Depois do texto sobre a relação entre mente e corpo para Espinosa (veja aqui), gostaríamos de pensar um pouco sobre uma de suas mais importantes perguntas: “o que pode o corpo?”. Essa pergunta não foi diretamente formulada pelo filósofo, mas sim por uma de seus principais comentadores: Deleuze.

Esta é o grito de guerra de Espinosa, retornar ao corpo, repensar nossa relação com ele. Na verdade a pergunta da Espinosa é dupla: qual é a estrutura de um corpo, e dada esta estrutura, o que está em seu poder? Se ele não é passivo, se ele não é instrumento da alma nem mero objeto negligenciável, então cabe a nós refletir sobre qual o seu lugar dentro da filosofia e como nós podemos entendê-lo.

O fato é que ninguém determinou, até agora, o que pode o corpo, isto é, a experiência a ninguém ensinou, até agora, o que o corpo – exclusivamente pelas leis da natureza enquanto considerada apenas corporalmente, sem que seja determinado pela mente – pode e o que não pode fazer” – Espinosa – Ética III, Prop. 2

- Antony Gormley
– Antony Gormley

Esta pergunta precisa ser levada até suas últimas consequências: o que pode realmente um corpo? Podemos pensar em vários exemplos: alguns savantes são pessoas que possuem uma hiper capacidade de memorização e processamento de dados. Existem monges budistas capazes de aumentar conscientemente a sua temperatura corporal e resistência à dor. Existe também o relato pessoal de uma cientista que teve um derrame no hemisfério esquerdo e entrou em estado de Nirvana. Ou até mesmo o exemplo clássico da mãe que levanta um ônibus para salvar seu bebê.

Tudo isso mostra que somos máquinas incríveis. Como costumam dizer que usamos apenas 2% do cérebro, nos arriscaríamos a dizer que usamos apenas 2% do corpo, porque simplesmente não sabemos ainda o que pode um corpo. Enquanto você lê, por exemplo, suas células se dividem, seu coração bate, seu pulmão se enche de ar. Há uma força em nós que está para muito além da mente consciente, tudo acontece em plena harmonia sem nem ao menos nos darmos conta disso.

Nosso corpo dança um movimento ritmado. Mesmo o corpo parado dança: as veias pulsam, o coração dá o ritmo, os olhos piscam em contra-canto, a melodia dos órgãos não é ouvida porque passamos a vida inteira imersos em sua sinfonia. E talvez esse seja o problema, nos esquecemos de nós mesmos. Não está na hora de nos procurarmos?

Este corpo que se esforça para tornar-se mais forte, mais apto à regenerar suas partes, de acordo com sua capacidade de transformação e relação plural com o mundo externo. A pele  é limite que separa o homem do mundo que o cerca, mas vivemos desta troca com o mundo que nos cerca. Quanto mais amplo seus modos de agir, quanto mais complexo movimentos, maior serão suas afecções. Por ser muito complexo, o corpo humano é capaz de muitas coisas, por ser composto por várias partes ele é capaz de ser afetado de muitas formas e agir de muitas formas. O corpo é um leque de possibilidades. Mas atualmente ele está separado de sua capacidade de ser afetado, seus poros estão entupidos.

A pergunta pode ser ainda mais específica: o que pode o teu corpo? Que sensações você já experimentou, já que você mexe tanto com seu corpo? Ou será que já experimentamos o bastante? Nos encontramos primeiramente cansados demais para experimentar, e mesmo que não estivéssemos, já nos tornaram desconfiados demais para tentar!

- Antony Gormley
– Antony Gormley

Experimentar no sentido de apropriar-se do real, amor-fati, reaprender a não esconder-se do que nos acontece, não virar a cara. Saber experimentar não acontece em quantidade, mas em qualidade. Só será possível nos reapropriar-nos do mundo quando reapropriar-nos de nós mesmos. Muitos morrem sem jamais saber do que são capazes, sem jamais se surpreenderem com seu próprio corpo. “Então eu sabia/podia fazer isso?”. Sim, a única saída é o re-investimento em si mesmo, retomar um cuidado de si.

Valorizar o corpo significa valorizar a vida que trago em mim, ele não é suporte para outras coisas, ele é tudo que temos. Podemos defini-lo quantitativamente: ele vale o quanto pode. Exatamente, ele é definido exclusivamente por sua potência, conatus, e sempre efetua suas possibilidades ao máximo. Você não consegue, não tem coragem, não tem capacidade? Não podemos julgar, não podemos culpar, cada um sabe de si, mas temos alternativas, possibilidades.

