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A liberdade coloca uma série de problemas para a psicofísica, pois ela acostumou-se a pensar unicamente através de uma multiplicidade quantitativa e de um eu superficial: objetividade, precisão, previsão, controle, experimentação. Onde isso nos leva? Como explicar cientificamente a liberdade?

Para Bergson, todas as explicações sobre liberdade são confusas, pois nascem de um misto mal elaborado de sucessão e simultaneidade, ou seja, um confusão entre duração e extensão. Este problema vale para explicações aparentemente opostas como determinismo e indeterminismo.

Bergson está dizendo que o problema da liberdade foi enfrentado pelos defensores do determinismo e do livre-arbítrio num mesmo plano, confuso, que simplesmente não permite uma boa solução. Os dois ficaram no campo da linguagem e não entenderam o verdadeiro problema da liberdade.

Isso quer dizer que o problema da liberdade é (e sempre foi) transfigurado pela tendência da liguagem a espacializar seu conteúdo, dar-lhe forma, não movimento. Falamos da liberdade tornando-a algo estático, e não dinâmico e, em última análise, tornando-a um falso problema. 

No nosso tempo cotidiano, substituímos o tempo verdadeiro (duração) pelo tempo cronológico (usado pela ciência). Mas ao fazer isso, a qualidade real do tempo nos escapa. Ao perdermos a qualidade real daquilo que somos, a consciência, viciada no espaço, olha para si mesma e não se reconhece. Como poderia responder então o que é liberdade?

A liberdade como problema filosófico obteve duas falsas respostas (aparentemente) opostas:

Determinismo:

No caso do determinismo a liberdade não existe, o livre-arbítrio não é nada mais que ignorância das causas. Fora essa lacuna de desconhecimento, os deterministas não vêm razão para duvidar de sua hipótese de trabalho: tudo está sempre determinado o tempo todo em todos os lugares.

Para isso, o determinismo recorre, claro, à lei da causalidade. Ou seja, no raciocínio determinista, não há decisão a ser tomada, as causas já decidiram por nós: “as mesmas causas geram os mesmos efeitos”. 

Temos como exemplo um indivíduo que precisa tomar uma decisão. Ele está no ponto X precisa escolher um caminho para seguir. Ora, essa escolha não passa de uma ilusão, dirão os defensores da necessidade, porque a escolha já está determinada pelo número de causas que necessariamente o fará escolher por uma direção. Na verdade não é uma opção e podemos redesenhar o percurso como múltiplas retas causais que fazem o indivíduo (ou a vontade) se dirigir para uma direção determinada (y). Sendo assim, desenhamos a imagem de acordo com a teoria determinista:

Imagem retirada do curso “Bergson – Conceitos Fundamentais

Partindo deste princípio, a psicologia recorre ao determinismo para dizer que a associação das causas (sejam físicas ou psíquicas) leva sempre para o mesmo lugar. Ou seja, a psicologia, fascinada pela ciência, se utiliza dos mesmo métodos que a física usa para seus objetos de estudo. As ideias, as sensações, os sentimentos e os pensamentos são concatenados de maneira lógica e necessária.

Não há dúvidas, dirá Bergson, que este raciocínio se mostre efetivo com um objeto, mas retornamos à pergunta: será que podemos fazer isso com a consciência? É muito mais complicado aplicar a lei da causalidade aos estados de consciência. Afinal, nos estados mentais, não necessariamente as mesmas causas geram os mesmos efeitos. 

