Skip to main content

Carrinho

Close Cart

Agora temos plenas condições de compreender as críticas de Bergson aos psicofísicos! A raiz do problema está na confusão entre o que é espaço e o que é tempo, entre o que é objetivo e o que é subjetivo, em suma, entre qualidade e quantidade (duas multiplicidades). Qual foi o erro? A Ciência apreende o real com uma linguagem que desnatura a realidade da consciência. 

Seria, portanto, oportuno interrogar-nos se o tempo, concebido sob a forma de um meio homogêneo, não seria um conceito bastardo, devido a intrusão de uma ideia de espaço no domínio da consciência pura”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Qual é o grande monstro conceitual que chegamos através deste método? A noção de “Grandeza Intensiva”, usada para medir estados da consciência. Mas este conceito não passa de um Misto mal elaborado, um recorte estranho de nossa realidade, um filho bastardo das duas noções de multiplicidade.

O Associacionismo é a forma mais bem acabada desta mistura. Isso porque fragmenta a multiplicidade qualitativa da consciência para justapor estados estáticos colocados em série. Ou seja, o determinismo psicológico parte da ideia de associação de ideias e sensações recortadas e causais.

A ciência psicológica defende que o que se passa no espaço pode se traduzir diretamente na consciência. E pior, diz que a consciência funciona da mesma maneira que o espaço, como uma sequência de fatos psicológicos que se sucedem no vazio homogêneo, que se tornam menores ou maiores devido às circunstâncias.

O mecanicismo invade a vida interior criando um monstro conceitual do Determinismo Psíquico onde a causa e o efeito criam uma coerção psicológica universal e necessária. Temos uma ideia, que se soma a outra ideia, que causa tal sentimento, e assim por diante. Levando a representar a consciência como uma sucessão descontínua de estados isolados e justapostos. 

Temos diversas imagens desta tradução ilegítima. Frases como “Estou por aqui de raiva, sou um copo d´água prestes a transbordar”, “estou vazio, não sinto nada”, “Aquele sentimento fez eu ficar fora de mim”. Ou perguntas do tipo: “o que te deixa mais feliz: X ou Y?”, “quem te deixou mais triste: W ou Z?”.

Percebem a confusão? Tratar a mente inextensa como se fosse algo espacial, como se fosse o suporte onde ideias se moveriam e se afetariam. Esta dinâmica psicológica trata as sensações como um perpétuo remanejamento de elementos inertes.

Ao mostrarmos o erro desta teoria, faremos ver como o tempo, concebido sob a forma de um meio indefinido e homogêneo, não é senão o fantasma do espaço assediando a consciência”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Pode parecer simples, mas o determinismo psíquico não é capaz de reconhecer que a consciência é indivisível e se faz num enriquecimento qualitativo contínuo, onde cada parte se funde com a outra. Como consequência, pensam que os pensamentos são corpos inertes se movendo no teatro da consciência e colidindo uns com os outros. 

Será que é assim mesmo? Podemos dizer simplesmente que a ansiedade é mais adrenalina no sangue e a depressão é menos dopamina? A crítica de Bergson procura demonstrar exatamente o contrário: a intensidade consciente não é assimilada como quantidade até ser assediada pela linguagem científica. Os estados psicológicos não são quantificáveis (como quer a psicofísica), mas apenas qualificáveis. 

Os psicofísicos fazem realidades diferentes serem tratadas como se fossem iguais. Mas o que é traduzido como uma grandeza intensiva é na realidade uma mudança qualitativa em toda a nossa consciência. Não se trata de uma felicidade maior ou menor, não se trata de uma tristeza que aumenta ou diminui, mas é toda uma qualidade daquilo que somos que se transforma.

Pode, portanto, conceber-se a sucessão sem a distinção como uma penetração mútua, uma solidariedade, uma organização íntima de elementos em que cada um, representativo do todo, dele não se distingue nem isola a não ser por um pensamento capaz de abstração”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Até podemos dizer que estamos feliz por encontrar dez pessoas em uma festa, e que talvez ficaríamos ainda mais felizes se fossem 11. Mas estas dez pessoas são diferentes de outras 10 pessoas.

O associacionismo psíquico é um misto mal elaborado porque procura relacionar as operações mentais da mesma maneira que os físicos buscam relacionar dois objetos se movendo no espaço. É levando este raciocínio às últimas consequências que nasce a psicologia, com um laboratório experimental para compreender o movimento recortado e distinto das sensações e pensamentos. 

Não havendo enriquecimento na consciência, ou seja, o psiquismo sendo tratado como um puro sistema físico (que não dura, não evolui, não amadurece), os psicofísicos podem finalmente reduzi-lo a um plano regido por leis mecânicas e universais.

Podemos somar a quantidade de batidas do coração, podemos analisar a quantidade de adrenalina no sangue, medir a condutibilidade galvânica, podemos inclusive fazer um exame minucioso dos neurotransmissores em nosso cérebro. Mas nada disso, diz Bergson, será suficiente para descrever um estado psicológico, sempre ficará algo de fora.

Bergson concorda que o espaço é uma ferramenta conceitual do espírito para se apreender a realidade. Diz, inclusive da utilidade da ciência e do pensamento racional. Mas acha muito estranho quando se utiliza este raciocínio para se pensar a consciência, a subjetividade e o tempo. Operando assim um amálgama estranho, uma monstruosidade conceitual.

Da comparação destas duas realidades nasce uma representação simbólica da duração, tirada do espaço. A duração toma assim a forma ilusória de um meio homogêneo, e o traço da união entre os dois termos, espaço e duração, é a simultaneidade, que se poderia definir com a intersecção do tempo com o espaço”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

A confusão entre as multiplicidades quantitativas e qualitativas ocorre porque a ciência psicológica não dissocia estas duas multiplicidades e desta maneira se confunde em seu método. Usando as lentes da ciência para observar a nós mesmos atingimos apenas a superfície daquilo que pode ser mensurável. Muita coisa fica de fora. Sob a identidade quantitativa, se esconde a riqueza qualitativa!

Em suma, é este conceito bastardo de tempo homogêneo que cria todas as confusões, pois ele nasce da mistura entre a consciência pura (qualitativa) e o espaço puro (quantitativo). E desta maneira a psicologia nunca conseguirá pensar aquilo que somos em nós mesmos, em nossa realidade mais essencial, mais profunda. Porque, com seu método, ela está condenada a permanecer eternamente na superfície dos fatos.

A multiplicidade dos estados de consciência, considerada na sua pureza original, não apresenta qualquer semelhança com a multiplicidade distinta que forma um número. Haveria aí, dizíamos nós, uma multiplicidade qualitativa. Em síntese, seria preciso admitir duas espécias de multiplicidade, dois sentidos possíveis da palavra distinguir, duas concepções, uma qualitativa e outra quantitativa, da diferença entre o mesmo e o outro […] existe uma multiplicidade sem quantidade”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Mas como sair desta superficialidade? Como encontrar aquilo que realmente somos e não aquilo que é medido em nós? Bergson fará uma diferenciação entre um Eu Superficial e um Eu Profundo.

Texto da Série:

Duração

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

Mais textos de Rafael Trindade
guest
1 Comentário
Inline Feedbacks
View all comments
Tamires
Tamires
1 ano atrás

Muito interessante, ansiosa pela explicação desses eus.