Platão e sua dialética ascendente, onde o nosso mundo não basta para o conhecimento, mas através de um processo de conhecimento alcançaria-se o mundo das ideias, onde as categorias do ser são permanentes, imutáveis e incorruptíveis. Sabemos como Nietzsche, à maneira de Heráclito, toma o mundo pelo vir-a-ser. Para ele, o negativo é também um tipo de força que se coloca, é uma qualidade da Vontade de Potência. Ou seja, o negativo não será o elemento que desenvolve o pensamento. Enfrentar a dialética permite que vejamos o mundo como produto de pura efetuação das forças, umas dominantes, outras dominadas, mas tudo numa dinâmica sem ponto fixo. A relação entre as forças não contém nenhum negativo, mas expressa a afirmação da diferença.

Quando pensamos no asno, ou no burro, que está em Assim Falou Zaratustra, lembramo-nos, que é o animal eleito pelos últimos homens como afirmador por excelência, porque ele é aquele que diz “IA” (Sim, em alemão). Numa passagem semelhante à do bezerro de ouro do velho testamento (Êxodo 32), Nietzsche faz da inocência dos fiéis o símbolo de um mal entendido. Zaratustra volta à caverna para encontrar seu povo idolatrando o Sim desmedido do asno e diz: “Mas o que fazeis, criaturas?“. E eles respondem: “É melhor adorar Deus assim, nessa forma, do que em forma nenhuma“.

Assim, o Asno, na filosofia de Nietzsche, representa o Sim dos “palhaços e bufões”. O grande e prometido Sim, amor-fati, numa forma ridícula. A afirmação feita pela imitação do som do burro, o gesto altivo tornado mecânico. E Zaratustra ri, ironicamente, “Como me agradais, desde que vos tornastes novamente alegres“, diz ele. Os últimos homens alcançaram finalmente o ponto mais baixo, estão prontos, desejam eles a própria decadência, pois já não sabem mais o que inventar. Não deixa de ser bom sinal, preferem apostar em um Sim qualquer do que nada querer, preferem uma afirmação frouxa a uma negação insuperável. Então, como primeiro personagem da afirmação, temos o asno. E, claro, precisamos ir além, ele é só o primeiro. Mas vamos dar uma olhada em como chegamos nele.

Sabemos como funciona a relação Senhor/Escavo em Nietzsche. Como dissemos, a análise não vai, como em Hegel, pela dialética, mas por outro viés. Senhor é o que diz Sim a si mesmo, que afirma sua singularidade, seu desejo, sua vontade, por si mesmo. Escravo é aquele que diz Não ao Sim do Senhor e, dessa negação, surge como consequência sua afirmação. Ou seja, o escravo é a figura que pensa dialeticamente, pois o que ele pensa ser afirmação é um resultado da negação dirigida à afirmação do outro. O elemento negativo da filosofia nietzschiana é a afirmação pequena, reativa, insuficiente.

Andar de cabeça para baixo é algo que um dialético não pode criticar num outro, é o caráter fundamental da própria dialética. Como nessa posição ela conservaria um olho crítico? A obra de Nietzsche se dirige contra a dialética…”

– Deleuze, Nietzsche e a Filosofia

Deleuze faz uma releitura dessa relação pensando as forças. Senhor é o tipo em que as forças ativas predominam, forças criativas, plásticas. Escravo é o tipo em que as forças reativas predominam, forças adaptativas, conservadoras. É dessa maneira que podemos entender como o Sim diferencial e afirmativo do Senhor torna-se Não aos olhos do Escravo. A força ativa assusta pois não se pode prever, nem se conter, ela atravessa, invade, inventa. Os tipos reativos não conseguem lidar com isso, eles precisam de garantias, de previsibilidade, de ordem, de lei.

Nicholas Roerich

As forças reativas são as que aceleraram as formas niilistas e seus sintomas – ressentimento, má consciência, ideais ascéticos – são o resultado de olhar para a vida pelo avesso. O conjunto do espírito de vingança, representados nos sacerdotes, só pode ser levado adiante por uma visão de mundo em que as forças reativas dominam e que, portanto, vê nas forças ativas algo a se controlar. É assim que, aos olhos do Escravo, a imagem do positivo é sempre invertida. Ele até percebe a ação, e se assusta, mas não consegue conceber a afirmação, pois não enxerga a gênese da diferença, as próprias forças de criação que tomam os tipos ativos. Ele só consegue dizer Sim a partir do Não, e por isso não enxerga o verdadeiro Sim, aquele ativo, dado por si mesmo. Ele só diz “É bom, porque isto é mau”, enquanto o que nos interessa é dizer “É bom, porque me faz bem”. Pois bem, queremos superar o tipo reativo, mas será que o Sim equino dá conta disso?

