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Inicialmente, os estoicos distinguiam apenas duas áreas da alma: 1º) Julgamento: capacidade de receber e avaliar sensações externas; 2º) Vontade: capacidade de agir através de funções motoras.

A Vontade, por sua vez, se desdobrava em Ação Ativa ou Desejo Passivo. Se é ação, então é ativa, se é desejo então é impotência do corpo e portanto desejo. Em suma, ou a ação vem de nós ou somos passionais (paixão).

Mas o estoicismo romano de Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio desdobram a Vontade em duas áreas diferentes. Ou seja, desejo e ação não são mais uma o reverso da outra.

O desejo será de agora em diante a faculdade da alma que nos faz sentirmos atraídos ou avessos às coisas. Desejo é inclinar-se ou afastar-se das coisas. Definido desta maneira, a pergunta muda, passa a ser: este desejo está de acordo com a natureza ou a contradiz?

Em suma, temos três disciplinas (Assentimento, Desejo e Ação, respectivamente) para três faculdade na alma: Julgar, responsável pela verdade e a mentira; Desejar, responsável pelas inclinações e aversões; e Agir, responsável pela conveniência e inconveniência das ações.

A Disciplina do Desejo será responsável por avaliar se nossos desejos são naturais ou não. Ela se pergunta: faz sentido desejar isso e faz sentido se afastar daquilo?

Com a Disciplina do Desejo chegamos ao famoso Corte Estoico:

  1. O que depende de nós: nossos pensamentos, nossas ações;
  2. O que não depende de nós: o resultado de nossas ações e os acontecimentos do mundo.

É gradativo o que depende e o que não depende, mas há um corte no meio. Partindo de nosso interior, nossos pensamentos são as coisas que mais estão no nosso poder, fazendo uma consideração dos nossos pensamentos, podemos agir. O corte estoico está aqui, a partir do momento da ação, o resultado não está mais sob nosso poder, e a partir daí o mundo é o que está mais fora do nosso poder. 

Conclusão: Os acontecimentos do mundo não dependem de nós. Então, dizem os estoicos, não há nada que possamos fazer, apenas aceitar. Marco Aurélio ilustra esta ideia com a expectativa dos nossos desejos com a natureza, diz ele: “desejar que figos nasçam no inverno é loucura!”, mas não desejamos coisas desta maneira constantemente? É constante desejar o que não pode ser, o que é impossível. E igualmente constante não desejar o que precisa ser, que é necessário. Pois bem, aí está a questão da disciplina do desejo.

O objetivo desta disciplina é deixar de desejar coisas impossíveis. Parar de desejar de nossa perspectiva parcial e começar a desejar por uma perspectiva universal.

Tudo que está de acordo com você está de acordo comigo, ó Mundo! Nada que acontece no momento certo para você chega cedo demais ou tarde demais para mim. Tudo que as estações produzem, ó Natureza, são frutos para mim. É de você que tudo vem; tudo está em você; e todas as coisas se movem em você”

– Marco Aurélio, IV, 23

Tornar o movimento do mundo o nosso movimento, isto é, para os estoicos, a sanidade. O tempo do mundo é o tempo correto, é o tempo decidido por Deus, pelo Logos, pela Natureza, também deve ser o nosso. Aprender a desejar dentro da natureza, na natureza, e não que ela seja diferente do que ela é, este é o objetivo.

O jardineiro não estranha que uma figueira produza figos na primavera e seque no inverno. O médico não estranha que o doente tenha febre e o convalescente comece a ter disposição. O piloto de navio não estranha que o vento às vezes sopre a favor e às vezes em sentido contrário. A natureza tem seu tempo, nós temos que encontrar o tempo da natureza. É como se o próprio Zeus ordenasse todos os acontecimentos, e ele não está disposto a ouvir nossas preces.

Isso pode parecer estranho em um primeiro momento, mas para os estoicos faz todo o sentido. Se nossos desejos são mutáveis e inconstantes, o melhor a se fazer é dirigi-los para a natureza. A disciplina do desejo quer fazer os movimentos do desejo se moverem junto com o movimento do mundo. E nós podemos fazer isso! Afinal, nós podemos mudar os desejos! Como? Reavaliando-os de uma maneira racional, dizem os estoicos.

Deixar nossa maneira parcial de desejar e encontrar a maneira universal com que o universo deseja. Por isso a Física está ligada à disciplina do desejo, ela nos ajuda nessa reavaliação. Ou seja, compreender mais sobre a natureza transforma o valor que damos às coisas. Pensando nisso, como pedir o que sabemos que o mundo necessariamente não nos dará? Ou como negar aquilo que sabemos que o mundo necessariamente nos dará?

Os estoicos ensinam a “Aceitar a ordenação da natureza” e fazer dela nosso próprio desejo. Grande parte dos nossos sofrimentos são ampliados porque desejamos coisas que nunca acontecerão, porque desejamos coisas que estão absolutamente fora do nosso controle. Saber disso com a certeza da Física nos acalma, nos torna mais complacentes.

E a Física estoica faz questão de ensinar que muitas coisas não estão em nosso poder. E tudo bem, porque tudo está ordenado exatamente como deveria ser, tudo faz parte de um “plano maior”. Constatar isso muda nossa maneira de ver as coisas, o valor que damos a cada uma. O conhecimento muda nossa maneira de desejar.

É de Epiteto o pensamento “Somos como um cão amarrado numa carroça”. O cão somos nós, a corda é o determinismo que nos amarra aos acontecimentos necessários do mundo. Se a carroça desce um ladeira, nós descemos também, se ela vira para a direita, nós viramos também. Não dá pra parar o mundo, então por que desejar isso? Muito melhor é se perguntar: como fluir com ele?

A disciplina do desejo nos ensina a não ficar preso no acontecido, a fluir melhor com o rio de mudanças que é o universo. O tempo dos figos acabou? Pois bem, que venha o inverno então! O vento sopra ao contrário? Pois bem, viremos a vela. Estamos doentes? Logo estaremos saudáveis. Não ficar preso no passado, aprender a fluir com a maré dos acontecimentos que querem se efetuar agora, estejam a nosso favor ou não.

Sim, mais uma vez, os Estoicos, atletas da virtude, guerreiros do acontecimento, nos ensinando que o mundo é maior que nossa vontade e nos mostrando a melhor maneira de lidar com isso. Uma filosofia ligada com amor e coragem aos acontecimentos, como eles são, e como necessariamente deveriam ser.

Lembra-te de que fica tão mal estranhar que a figueira dê figos, como que o mundo dê os frutos de que é produtor. Igualmente ao médico e ao piloto fica mal estranharem que alguém tenha febre ou que um vento sopre contrário

Marco Aurélio, Meditações, Livro VIII, §15

Texto da série:

Meditações

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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cauãn benner
cauãn benner
5 meses atrás

Excelenteee! nao tem como, nao vibrar!

Rafael Medeiros
Rafael Medeiros
5 meses atrás

Cada vez q eu leio sobre os estoicos, mais parece q tô lendo um budismo ocidental 😂. Texto incrível! Parabéns