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Se o rosto é uma técnica de constituição e fixação das subjetividades em lugares estanques, como escapar? Como se desfazer do rosto? Como sair deste regime de signos? Em suma, como sair do peso da subjetividade fechada?

Antes de mais nada, é necessário muita calma, desfazer o rosto, dizem Deleuze e Guattari, não é um coisa à toa, não é simples, e corre-se sempre o risco da loucura, pois é o rosto que organiza nossa subjetividade.

O que é a rostificação? Já dissemos, é um regime de signos que cria uma subjetividade que aprende a dizer “eu sou”. Dito de modo simples: o rosto é a desterritorialização do corpo em uma identidade! Ele é a constituição de uma subjetividade que nos tira de nossa natureza corporal imediata. É o fechamento de nosso corpo em outro plano, outro modo de funcionamento, um funcionamento alheio. Em suma, perde-se um corpo aberto e plural para tornar-se alguém marcado e fixo.

O que isso significa? Significa que quando o rosto se forma, ele prende todo o corpo dentro dele! Não sobra nada das aberturas e possibilidades. Ou seja, é todo o corpo se “desforma” para caber em um rosto, todos os órgãos se amarram, se apertam, em um organismo identificável. Desterritorialização do corpo na significância do rosto.

Deste modo, desfazer o rosto será quebrar com os fundamentos da identidade! Desfazer o rosto é não mais ser reconhecido! (é toda a linha percorrida pelos devires: mulher, animal, criança, imperceptível). Desfazer o rosto é partir, ir embora, deixar algo pra trás. É não dizer mais A = A. Não se trata mais de uma afirmação de si, é muito mais uma desafirmação de si, um questionar-se, um pôr-se em questão.

É necessário, dizem Deleuze e Guattari, sair da codificação do rosto ideal para encontrar um corpo real que vive. De um lado, códigos, regras, leis, hábitos, costumes; do outro, um corpo de potências, experimentações, errâncias. De um lado, uma matéria que implora por uma forma; do outro, uma vida que empurra a matéria sempre em direções novas. 

Conclusão: O Rosto se desfaz na medida em que encontramos o Corpo-sem-órgãos.

Mas é tão difícil, afinal, encaramos a deformação como um erro! Ficamos com medo. O rosto deformado não se encaixa, é olhado de lado, com desconfiança. A deformação é vista como problema, como doença! E como toda doença, deve ser normalizada!

Por isso devemos nos perguntar: O que é um Sintoma?

O que é um tique? É precisamente a luta sempre recomeçada entre um traço de rostidade, que tenta escapar da organização soberana do rosto, e o próprio rosto que se fecha novamente nesse traço, recupera-o, barra sua linha de fuga, impõe-lhe novamente sua organização”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs – Vol.3, p. 64

Imagens de Ed Fairburn

Toda a questão está aí: o rosto é feito de inúmeras linhas traçadas em torno de um ponto, mas às vezes, uma linha se solta do centro de significância, escapa, e começa a se mover de um jeito diferente, como que assumindo “vida própria”.

O sintoma é este traço de singularidade, este desprender-se de uma identidade fechada, ou seja, ele é algo que deforma, que afasta do modelo. O sintoma não é predicado que deve ser erradicado, suprimido; ele não é um defeito de fábrica, ele é abertura.

O sintoma não é excesso a ser suprimido por remédios ou terapia. Muito pelo contrário, todo sintoma diz respeito a um modo de vida, é parte necessária de um modo de vida. Sendo assim, como eliminar realmente o sintoma se ele é parte necessária da vida que o acompanha?

Deleuze e Guattari propõem outro caminho: o sintoma tem o potencial de conexão positiva! É só pensar na doença de Nietzsche que o libertou da cátedra de filologia da Basileia para ligá-lo à filosofia nômade.

Sendo assim, nós perguntamos: Queremos normalizar o sintoma ou levá-lo ao ponto de criação? O sintoma é algo que pede passagem, ele é uma força de protesto. Ele é o repúdio dos órgãos que foram transformados em organismo, ele é o grito das forças que foram domesticadas.

A loucura não é necessariamente um desabamento (breakdown); pode ser também uma abertura de saídas (breakthrough)… O indivíduo que faz a experiência transcendental da perda do ego pode ou não perder de diversas maneiras o equilíbrio. Pode, então, ser considerado louco. Mas ser louco não é necessariamente ser doente, mesmo se em nosso mundo os dois termos se tornaram complementares…”

– Deleuze e Guattari, O Anti-Édipo, p. 177

Em suma, o sintoma é a força de deformação de um corpo, é a força de uma vida que não aceita ser pequena. Deste modo, devemos então traçar a linha positiva do sintoma. A pergunta é: para onde ele nos leva? A  esquizoanálise quer ver onde vão dar estas linhas. E procura fazer estas linhas oscilarem para caminhos novos. 

Há portanto dois eixos da clínica: Fazer um rosto voltar a adquirir a harmonia de um “sujeito normal”; esta seria a clínica da identidade, sempre regulada por médias e padrões. Ou fazer o rosto abrir-se para novos caminhos; esta seria uma clínica da diferença, da experimentação. 

Desfazer o rosto para (re)encontrar o corpo. Como? Já sabemos: através do exercício de experimentação consigo mesmo. Precisamos então encontrar estes caminhos, deixar novas intensidades passarem, fazer a matéria escapar da forma e seguir sua potência própria e singular.

Conclusão, se vivemos em prisões então só há uma coisa a se fazer: encontrar as linhas de fuga. O mais importante aqui é “Experimentar ao invés de interpretar”. É apenas na experimentação do CsO que encontramos as linhas de fuga nas beiradas do rosto, nas pontas desprendidas que chamam de sintoma. O objetivo é percorrer estas trilhas de si mesmo, para fazer as subjetividades desabarem, ou pelo menos se rearranjarem.

Texto da Série:

Mil Platôs

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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