A estrutura de um corpo é a composição da sua relação. O que pode um corpo é a natureza e os limites do seu poder de ser afetado” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão p. 147

O corpo é feito de um constante equilíbrio em desequilíbrio. Ele está em movimento, suas partes entram em relação centrífuga e centrípeta, mas ele mantém suas proporções e se transforma lentamente sem perder a identidade. O corpo está longe de ser uma unidade isolado, muito pelo contrário, ele depende das partes exteriores para manter-se, há uma intercoporeidade entre suas partes internas e outras partes externas.

Como podemos nos potencializar? A resposta de Espinosa é clara: na experimentação, nas relações. Encontrar um ambiente favorável, um clima favorável, uma companhia que lhe convém, refeições que lhe façam bem. A potência é o que define seu corpo, este é constantemente afetado e estes afetos aumentam a potência, alegria, ou a diminuem, tristeza. Toda esta relação entre os indivíduos gera bons ou maus encontros. Eles aumentam ou diminuem nossa perfeição. Nos modificam e ao mesmo tempo aumentam nossa capacidade de ser novamente afetado (veja mais aqui).

Por exemplo: a semente cresce na relação com a terra, ela cresce com o sol, ela troca gases com o ar. Se ela não brota, a culpa não é da semente, nem do solo. A relação é a base de tudo. Por que a semente não se compõe com a terra? Não sabemos, não cabe a n[os julgar ou procurar culpados porque certamente é algo que aconteceu na relação, podemos apenas dizer que esta relação não floresceu. Mas quando dá certo, a semente passa a ser um canal, uma porta pela qual a terra e água se transformam em uma majestosa árvore. As relações que a semente estabelece com a terra criam uma árvore, isto é o que pode o corpo da semente.

Nossa capacidade de sermos preenchidos por afecções passivas não dizem nada de nossa essência, porque não somos causa dela, somos apenas o resultado de algo que nos acontece. Ou seja, paixões tristes não dizem nada sobre nossa essência. Já as paixões alegres dizem algo, falam do que há de comum entre os corpos. Tristes estamos separados de nossa essência, somos o que não somos; alegres tornamo-nos o que somos e adquirimos a capacidade de transmutação.

É ele [o corpo], portanto, que se esforça para extrair encontros do acaso e, no encadeamento das paixões tristes, organizar os bons encontros, compor sua relações com relações que combinam diretamente com a sua, unir-se com aquilo que convém com ele por natureza, formar associação sensata entre os homens; tudo isso, de maneira a ser afetado pela alegria [… o] homem livre e sensato, identifica o esforço da razão com essa arte de organizar encontros, ou de formar uma totalidade nas relações que se compõem” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 180

- Antony Gormley
– Antony Gormley

As possibilidades são infinitas, ainda que o corpo seja passivo em muitas coisas e muitas coisas superem sua potência (veja mais aqui). Há apenas dois problemas: quando morremos cedo e não temos a chance de nos desenvolver, apropriarmo-nos de nós mesmos, encontrar as melhores relações para nos potencializar; ou quando estamos submetidos aos fatores externos, quase sempre morais, que nos coagem e enfraquecem.

Aquele que tem um corpo capaz de muitas coisas, tem uma mente que, considerada em si mesma, possui uma grande consciência de si, de Deus e das coisas. Assim, esforçamo-nos, nesta vida, sobretudo, para que o corpo de nossa infância se transforme, tanto quanto o permite a sua natureza e tanto quanto lhe seja conveniente, em um outro corpo, que seja capaz de muitas coisas e que esteja referido a uma mente que tenha extrema consciência de si mesma, de Deus e das coisas” – Espinosa, Ética V, Prop. 39, esc.

Criar um corpo ético, não moral (ver aqui). Criar um corpo que experimenta e pode cada vez mais, um corpo que escolhe tudo o que lhe convém sempre da melhor maneira possível, um corpo feliz, satisfeito, realizado. Deixar definitivamente esta corporeidade moral, que julga, cultua, edipianiza, idealiza, esquece de si, se despreza, tem nojo, medo, vergonha. É possível abrir todo um novo plano de sensações novas dentro de nós, um novo topos, um nova região.