Dizer que as mesmas causas internas produzem os mesmos efeitos é supor que a mesma causa pode ser apresentar repetidamente no teatro da consciência. Ora, a nossa concepção de duração tende apenas a afirmar a heterogeneidade radical dos fatos psicológicos profundos e a impossibilidade de dois dentre eles se parecerem completamente, já que constituem dois momentos diferentes de uma história. (…) não se pode falar aqui de condições idênticas, porque o mesmo momento não surge duas vezes”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

A noção de causa e efeito amarra o presente no passado e no futuro, como elos de uma corrente. Mas Bergson não acredita ser possível concluir de antemão que tudo está dado assim com tanta clareza. As coisas exteriores são fáceis de prever, mas e nós mesmos? “Ora, somos natureza da mesma maneira que todo o resto”, diriam os cientistas, “apenas não temos o conhecimento de todas as causas que nos levam a uma ação”. 

Certo, correto, mas para termos todas, absolutamente todas as causas, não poderíamos estar apenas observando de fora, precisaríamos conhecer tantas variáveis a ponto de, levando o argumento ao extremo, praticamente coincidir com o objeto. Ou seja, conhecer, saber da influência da causa A, B, C, D… ao infinito, significa dizer que apenas o objeto em vias de se decidir sabe de todas as variáveis que o afetam.

Para Bergson, é indefensável uma tese de absoluta previsibilidade dos estados de consciência. Captar um ato da consciência colhendo as causas deste ato é vazio de sentido porque, no limite, apenas o indivíduo em vias de se decidir é quem tem acesso a todas as variáveis de sua decisão. Em suma, colher todos os fatos é, em última instância, coincidir com o próprio indivíduo no momento de decidir. Ora, isso não é prever um ato, mas o próprio ato de agir! Bergson critica a ideia de previsibilidade e causalidade tornando a experiência real mais rica que a experiência mecânica.

Indeterminismo:

Muito bem, mas será então que é o contrário? Será então que não podemos prever o que acontecerá e somos livres para decidir? Os opositores dos deterministas são os defensores do livre-arbítrio. Eles defendem que somos livres para fazer as nossas próprias escolhas, independentes das causas e efeitos. Somos livres porque uma vez realizado o percurso de X até o ponto Y, cabe a nós a decisão a ser tomada entre A, B, C ou D.

Imagem retirada do curso “Bergson – Conceitos Fundamentais

Ser livre, dizem os indeterministas, é poder fazer o contrário do que se fez. Ser livre é saber que havia outra opção. Podemos pensar que o ato de liberdade se concentra no ponto Y, indiferente às causas e efeitos que o levaram até lá. O indivíduo, ao chegar neste ponto, delibera: há alternativas, uma escolha precisa ser feita. Se escolhe A, a opção B era igualmente possível, e se escolhe B sabe que C era ao menos uma opção e assim por diante.

Algo vem de outro lugar, mas ninguém sabe o que é este algo, apenas que a decisão livre se localiza no ponto Y. Este algo é batizado então de livre-arbítrio, e muda a direção da reta. 

Certo, mas qual o problema? Ambos, diz Bergson, fazem um raciocínio geométrico do problema da liberdade. O determinista pensa em múltiplas retas nos conduzindo numa única direção. O indeterminista pensa em uma única reta de onde partem várias possibilidades. Mas no fim das contas os dois sempre colocam retas num plano, sempre tratam o problema como uma multiplicidade espacial.

Em síntese, defensores e adversários da liberdade estão de acordo em fazer preceder a ação por uma espécie de oscilação mecânica entre dois pontos”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Onde Bergson quer chegar? Por que esta maneira de pensar seria um equívoco? Sua crítica nos faz perceber que o raciocínio dos deterministas e dos indeterministas no fundo é o mesmo, apenas invertido. Ambos colocam a liberdade em um plano cartesiano (com eixos de tempo e espaço) e traçam retas para explicá-la. 

Enquanto os deterministas colocam a multiplicidade de retas na causa, os indeterministas colocam as retas nos efeitos. O ponto Y é uma paralização do tempo, onde a multiplicidade quantitativa de causas se torna unidade ou onde a unidade se abre numa multiplicidade quantitativa de opções. Ou seja, ambos falam da liberdade de modo superficial, de modo mecânico. 

