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Recolhe-te em ti mesmo. O princípio racional dirigente possui uma natureza que lhe traz satisfação própria quando tua ação é justa.

Marco AurélioMeditações VII, §28

A Virtude que corresponde à Disciplina da Ação é a Justiça. Esta é uma das quatro virtudes cardeais para os estoicos, uma das quais o sábio encarna em sua plenitude.

Justiça é uma palavra latina, derivada de Justitia, que significa o direito, a equidade, a lei. Mas no grego, Dike (Δίκη) é uma Deusa, uma força viva e ativa, filha de Zeus, que observa atentamente as ações dos homens, recompensando as boas e punindo as más. Por isso ela carregava consigo uma balança e uma espada.

A justiça também pode significar a Lei (nomos) de cada coisa, seu modo correto de ser. Por isso Platão e Aristóteles fazem uso deste conceito. Cada coisa tem o seu lugar correto e o seu modo correto de ser. Ou seja, Dike é a deusa das Regras, Normas e Condutas sociais.

Por exemplo, Aristóteles, na Física, fala que cada elemento tem o seu lugar natural. Por isso a terra, mais pesada, desce, e a água, mais leve que a terra, flui acima dela. O ar, por exemplo, é mais leve que a água e sobe. A Justiça significa cada coisa permanecer em seu lugar. Por isso, é justo uma pedra cair quando a jogamos para cima, porque ela deve voltar ao seu lugar natural. Esta ideia é desenvolvida antes por Platão, para quem a Justiça será cada indivíduo submetido à distribuição da Razão. Por isso, na República, os mercadores e agricultores ficam embaixo, os guardiões e soldados ficam em um lugar intermediário e o Filósofo será o rei, pois possui plena sabedoria para dispor as coisas em seu lugar correto.

Qual o problema desta concepção na filosofia grega clássica? A noção de distribuição é hierárquica. Os mercadores são considerados inferiores, e por isso colocados abaixo dos guardiões. A razão é a mestra e comanda todo o resto. Cria-se uma estratificação, que instaura uma estrutura estanque. É o famoso “bote-se no seu lugar”.

Apesar da Justiça ser uma das grandes virtudes dos gregos, os estoicos possuem uma concepção diferente da de Platão e Aristóteles. Inicialmente, dizem os estoicos, Dike estava relacionada a Pysis (Φysis), que significa Natureza. Ou seja, a justiça da natureza eterna e determinada opondo-se às convenções sociais (nomos), transitórias, e muitas vezes falsas e perniciosas. Inicialmente esta justiça natural era entendida como a maneira natural e necessária de uma coisa se manifestar, crescer e se afirmar. Ou seja, pode-se entender Dike como a maneira espontânea e autêntica de um ser existir e agir. Maneira de cada um expressar sua própria natureza.

Esta é a concepção que interessa para os estoicos, não focada em uma Lei eterna ou categorias universais inquestionáveis, mas na maneira de cada um de afetar e de ser afetado na própria natureza. Isso porque, pela lógica estoica, somos todos únicos, somos todos singulares. Desta maneira, não se pode pensar em uma justiça distributiva com cada coisa em seu lugar, mas apenas em uma justiça afirmativa, em que cada coisa afirma sua natureza o máximo possível.

Deste modo, a própria noção de uma Justiça eterna se altera. Os estoicos falam de Dikaiosyne (Δικαιοσύνη), uma Daimon, um espírito que nos inclina para a ação justa e correta. A justiça é a disposição para o bem, a força que nos leva a afirmar aquilo que somos. Toda ação justa se torna então uma tendência, uma predisposição para fazer cada coisa manifestar a sua natureza o máximo possível!

Voltamos à noção de Eudaimonia, a justiça é a inclinação de fazer cada coisa florescer o máximo possível, atingir seu máximo potencial. Podemos pensar na natureza, onde cada planta, cada animal, cada relação procura sempre o máximo possível a manifestação de si mesma na relação. O peixe nada o mais rápido que pode, a árvore cresce o mais alto que consegue. Cada ser manifesta sua essência até onde consegue. E nesta afirmação de si, cada coisa encontra a outra e entre em relação. Justo é a afirmação de tudo. Em suma, não é uma moral de mútua limitação, mas exatamente o contrário, uma ética de mútua afirmação.

Segundo os estoicos, qual a natureza do ser humano? Já sabemos: Racional e Social. Ou seja, a justiça se manifesta no ser humano aumentando o máximo possível a nossa capacidade de pensar e de vivermos em harmonia social. Este é o objetivo da Justiça.

Justiça, para os estoicos é a busca do máximo de afirmação possível. Permitir o máximo de afirmação possível de tudo/todos. Diferente da Lei Tirana que impõe a limitação, os estoicos procuram a Disposição para o alargamento da vida.

Quem pratica injustiça comete impiedade. Como a natureza universal constituiu os viventes racionais uns em vista dos outros, para se ajudarem mutuamente segundo seu mérito e não se prejudicarem de modo nenhum, quem transgride esse decreto comete impiedade, evidentemente, perante a mais augusta das divindades” – Marco Aurélio, Meditações IX, §1

Texto da série: Meditações – Marco Aurélio

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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