O corpo visto como geografia, não como história. O corpo que experimenta, não que interpreta. Isso torna as possibilidades infinitas, cada nova experiência abre uma porta inédita, nunca antes explorada. Na relação, quando nos modificamos automaticamente, nossa essência se atualiza. Viver é estar em relação e criar organizações corporais totalmente novas, inéditas, impensadas, há pouco impossíveis, e muito melhores que estas que nos ofereceram.

Daí a importância da questão ética: Nem mesmo sabemos o que pode um corpo, diz Espinosa. Ou seja: Nem mesmo sabemos de que afecções somos capazes, nem até onde vai nossa potência. Como poderíamos saber isso com antecedência? Desde o começo da nossa existência, somos necessariamente preenchidos por afecções passivas” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão p. 153

Só quem está cansado do corpo, ou tem um corpo (ou uma mente) doente, pode inventar outros mundos ou falar de espíritos (veja aqui). Para se esquecer do corpo, ou menosprezá-lo, muitos se fingiram de filósofos e compactuaram para denegri-lo. Será então que a Ética de Espinosa não é toda uma maneira nova de pensar o corpo? Uma terapêutica dos afetos buscando aumentar o conhecimento e a perfeição do homem? Podemos até mesmo pensar em uma psicologia espinosana. O corpo que volta a experienciar o real é aquele também que pode libertar-se! Muitos filósofos se perguntaram como salvar a alma, e muitos padres se fingiram de filósofo para tentar salvar o homem. Mas quem salvará o corpo? Talvez Espinosa…

O impressionante é o corpo. Isso quer dizer o que? É uma reação de certos filósofos que dizem: escutem, parem com a alma, com a consciência, etc.  Você deveriam antes tentar ver um pouco, de início, o que pode o corpo. O que é…? Não sabem nem mesmo o que é um corpo e vêm falar da alma. Então não, é preciso ultrapassar” – Deleuze, Curso sobre Spinoza

eduardo galeano

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

25 comentários

  1. Estou usando este texto como fonte de pesquisa para o meu projeto de tcc. Como me ajudou, e que visão ampla da potencialização do corpo. Parabéns pela sensibilidade e olhar atento aos movimentos corporais!

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  2. muito bom o texto, o corpo ainda é massacrado pelas leis, dogmas e preconceitos… não o conhecemos…Sou Artista Plástica e trabalho na recuperação de crianças e adolescentes usuários de drogas com teatro e arte… e esse tema me fascina… “o corpo é o último que se perdoa”. Platão

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  3. Ótimo texto. Apenas para pontuar uma questão, quando você diz que caberia uma Psicologia espinozana, digo que já a temos. A abordagem Esquizoanalista esta ligada diretamente ao pensamento de Espinosa. Sobretudo através do próprio Deleuze. Abraço, parabéns pelo texto e o blog.

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  4. Belo texto. Gostei muito das suas pontuações a cerca do corpo e sua possibilidade. Eu acredito (como também se acredita em várias culturas orientais) no processo de se entender corpo sem dicotomias. Logo, o corpo saudável seria aquele que imerso em estados de experimentação consegue experimentar as várias camadas que o corpo pode oferecer. Sendo assim quando você coloca: “Só quem está cansado do corpo, ou tem um corpo (ou uma mente) doente, pode inventar outros mundos ou falar de espíritos (veja aqui). Para se esquecer do corpo, ou menosprezá-lo, muitos se fingiram de filósofos e compactuaram para denegri-lo.” Acredito que ainda está numa visão fragmentária do que seria o corpo em si. Descartando em si a possibilidade de alma, que seria por sua vez uma outra camada do corpo. Mente corpo espírito voz andam juntam. Esse processo de fragmentação está intrínseco na nossa cultura desde 1700 com a utilização da guilhotina, conforme aponta Eliane em o Corpo Impossível. Experimente questionar-se o máximo quando o assunto ainda é um tabu na nossa cultura ocidental. No mais, belas colocações.

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  5. O que pode o Corpo?
    Poderá a alma
    escrever versos de suas andanças
    Em parceria com o corpo?