A liberdade não é um ponto numa reta, nem retas virando um ponto! Nas duas teorias, o ato já é dado como realizado e estamos apenas analisando retrospectivamente. Os deterministas dizem: “Foi para o lado Y por causa de A, B, C, D”, os indeterministas dizem: “Foi para o lado A, mas podia ter ido para o lado B, C, ou D”. 

É a representação espacial da liberdade num eixo cartesiano que ilude tanto defensores da necessidade quanto do livre-arbítrio. O Eu não é um tempo-espaço homogêneo onde forças o movimentam nesta ou naquela direção. O Eu é um ser que dura, e por durar, se faz em um progresso contínuo de mudanças sucessivas. 

Nunca entenderemos a liberdade se a desdobrarmos no espaço, porque a liberdade é um problema temporal! Só a compreenderemos se colocarmos desta maneira. Ela não pode ser representada por um objeto se movendo num espaço vazio e homogêneo. Não seremos capazes de entender a liberdade com pontos e retas!

O simbolismo que usamos contamina a ideia de tempo com a ideia de espaço, que, como vimos, são qualitativamente diferentes. A fala espacializada da liberdade a descolore, e retirando a riqueza de suas cores.

Toda a obscuridade deriva de tanto uns como outros representarem a deliberação sob a forma de oscilação no espaço, quando consiste num progresso dinâmico em que o eu e os próprios motivos estão em um constante devir, como verdadeiros seres vivo”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Na verdade existe apenas uma única reta! Um corpo que dura… e que ao durar passa por diversos estados. Ambos, deterministas e indeterministas, pensam a coisa como já feita, e nunca se realizando! Desta maneira, perdem o que é mais essencial na liberdade: que ela está sempre num processo, ela não é uma coisa estática, é um movimento dinâmico. Liberdade não é previsibilidade nem imprevisibilidade. O ato livre é a produção num tempo que decorre. Por isso só pode ser explicada como um ato da duração! 

Podemos ver com clareza que para entendermos o que é liberdade, para Bergson, precisamos entender o que é Duração. Caso contrário, cairemos em falsos problemas como determinismo e indeterminismo.

É da alma inteira, com efeito, que a decisão livre emana; e o ato será tanto mais livre quanto mais a série dinâmica à qual se liga tender a se identificar com o Eu fundamental”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Aqui tocamos o ponto essencial. A liberdade é um problema do quanto nosso eu profundo se manifesta na ação. Não é de uma cadeia de pensamento que a liberdade brota, é do ser como um todo, considerado em sua profundidade.

A liberdade está em toda vida que dura, e ao durar se modifica. Em nossos estados internos (se os purificarmos do tempo cronológico) não é feito de linhas demarcadas e pontos de escolha, a vida não é uma escolha pontual recortada num instante do tempo, é um caminho que se percorre continuamente.

Sendo assim, podemos concluir que possuímos graus de liberdade. Quanto maior a liberdade, mais profundamente o nosso ser está envolvido no processo. Quanto menor a liberdade, mais superficialmente o nosso ser está envolvido no processo . A liberdade se realiza na ação, na medida em que ela expressa em maior ou menor grau a interioridade do nosso ser.

Em resumo, somos livres quando os nossos atos emanam de toda a nossa personalidade, quando a exprimem, quando com ela têm a indefinível semelhança que por vezes se encontra entre a obra e o artista”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

A liberdade parte deste eu profundo, que dá a conotação ativa do sujeito, sua essência. A pergunta então não é qual caminho seguir, mas o quanto do nosso agir está impregnado de interioridade, de nós mesmos!

O quanto estamos envolvidos em nossas ações? Se a resposta for, “profundamente envolvidos” então nossa ação é livre; se a resposta for, “superficialmente envolvidos” então a ação não é livre. A liberdade é a expressão maior ou menor daquilo que somos. A profundidade é a medida da liberdade!

Texto da Série:

Duração

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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