Albert Camus nasceu dia 7 de novembro de 1913 na Argélia, mais de um século atrás portanto. Em meio a uma infância cheia de dificuldades, obteve uma sólida formação em filosofia. Sua tese de doutorado, assim como a de Hannah Arendt, foi sobre Santo Agostinho. Foi impedido de se tornar professor pela tuberculose, doença que o acompanhou pelo resto de sua vida. Mesmo assim, participou ativamente como escritor em jornais revolucionários como o Alger Republicain e o Combat. Ficou conhecido em seu país natal como um militante de esquerda, particularmente na luta contra a segunda guerra mundial. Morreu cedo, com apenas 47 anos, mas deixou uma série de livros de literatura e filosofia, que tomaram grandes proporções ao longo do século XX.

Em vida, Camus publicou cerca de 20 livros, mas muita coisa foi publicada postumamente. “O Estrangeiro” (1942) foi um dos primeiros e mais importantes livros de sua carreira e rendeu, ao lado de “A Peste” (1942), o prêmio Nobel de literatura. Sua polêmica e breve amizade com Jean-Paul Sartre, que havia gostado e elogiado bastante os seus romances, é desta época. Mais tarde, com a publicação dos livros de filosofia, em especial “O Homem Revoltado”, os dois não só deixaram de se falar, como travaram uma pequena batalha, onde Sartre promoveu ao lado de alguns intelectuais franceses uma espécie de linchamento ao pensamento de Camus. Tudo baseado no fato de que Camus, em seu livro, questiona a legitimidade de movimentos revoltosos como as revoluções francesa e russa, além de criticar duramente o marxismo. Assim, por várias décadas, as teses de Camus foram taxadas de simplistas e conservadoras. Sartre, com toda sua influência no meio intelectual francês, não conseguiu submeter o pensamento de Camus; sorte a nossa, pois as duras críticas feitas à esquerda revelaram-se mais tarde como uma grande via para repensar a luta pelos direitos.

O renome de Camus não se restringe ao campo da filosofia e da literatura. Ele dirigiu várias peças de teatro, montou inclusive “Os Demônios” de Dostoiéviski e alguns de seus textos. Suas releituras teatrais inauguravam uma corrente mais tarde denominada estética do absurdo, à qual aderiram ninguém menos do que Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Colocar o absurdo em foco significava mostrar ao público a condição humana frente às guerras, a mortalidade, a pequenez diante do mundo. Conceito muito desenvolvido no livro “O Mito de Sísifo”, no qual o autor interpreta o famoso mito do semideus condenado a eternamente rolar a pedra para cima do monte e vê-la cair.

Trabalhar é criar ´para nada´, esculpir com barro, saber que sua criação não tem futuro, ver sua obra destruída em um dia, consciente de que, em profundidade, isso não tem mais importância do que edificar para séculos —eis a difícil sabedoria que o pensamento absurdo preconiza.  Levar adiante simultaneamente essas duas tarefas, negar de um lado e exaltar do outro, é a trilha que se abre para o criador absurdo. Ele tem de lançar suas cores no vazio.” – O mito de Sísifo.

Albert Camus é um autor subestimado. Sua paixão pelas artes; sua aproximação dos pensamentos de Nietzsche e Stirner; sua afirmação plena da vida; sua revolta valorosa; seus escritos prodigiosos; sua negação do assassínio;  sua busca pelo além do niilismo, são motivos de sobra para o resgatarmos.

Textos sobre Camus publicados pelo Razão Inadequada:

1. Séries: O homem revoltado

2. O Mito de Sísifo / Le mythe de Sisyphe

3. Uma definição de Terror

3 comentários

  1. Sartre era tão impregnado pelo marxismo (depois maoísmo) que não poderia escapar à nefasta influência do totalitarismo no campo das idéias. Sartre é um câncer aqui na França, pois todo pseudo intelectual que se preze adora vomitar sua retórica marxista como a quintessência do pensamento. Ao passar pelo cemitério de Montparnasse vale a pena cuspir em sua sepultura.

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