    Poderá o corpo escrever
    Versos falando de sua marcas
    Mesmo que somente cravadas na alma?
    Pode o corpo pular os arames
    E ainda estrupiado
    Cantar novas manhãs?
    Pode ele fazer
    De todos os momentos
    Novas Manhãs?
    Ou será imprescindível,
    Que mesmo podendo,
    Ele espere a chegada da Nova Era ?
    Ele também deve poder
    Rogar murmúrios aos céus
    Quando novamente
    Estiver na cruz
    Ira Jogar de bola,
    tocar violão, amontoar impressões,
    Criar cascos nós pés
    E também será de seu direito
    Se auto aniquilar compassada
    Ou instantaneamente.
    O fato porém,
    É Que ainda que faça
    O corpo se pergunta :
    Quem pode?
    Move a tudo
    Mas quando o assunto
    É a meta
    Ele entrega o ouro
    E deixa que quem explique seja o outro
    A Igreja sabendo disso
    Dispõem de todos os seus artifícios
    Distorcendo conforme a vontade
    O sentidos dos ensinamentos
    Seu modelo fala de um corpo
    Esquartejado, Preso em madeiras
    Agonizando aos 30
    Por agir como um digno homem
    Tal momento
    Passou no calendário
    A fazer a contagem do tempo
    E em sua memória
    Pregam-lhe junto ao relógio
    NA paredes de escolas, hospitais, botequins e escritórios.
    E assim como as delícias
    Podem esconder o veneno
    Também a imagem nuca é por si só
    RETROALIMENTAÇÂO
    É como chamo as manchete
    Dos jornais
    Que junto ao som dos talheres
    Compõem a sinfonia para
    Dança deste corpo socioaterrorizado
    Mas acredito
    Que ainda exista neste mundo
    lugares para o seres de boa vontade
    E confesso carrissim@:
    Tenho tido a impressão
    Que de fato tal espaço não é se não ele.
    Pois que mesmo transcendendo
    à outras esferas,
    Só poderia lá chegar
    Se assim também meu corpo agir.
    Talvez por isso
    É Sempre bom lembrar:
    É preciso presença!
    Pois que o corpo não deve
    Ser um espantalho que faz vigília
    Para a vastidão da alma.
    Já que assim
    Ficará entregue as intempéries,
    E mesmo nos mais belos dias ensolarados
    Lhe cavucarão os bicos das aves
    E na mínima fagulha
    Se verá em chamas.
    O corpo é sim
    O legítimo espaço sagrado
    Para onde se deve dirigir
    As perguntas sobre
    A origem das tormentas
    E a alma, por sua vez
    Compõem a energia motriz
    Que quanto mais bem calibrada
    Tanto melhor guiará o corpo
    No rumores dessa diligência.
    Enquanto espantalhos
    Nós será conveniente
    Fazer de nosso corpo
    Um moeda para troca no mercado dos prazes.
    Enalteceremos a vida
    quando em determinados espaços
    Brindaremos copos de cerveja
    Pagas com o dinheiro de uma Rotina,
    Dependente das decisões de um Estado.
    ROTINA
    Essa é a famigerada palavra,
    Sinónimo de lamento para muitos
    Mas a menina dos olhos do capital.
    Como é possível
    Que todo esse tempo
    Aceitemos ter que entregar a horas de nossas vidas
    A realizar funções
    Que quando não são
    Peso para papel
    São os vermes que reviram
    Nossas mentes
    Nos tirando do dicionário as palavras:
    Saúde, Alegria e Sono?
    Sim Deveras
    Comida e Água são as essências
    Mas quando será que
    Conseguirei perceber
    Que tato menos posso
    Com aquilo que me enfraquece.
    Será da escolha levar
    A vida por essa prática,
    Mas também será justo
    Que quando banhado em prantos
    O Divino me entre a porta
    E antes que me cure pergunte:
    Meu irmão por que você está vivendo assim?
    Foi para isso que lhe fiz do Barro?
    Se somente assim sabes agir
    Então também para lá voltará.
    Até que consiga estar Digno
    Em habitar no corpo que tem
    Se haverão outras vida?
    Qual o Karma que tenho para pagar nesta?
    Nibirú, NASA, Budismo e Pneu de caminhão
    ….
    De nada valerá
    Meus conhecimentos adquiridos
    Se não me entender enquanto potência.
    E que mesmo alojado em um maca
    Ou ainda que mantido preso junto aos porcos
    Sou o próprio que conheço
    Os passos da dança do Maestro
    Que rege pelo corpo
    Tudo o que posso

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    1. É bom ver que o corpo fala e nos dá dicas incríveis de nossa essência, de nossos descaminhos e de nosso equilíbrio em desequilíbrio !

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    1. Misty, temos sugestões de leitura lá na página inicial do Espinosa, a Biografia. Dá uma olhada, tem várias coisas. Boas Leituras

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