Skip to main content

Carrinho

Close Cart

Os exercícios espirituais são todos pensados para mover a mente e o corpo para novas direções. A pergunta é: como viver de maneira diferente? E a resposta só pode ser: nos exercitando para chegar neste lugar. 

O Exercício de Impermanência faz parte da Disciplina do Desejo e seu objetivo é simples: modificar nossos desejos, nos preparar para os acontecimentos que acontecem independente de nossa vontade.

Reflete amiúde com que rapidez os seres e os fatos passam e se esvanecem. A substância é como um rio num fluxo perene; as forças estão em transformações contínuas, as causas em mudanças incontáveis; quase nada é estável; aí perto está o infinito abismo do passado e o do futuro, onde tudo desaparece. Não é louco, pois, quem, em meio a isso, se infla ou se atormenta, ou se lamenta como se algo o estivesse incomodando por algum tempo, ou mesmo por longo tempo?” – Marco Aurélio, V, 23

A questão é a mesma que foi formulada na Disciplina do Desejo: quantas coisas desejamos, mas que não estão inscritas na ordem natural dos acontecimentos? Quantas vezes não desejamos que figos nasçam no inverno? Ora, mas isso é absolutamente irracional! Sim, diz Marco Aurélio, mas é frequente desejarmos de maneira irracional.

Facilmente somos capturados pelo desejo de eternidade! Facilmente seguimos na direção daquele que quer congelar as coisas, deixá-las imóveis. Embalsamar as pessoas, fixar os sentimentos, paralisar a vida. Somos fracos, sentimos que é agora ou nunca, que as coisas precisam ficar em seu lugar, porque não teremos a capacidade de conquistá-las novamente caso se percam.

Mas a vida não é assim:

Como tudo desaparece rapidamente: no mundo, os próprios corpos; no tempo, as lembranças deles; tais são todas as coisas sensíveis e, sobretudo, as que seduzem mediante o prazer, amedrontam mediante o sofrimento ou têm forte repercussão mediante a fama que se esfumaça; como são vulgares, desprezíveis, triviais, corruptíveis e mortas diante da razão capaz de examiná-las” – Marco Aurélio, Meditações II, 12

Tudo muda! Tudo passa! Tudo está constantemente nascendo e morrendo. Fazendo e se desfazendo. Mas parece que nossos desejos se recusam a aceitar este fato! Este exercício estoico tem o objetivo de analisar se nossos desejos estão em harmonia com a natureza universal fluindo, ou se é um desejo de eternidade. Este exercício quer nos fazer um alerta: talvez estejamos desejando as coisas por mais tempo ou menos tempo que o próprio tempo das coisas! Talvez estejamos desejando a permanência da impermanência!

Não parecemos uma criança mimada? “Deus, quero figos mesmo que já seja inverno!”, “Mas agora não é tempo de figos”, diz a Natureza, “Eu sei que não é tempo, mas eu quero agora!”.

“Deus, não quero que isso mude, não quero que esta pessoa vá embora”, “Sim, mas agora é tempo desta pessoa partir”. “Eu sei, mas eu não quero”. “Eu sei, mas não é possível…”.

As mudanças te assustam? Mas pode alguma coisa ocorrer sem que haja mudança? Que há de mais caro e familiar à natureza universal? Tu próprio podes tomar um banho quente sem que a lenha queimando não seja transformada? Podes comer sem que sejam transformados os alimentos? Pode-se realizar alguma outra ação útil sem transformação?” – Marco Aurélio, Meditações VII, 18

Temos medo da mudança, porque temos medo de não sermos capazes de habitar o acontecimento. O problema é: nada é estável, a natureza é um rio, ela está fluindo o tempo todo. Nada acontece sem mudança! O velho desaparece para o novo aparecer. Tudo está numa corrente de acontecimentos interligados. Tudo precisa se transformar, tudo precisa mudar.

À pessoa que foi mordida pelos princípios verdadeiros, basta a mais breve reiterada palavra para recordá-la a conservar-se sem dor, sem aflição, sem medo. Por exemplo: ‘folhas agitadas pelo vento sobre a terra… assim são as gerações dos homens’. Teus filhos também são pequenas folhas; também são pequenas folhas os indivíduos que fazem sinceramente de ti objeto de aclamação e de glorificação, ou que, pelo contrário, fazem de tudo objeto de maldição, ou que te reprovam em segredo e fazem de ti objeto de zombaria. Igualmente são pequenas folhas os que herdarão tua fama após tua morte. Com efeito, todas nascem com a sequência da primavera. Depois o vento as derruba; o bosque, então, faz outras nascerem e crescerem, e estas as substituirão. A efemeridade é o que há de comum em todas as coisas” – Marco Aurélio, cap. X, §34

Como são belas e verdadeiras estas palavras! Mas ao mesmo tempo, como são duras: Nada dura para sempre! O exercício de impermanência serve para nos mostrar isso. A mudança sempre virá, sejam para as coisas boas ou para as ruins. E por isso, por estarmos neste fluxo universal necessário, devemos nos preparar.

Em resumo, convém considerar sempre as coisas humanos como efêmeras e de escasso valor: e ontem um pouco de ranho, amanhã corpo embalsamado ou cinza. Percorre, portanto, esse curto período de tempo em harmonia com a natureza e encerra teus dias serenamente a imitar uma azeitona que cai quando madura, a louvar a terra que a fez nascer e a agradecer à árvore que a produziu” – Marco Aurélio, cap. IV, §48

Série: Meditações de Marco Aurélio

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

Mais textos de Rafael Trindade
guest
2 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
solange alvares lima dos
solange alvares lima dos
5 dias atrás

Mesmo ciente da efemeridade das coisas, sempre vivi de forma inversa como se nada fosse mudar ou acabar, Hoje vivencio mudanças constantes, principalmente, com a pandemia que transformou minha vida e trouxe algumas sequelas. Nesse período tive contato com o estoicismo, que não conhecia e tenho aprendido muito, principalmente, com as reflexões de Marco Aurélio. O estoicismo tem sido um norte em minha, um exercício constante para sobreviver ao caos.

Éderson Brandão
Éderson Brandão
5 dias atrás

Acredito que se adaptar às realidades alheias aos nossos desejos é algo que nos faz aprender sempre.. mas no caso dessa época que estamos vivendo de divisão da realidade em “ao vivo” e “virtual”, existem muito mais fatores a se considerar que Marco Aurélio não tinha acesso. Penso que o equilíbrio entre o que fica, o que passa, e o que vai ser, é algo a ser buscado, a volatilidade das pessoas sobre princípios, ética, valorização de ideias, está muito frenético, totalmente efêmero, num nível em que estoicismo algum vai dar conta de acompanhar. Para ilustrar melhor o pensamento crítico… Ler mais >