“A mitologia diz que os deuses invejam nossa mortalidade. Nossa mortalidade é o que torna a vida preciosa e algo para ser saboreado. Compelidos pela pressão do tempo para atingir a grandiosidade, talvez a nossa mortalidade proporcione a nossa humanidade. Mas enquanto formos mortais, nunca deixaremos de sonhar com a vida eterna. Isso também, é o que nos torna humanos.” – Morgan Freeman, retirado da série “Through the Wormhole“.

Na manhã de meu aniversário, vários pensamentos me vêm à cabeça. Datas simbólicas sempre nos fazem pensar. Dentre todos os pensamentos, um salta acima de todos: como a vida pode ser boa! Sim, absolutamente boa. Não quero morrer, quero viver! Não quero parar de sentir, não quero que a vida chegue ao fim! Quantos anos ainda tenho pela frente? Esta é uma questão que por vezes me consome. O problema não é o medo da morte, muito pelo contrário, é a vontade de vida!

André castellan bolhas coloridas
– foto de André Castellan

Tenho consciência de minha existência e algo em mim luta para continuar existindo. ue esforço perpétuo, contínuo, me surpreendo. “A vida é o conjunto de forças que resiste à morte” (Bichat). Quero continuar, persistir, quero estar aqui amanhã e sempre, vejo em todo meu ser esta luta para permanecer e conservar-se nele mesmo. E percebo que esta vontade de viver mais e mais nunca acaba, pelo contrário!, quanto mais eu vivo, mais eu quero viver, quanto mais eu experiencio a felicidade, com mais coragem enfrento a dor. Dor inevitável, mas suportável.

Não há nada que o homem livre  pense menos que na morte, e sua sabedoria não consiste na meditação da morte, mas da vida” – Espinosa, Ética IV, prop. 67

A filosofia não nasce da morte, nasce da vida! Com que alegria constato isso. A força para viver e criar é o que nos leva a vencer o próprio niilismo e não cair no desespero! Temos necessidade de decidir se a vida merece ou não continuar. Eu digo sim! Mais uma vez! Então percebo, caso seja possível justificá-la, por que não para sempre? Uma justificativa com prazo de validade substituível mas interminável.

Não há nenhuma lei no universo que nos impeça de encontrar o segredo da longevidade, e talvez, o segredo a imortalidade” (Michio Kaku). Morremos porque a forma com a qual nossos átomos estão ordenados chega ao fim, se desarranja. As relações que nosso corpo estabelece entre si mesmo se desfaz e adquire novas relações com outras partes exteriores a nós. A morte nada mais é que a desordem de um sistema fechado chamado corpo. Mas caso um dia tenhamos meios para manter a ordem de nossos corpos, e então a chance de viver eternamente, deveríamos recusar?

Para que“, alguém vai perguntar, “viver para sempre?“. A resposta não precisa ficar no campo científico de uma existência eterna, mas talvez nos concentrarmos na eternidade de uma existência plena. Porque, como dizia Nietzsche, “toda alegria quer a eternidade!“. Estamos aqui, este momento entre duas faíscas chamadas nascimento e morte, nada mais do que isso. Temos, então, a possibilidade ética, mas também o prazer existencial, de fazê-lo da melhor maneira possível. Está é a confirmação máxima do Eterno Retorno, fazer da existência e da vida algo que valha a pena se repetir infinitas vezes.

A vida na verdade é um conjunto de vidas que se renovam e se multiplicam em nós. Ciclos, cada dia que passa somos capazes de afirmar a diferença em nós, temos a capacidade de nos metamorfosear. Um dia, um ano, uma década não é o bastante para nos tornarmos outros? Quando um ciclo acaba a vida morre em si mesma para renascer e se recriar. Estou falando de como tudo retorna, eternamente, mas sempre diferente! Participo desta potência de criação de mim mesmo, que me diferencia, e das várias vidas que passam por mim, sou causa ativa na minha diferenciação.

Toda existência supõe uma saída do nada com a única perspectiva de voltar a ele um dia” – Onfray

Sendo assim, concluo que o essencial é não morrer em vida, porque só existe esta realidade e só ela importa. Precisamos aprender a morrer na hora certa, como diz Nietzsche. Devemos aproveitar e estender tudo que se encontra no meio desse processo. Aprender a morrer e a nascer. Estar, sempre à altura dos acontecimentos. A busca pela eternidade é legítima, mas ela se dá na imanência. Afirmar a vida implica afirmá-la para sempre, sem restrições, em suas múltiplas facetas de dor e prazer. Não uma nem duas vezes, eternamente! A busca pela vida e pelo prazer, de alguma forma, engloba a busca pela eternidade, mas também a própria afirmação do que há de eterno em nós: o devir é eterno! E eterna é a luta da vida para manter-se, ampliar-se, recriar-se, efetuar-se!

Olhando para trás, vejo que tenho um ano a mais de vida e uma vela a mais para assoprar no bolo; olhando para o futuro, vejo que tenho um ano a menos de vida, e um tempo menor até dormir profundamente o sono eterno; olhando para o presente, percebo, e desta constatação me vêm lágrimas aos olhos, que sou eterno, e não há nada mais a fazer senão sorrir e comemorar.

Vós, homens superiores, aprendei pois, o prazer quer a eternidade – o prazer quer de todas as coisas a eternidade, quer profunda, profunda eternidade!” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra.

- foto de André Castellan
– foto de André Castellan

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

8 comentários

  1. “Sendo assim, o essencial é não morrer em vida…” Isso ressoou bem no fundo! Lindo o texto…Demais mesmo, sobram elogios! 🙂

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  2. “Todo mundo nasce, todo mundo cresce, você faz sucesso ou não, tem um filho ou não, constrói alguma coisa útil para a sociedade em que vive ou não e depois morre. Não necessariamente nesta ordem, e podendo já ter morrido em qualquer uma das etapas anteriores. Então se você quer ser original, ou você não nasce, ou você não morre. E como eu já nasci, o que eu estou tentando fazer aqui é não morrer.”

    Trecho de ‘Ficção’, de Luciana Paes, Cia Hiato

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  3. “A vida na verdade é um conjunto de vidas que se renovam e se multiplicam em nós. Cada dia que passa somos capazes de afirmar a diferença em nós, temos a capacidade de nos metamorfosear. Um ano, uma década não é o bastante para nos tornarmos outros? A vida morre em si mesma para renascer e se recriar. Participo desta potência de criação de mim mesmo e das várias vidas que passam por mim, sou causa ativa na minha diferenciação.” !!!!!!!
    Essa é a afirmação do momento, com muitas exclamações!!!
    (Só pq eu comentei em 2013 e em 2014. E em 2015: e sigamos criando novos passos e aproveitando a dança !!! <3!!

    Curtido por 1 pessoa

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