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A Servidão e as Paixões nos condenam a uma posição muito humilde. Afinal, quantas vezes não somos obrigados a contemplar nossa própria impotência? Pois é, as nossas limitações nos forçam a viver em um mundo muito maior do que nós, o que nos obriga a realizar diversas vezes, a contragosto, maus encontros.

O Mau Encontro é isso, quando o mundo nos passa a perna. Quando um encontro nos decompõe, quando ele simplesmente não convém com a configuração de nosso corpo, quando não nos ajuda a nos conservar em nosso ser, e não nos ajuda a prosperar em nossa potência de afetar e ser afetado. Pelo contrário, o mau encontro é aquele que diminui nossa capacidade de agir no mundo e desfavorece nossa potência de continuar existindo.

Ou seja, todo mau encontro é, no fim das contas, uma operação de subtração, um obstáculo, uma pedra no nosso caminho, o inconveniente que exige de nós mais um esforço de (re)existir. E o que é pior, ele infelizmente é necessário, porque faz parte de um ser finito ser levado de um lado para o outro por forças contrárias.

Pois é, o mau encontro é a relação necessária que não necessariamente convém com a nossa existência. Pode ser pontual, como a agulha que espetamos no dedo; ou duradouro, como o problema na coluna, a doença contraída; ou também pode ser ao nosso redor, o lugar, região, bairro em que moramos. Pode diminuir nossa potência, como perder o movimento de uma parte do corpo, ou apenas ser um atrito maior para chegar onde queremos chegar, como a subida escarpada da montanha.

De qualquer modo, depois de um mau encontro, nosso corpo e nossa mente foram lesados e passamos a poder menos. Deleuze usa a lógica da contaminação e da indigestão. São boas analogias: depois de contrairmos uma doença, depois de comermos uma comida estragada, a nossa vida pode menos, precisamos nos deitar e descansar, nos regenerar, resistir para continuar a existir.

Se tudo o que diminui a nossa potência é ruim, então, dirá Espinosa, “a tristeza será sempre diretamente má”. Não há outra definição. Por isso, viver sob as paixões tristes é viver sob o modelo da resistência. Em outras palavras, resistimos a tudo o que quer nos matar, nos diminuir. Todo mau encontro mobiliza a resistência do nosso conatus. Todo mau encontro cria ódio contra aquilo que nos prejudica, aversão contra aquilo que nos faz mal. Alegria (ou seria melhor dizer, alívio) de nos afastar daquilo. Enfim, toda dor e tristeza mobilizam nossa reação.

Não é complicado. Por exemplo, cair de bicicleta mobiliza nosso corpo a fechar o machucado, nossa pele e nossos ossos são soluções para nos prejudicarmos pouco; ficar doente mobiliza nosso corpo a fazer glóbulos brancos, resistimos aos vírus e bactérias aumentando a temperatura do corpo, dificultando que se reproduzam; se nos oprimem socialmente, nossas ideias se mobilizam para encontrar maneiras de lutar, procuramos aliados, argumentos e soluções (pacíficas ou não).

Somos forças que procuram dar conta dos maus encontros, diminuí-los. Pensamos para encontrar uma saída, para que o mal não seja tão mal assim. Ou seja, as dificuldades podem até nos fazer crescer. Lembrando de Nietzsche, “o que não nos mata nos fortalece”, ou a frase: “Tempo bom nunca fez bom marinheiro”. 

Mas a questão para Espinosa é: o bom marinheiro se faz apesar da tempestade! O mérito nunca é exatamente do tempo ruim, é do bom marinheiro. Aliás, quantos marinheiros morrem por não encontrarem um caminho apropriado! Como é triste pensar quantos maus encontros nos levam à morte.

Espinosa não faz rodeios: a tristeza é diretamente má, e resistir a ela é o que chamamos de bom. É apenas indiretamente que ela pode ser boa, e não é necessariamente. Voltando a Nietzsche: Como é preciso estar saudável para se estar doente. Em outras palavras, como é importante nos prepararmos para os maus encontros.

Por isso a importância do saber resistir, nem sempre saberemos o que fazer com nossas dores, nem sempre seremos capazes. Neste caso, a melancolia é o maior dos nossos perigos, ela é a potência em seu grau mínimo, e a desproporção em seu grau máximo. Ela é a quase incapacidade de continuar resistindo.

Aqueles que se suicidam têm o ânimo impotente e estão inteiramente dominados por causas exteriores e contrárias à sua natureza” – Espinosa, Ética IV, prop 18, esc

Em suma, dependendo da quantidade de maus encontros, a força de continuar se segurando na beira do precipício acaba, as forças exteriores nos carregam para além de nós mesmos. Ora, se a tristeza é boa porque alguém se suicidaria? Não há resposta! A tristeza é diretamente má e exige resistência, a melancolia, mais ainda. Ser triste sem saber resistir, sem a força do conatus, pode ser fatal

Espinosa diz, é sempre coagido por algo de fora que alguém se mata, é a paixão no seu grau máximo, a servidão absoluta. São os maus encontros nos forçando totalmente contra nós.

Podemos subir a escada que descemos com os maus encontros de duas maneiras: com a força da Razão ou com a ajuda da fortuna. Espinosa aposta na primeira, mas agradece a ajuda da segunda.

Texto da Série:

Ética

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Liana Genovez
Liana Genovez
23 dias atrás

Gente, parabéns pelo trabalho! O site está maneiríssimo.

Confesso que ficou um pouco difícil de encontrar os textos mais recentes publicados, já que na página inicial eles não aparecem mais por ordem cronológica. Como já li todos os textos do site, ficava mais fácil de acompanhar na medida que os novos eram publicados…

Grande abraço.