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Seria preciso dizer: vamos mais longe, não encontramos ainda nosso CsO, não desfizemos ainda suficientemente nosso eu. Substituir a anamnese pelo esquecimento, a interpretação pela experimentação. Encontre seu corpo sem órgãos, saiba fazê-lo, é uma questão de vida ou de morte, de juventude e de velhice, de tristeza e de alegria. É aí que tudo se decide”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs, Vol 3

Se no Anti-Édipo o conceito de Corpo sem Órgãos é apresentado como uma Ontologia, um plano de imanência. A partir do Mil-Platôs, o tom se altera radicalmente, pois agora o CsO é apresentado como uma possibilidade Ética: a criação de um Corpo Sem Órgãos para si.

A pergunta ainda é como o capitalismo e a psicanálise organizam o corpo e a subjetividade. Por isso, as tarefas do Anti-Édipo, tanto destrutiva quando a mecânica são íntimas uma da capacidade de criar para si um Corpo sem Órgãos. Mas é importante lembrar que inicialmente, o CsO foi criado por Artaud, por isso o Platô possui como Sub-Título: 28 de Novembro de 1947, data em que Artaud realizou a transmissão radiofônica: “Para acabar com o juízo de Deus”.

Cada órgão, tendo a sua função, faz o organismo funcionar. Cada parte desempenha a sua função, O corpo é escravo do organismo. Artaud chega e diz: “Chega de funções, chega de hierarquias”. O corpo está submetido à organização? Então nós reivindicamos outro corpo: um corpo sem órgãos! Um corpo que não esteja esquadrinhado por funções, mas por intensidades. Um corpo que dê passagem aos fluxos vitais.

Se em um primeiro momento nos perguntamos o que é o corpo sem órgão, agora queremos saber o que pode um corpo sem órgãos. Quando ligado à ontologia, desenvolvia-se seguindo uma espécia de lógica substancial. Agora, olhando através da perspectiva Ética, ele ganha um sentido prático. Sendo assim, é impossível compreender o Corpo sem Órgãos senão vivendo-o. Ele será o limite da experimentação, o limite ao qual nunca se chega, mas também a superfície da qual sempre estamos e nunca nos afastamos completamente.

Ao desfazer Édipo e encontrar nossas máquinas desejantes, tentamos criar uma superfície cada vez mais lisa, uma superfície que desfizesse os estratos. Claro, sempre haverá um pouco de atrito, há sempre um limite para o corpo. Mas trata-se de um processo, um convite, uma experimentação, exige um preparo, um cuidado minucioso.

Para cada tipo de Cso devemos perguntar: 1) que tipo é este, como ele é fabricado, por que procedimentos e meios que prenunciam já o que vai acontecer; 2) e quais são estes modos, o que acontece, com que variantes, com que surpresas, com que coisas inesperadas em relação à expectativa? Em suma, entre um Cso de tal ou qual tipo e o que acontece nele, há uma relação muito particular de sínteses ou de análise: sínteses a priori onde algo vai ser necessariamente produzido sobre tal modo, mas não se sabe o que vai ser produzido”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs 3

É necessária uma nova política para o corpo.Voltar a fazer os fluxos de desejo correrem. A Ética de Deleuze e Guattari procura nos transformar, tanto quanto possível, num corpo sem órgãos. Mas não podemos dizer que este percurso seja calmo e tranquilizador. Porque podemos falhar! Porque simplesmente pode não dar certo. Deleuze e Guattari fazem esta advertência, de sempre agir com a prudência necessária, doses de prudência como regra imanente à experimentação. 

Mas a pergunta mais importante é: “Como ele é fabricado?”. É preciso experimentar, fazer os fluxos passarem por outros lugares, ativar outras máquinas, desejar novos modos.

O CsO é um campo aberto que povoamos de intensidades. O interessado tem apenas uma tarefa: fazer passar intensidades. Para isso ele precisa necessariamente experimentar. Eis a tarefa: deslocar suas máquinas desejantes, brincar com elas, sondar, explorar. Do que estas máquinas são capazes? Rearranjar as máquinas para que gerem intensidades. Apontá-las todas em uma nova direção. Vamos mais longe! É preciso deixar o peso do Eu para trás. Os órgãos precisam perder suas funções habituais! Teremos muita dificuldade de construir nosso CsO se ficamos no agenciamento esperado: o organismo.

O CsO não é inimigo dos órgãos, mas inimigo do organismo. Ou seja, não é inimigo dos instrumentos, mas inimigo da instrumentalização. Para busca de intensidades, o CsO procura desfazer-se da organização produtiva em que foi inserido para tornar-se produção de realidades diferentes das que lhe deram. Ele odeia o adestramento. O corpo antes estava doente, sua vida estava desintensificada, anestesiada, sua rotina não lhe proporcionava nada de novo.

Isto nos leva a dizer que as máquinas desejantes e CsO não se opõe! O CsO não é o contrário dos órgãos! Seu inimigo é outro, o que nos impede de construir um CsO é o organismo! Uma organização demasiadamente fechada dos corpos! No fundo dos corpos disciplinados, dóceis, podemos ouvir o CsO gritando: “Me fizeram um organismo, me dobraram indevidamente, roubaram minhas máquinas desejantes, nos estratificaram, quebraram nossas conexões”.