Pensemos, de que serve dizer sempre sim, se não se sabe dizer não? Que afirmação resulta da ausência de negação? O asno diz sim, mas ouvindo de perto e atentamente, não conseguimos senão ouvir um não! Sabe por quê? Para se dizer sim indiscriminadamente, é preciso estar totalmente dominado pelas forças reativas, é preciso ter negado toda a diferença. É preciso querer a indiferenciação completa da aceitação. É preciso abrir mão do destino, é preciso negar a própria força. Não podemos confundir o amor-fati com uma festa-cáqui. Um tudo vale de qualquer maneira, relativismo completo. Não!

Sabemos bem, o asno é também camelo. Ele diz Sim também aos valores alheios e quer ser bem carregado. Ele ainda não se tornou leão, não aprendeu a dizer Não. O único Não que conhece é o desprezo que carrega de si mesmo. Ele só pode dizer Sim a tudo, por ignorar a existência da verdadeira negação. A falsa negação é a da dialética, é a do elemento negativo, que quer operar todas as sínteses e não se arrepender. Enquanto a verdadeira negação, aquela que fundamenta e na qual se baseia toda grande ação – essa ele não conhece. Essa negação é aquela que afasta de fato o negativo ao invés de preservá-lo numa resolução conciliadora.

A palavra prudente é Sim, mas um eco que a precede e a segue: é o Não. O sim do asno é um falso sim: sim que não sabe dizer não, sem eco nos ouvidos do asno, afirmação separada das duas negações que deveriam envolvê-la. O asno não sabe formular a afirmação, tanto quanto suas orelhas não sabem recolhê-la nem recolher seus ecos”

– Deleuze, Nietzsche e a Filosofia

A afirmação não pode afirmar a si mesma – percebam de antemão a nossa verdeira intenção – se não soubesse, antes, quebrar pactos, romper alianças, afastar-se do universal e caminhar em direção ao singular. Afirmar não é carregar a existência, mas, ao contrário, libertá-la do peso. Em sua idolatria, os últimos homens têm como projeto a superação da reação pela ação, mas ainda estão longe de entender o projeto de Zaratustra, que é fazer a afirmação superar a negação. Como tomaríamos o caminho da criação de valores sem conhecer o enfrentamento? Não há possibilidade de criação sem uma espécie de destruição que a preceda. Com o asno, toda a moral volta a galope. Os homens ainda pensam que é real o que pesa, o que sofre, o que suporta. O asno não sabe dizer não, mas não percebe que o próprio niilismo nega por ele. Nosso desafio está posto, não queremos ser o asno, não queremos a realidade como fardo, mas como possibilidade de leveza. Precisamos buscar outros personagens para a afirmação…

Texto da Série:

4 formas de Niilismo

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

Mais textos de Rafael Lauro
guest
5 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Marcelo
Marcelo
2 anos atrás

Sim…me ocorre uma dialética distanciada da natureza, onde, talvez, se poderia contextualizar como falta de informação qualificada, escamoteando-nos a percepção do crepúsculo que converge o dia em noite e vice-versa.

Cristian Lima
Cristian Lima
Reply to  Marcelo
2 anos atrás

Me ocorreu uma dúvida. Se você escreverá de modo satírico ou, de fato, quis dizer alguma coisa.

Lamartine Oscar Vriga
Lamartine Oscar Vriga
2 anos atrás

Interessante e necessário para momento histórico onde os asnos se tornaramm uma exclamação unânime do sim!

Cristian Lima
Cristian Lima
2 anos atrás

Admirável o conteúdo. Cada palavra trincada, tão perfeitamente posta ali. Por favor, não parem.

Cristian Lima
Cristian Lima
2 anos atrás

Impressionante o conteúdo. Cada termo supracidado é perfeitamente crível e aplicável. Parabéns ao fundadores.