O organismo já é isto, o juízo de Deus, do qual os médicos se aproveitam e tiram seu poder. O organismo não é o corpo, o CsO, mas um estrato sobre o CsO, quer dizer, um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair um trabalho útil”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs 3

– Francis Bacon

Embaixo do organismo reencontramos as máquinas parciais! Não mais órgãos como parte de uma unidade perdida, mas simplesmente máquinas realizando conexões. Não há totalidade nem retorno! Há tão somente agenciamentos.

O que quer dizer desarticular, parar de ser um organismo? Como dizer a que ponto é isto simples, e que nós o fazemos todos os dias. Com que prudência necessária, a arte das doses, e o perigo, a overdose. Não se faz a coisa com pancadas de martelo, mas com uma lima muito fina. Inventam-se autodestruições que não se confundem com a pulsão de morte. Desfazer o organismo nunca foi matar-se mas abrir o corpo a conexões que supõe todo um agenciamento, circuitos, conjunções, superposições e limiares, passagens e distribuições de intensidades, territórios e desterritorializações medidas à maneira de um agrimensor” ”

– Deleuze e Guattari, Mil Platôs 3

O corpo deixa de ser produtivo para os outros e torna-se intensivo para si mesmo. As coisas passam novamente a fluir, a afetar; o corpo acorda e percebe que está vivo, não é um instrumento, mas um conjunto de sensações. O organismo estava separando o corpo daquilo que ele podia. Sua instrumentalização o afastou de toda a sua múltipla capacidade de afetar e de ser afetado. Mas a intensidade destrói sua própria casa, a do homem é o próprio corpo submetido ao organismo.

Fazer de si mesmo um corpo sem órgãos é desdobrar-se de maneiras novas, inusitadas, inesperadas: pensemos na mão, usada para apertar o parafuso com a chave de fenda, mover a alavanca na fábrica, escrever o relatório no escritório; quando esta mão perde a finalidade que lhe deram, se torna um Corpo sem Órgãos. Então pode voltar-se contra uma organização externa para aprender a dedilhar um violão, pintar um quadro, acariciar uma pessoa. A boca que era usada para dar ordens, repreender, dar sentido; passa a cantar, beijar, provar. Os pés que levam ao trabalho podem ser usados para dançar. A experimentação é um convite para a diferenciação, faz cruzar novas linhas, como pernas que se cruzam num passo de tango.

O Corpo sem Órgãos não perde o devir, está em contato pleno com o mundo. Desorganizamos nosso corpo para torná-lo instrumento de intensidades. Nos tornamos revolucionários porque desejamos retomar o que é nosso: a potência de existir. Fazer um pouco de caos passar pelo meio da ordem. Fazer um pouco de esquizofrenia atravessar a normalidade. Encontrar a diferença que habita no seio da repetição. Pronto, novamente a terra nova!

Colocando-o de novo, pela última vez, na mesa de autópsia para refazer sua anatomia.
Eu digo, para refazer sua anatomia.
O homem é enfermo porque é mal construído. É preciso desnudá-lo para raspar esse animalúnculo que o corrói
Mortalmente,
Deus
e juntamente com deus
os seus órgãos
Pois, amarrem-me se quiserem,
mas não existe coisa mais inútil que um órgão.
Quando tiverem
Conseguido fazer um corpo sem órgãos,
então o terão libertado dos seus automatismos
e devolvido sua verdadeira liberdade.
Então o terão ensinado a dançar às avessas
como no delírio dos bailes populares
e esse avesso será
seu verdadeiro lugar

Antonin Artaud

Texto da Série:

Esquizoanálise

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Jonas Neto
Jonas Neto
1 ano atrás

onde posso encontrar mais sobre o CsO?

david
david
10 meses atrás

Gostaria de indicações de filmes de Artaud onde expressa esse corpo sem orgãos¹

Alber
Alber
4 meses atrás

A razão adequada em artaud é o gnosticismo antigo e seu confronto com santo Agostinho. Baseado numa divindade oculta, o demiurgo criador do bem e do mal. Ao contrário de Orígenes e outros que praticara m a castração. Em o teatro e seu duplo o unico filósofo citado é santo agostinho. Opositor ferrenho do pelagianismo contra o livre arbitro, mestre de lutero e Calvino. A Tertuliano coube a perseguição aos gnósticos valentinianos, escreveu ressurreição da carne, justamente uma chamada do teatro da crueldade. Com bom faro dá prá descobrir a religião ética de Artaud. Sem contar a aventura xamânica com… Ler mais >

Shyayysky
Shyayysky
3 meses atrás

Tenho estudado Artaud desde que comecei estudar teatro em 2015, alguma coisa eu sentia, pensava que era o desconforto de não entender o que ele tava dizendo, intelectualmente. Mas era em processos de experimentação dentro da sala de ensaio que a sensação se fez compreendida, mesmo que não encontre palavras ainda pra descrever o que. Acompanho o RI desde os primeiros textos, e agora na pandemia, me aprofundei ainda mais em Guattari e Deleuze, gosto bastante da forma como vcs relatam suas experiências nos estudos, com os textos, os podcasts. Gosto disso!