O Homem Louco – […] Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmo nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então” – Nietzsche, Gaia Ciência, §125

Esta talvez seja a frase mais famosa e incompreendida de Nietzsche: “Deus está morto!”. Por que ele disse tais palavras? Para um homem cujo ateísmo era convicto, não fazia sentido anunciar a morte de algo em que não acreditava. Nietzsche anuncia sua descoberta não como uma constatação científica, mas como um estrondo que abalará toda a cultura europeia. A grande razão para tal declaração tem motivos éticos e históricos.

Através desta famosa afirmação Nietzsche procura condensar o espírito de sua época. O filósofo faz um diagnóstico da cultura de seu tempo e denuncia o niilismo em que a Europa estava mergulhada. Não interessa se Deus existe ou não, o que Nietzsche afirma é que a influência da religião em nossas vidas é cada vez menor. A igreja, os mitos, as ideias, os ritos, a moral por trás da teologia, tudo isso está enfraquecendo e desaparecendo. Não só a religião, mas a crença em seus valores metafísicos, a crença em verdades últimas, a crença no Bem, Belo e Verdadeiro. Não temos mais medo de deus, ele é fraco, ele é a criação de um povo impotente, sofredor, buscando refúgio. O niilismo negativo dá conta de mostrar que a criação de um Deus pode ser sintoma de uma vontade doente, triste.

Deus está morto como uma verdade eterna, como um ser que controla e conduz o mundo, como um pai bondoso que justifica os acontecimentos, como sentido último da existência. A secularização da civilização prova isso cada vez mais. Deus está morto como um grande ditador divino que exige obediência de seus servos. Ele já não é uma questão importante para se tratar, ele já não é uma pergunta para a qual procuramos respostas.

A morte dos ideais divinos, o início da morte desta doença chamada cristianismo é uma constatação nietzschiana. “Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem!“. O sentido está perdido, a Verdade Eterna está acabada, de agora em diante precisamos encarar o caos do mundo à nossa frente, tudo é Vontade de Potência. Todo idealismo e platonismo estão se perdendo, por isso enfrentamos um grande perigo do niilismo: estamos perdidos sem justificações supra-sensíveis e não sabemos para onde ir.

Christ of Saint John of the Cross
Christ of Saint John of the Cross – Salvador Dali

O primeiro momento da morte de Deus se dá com o niilismo reativo. Não sabemos o que fazer, como proceder, não sabemos mais o que é certo e errado sem um padre ou um livro velho para nos guiar. “Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos?“. A falta de referencial externo é desesperador para o homem, ele fica aterrorizado diante do mundo. Procura novos deuses para obedecer, passa então a buscar qualquer coisa para se segurar: razão, humanismo, ciência, Leis. Deus morreu, mas ainda velamos seu corpo em várias outras práticas que não encontram justificativa no próprio mundo, mas em outros lugares. A fé virou razão, a dona da verdade é a Ciência, nossa nova religião é o progresso do homem, o bem comum.

Mas como pode um homem matar Deus? A criação de um ser superior, que adoramos e prestamos obediência se eleva até os céus e volta como um meteoro, destruindo tudo à nossa volta: Deus e o homem morrem juntos. Deus é criação e testemunha da feiura humana, ele é sintoma da doença da Vontade que o homem carrega. A morte de Deus pode levar o último dos homem, aquele que se recusa a morrer, a sucumbir ao niilismo passivo. Nada mais vale a pena, nada mais tem valor! Ele se pergunta: “a grandeza desse ato não é demasiado grande para nós?”. A dor de matar Deus e arrepender-se consome o homem, ele se arrepende, mas não há mais para onde voltar.

A única alternativa frente a esse niilismo passivo é tomarmos as rédeas da situação e fazer deste niilismo um novo modo de vida. “Nietzsche diz que o importante não é a notícia de que deus está morto, mas o tempo que ela leva a dar seus frutos” (Deleuze, Anti-Édipo). A morte de Deus é condição necessária, mas não suficiente para a criação de novos valores. Como suportar a morte de Deus sem sucumbir ao niilismo? “Com que água poderíamos nos lavar?”. Nietzsche nos dá a resposta: o Eterno Retorno. Sim apenas o pensamento seletivo do Eterno Retorno nos absolve da morte de Deus. Esse deicídio não significa jogar todos os valores para o alto, ele implica diretamente uma transvaloração de todos os valores, um niilismo ativo. O Eterno Retorno é o contrapeso, o remédio é amargo! É possível salvar o doente?

É só com a morte de Deus e o pensamento do Eterno Retorno que temos finalmente a chance de criar novos e autênticos valores para nós. Apenas os “espíritos livres” conseguem dançar neste velório. Sem ninguém para dizer o que é certo e errado, bem ou mal, temos plena liberdade para decidir por nós mesmos, criar novos valores. Adquirimos agora a responsabilidade e a felicidade de sermos autores de nossa própria vida. Um mar de possibilidades se abriu!

Se o homem não quiser perecer nas dificuldades que o sufocam, será preciso que as desfaça de um só golpe criando os seus próprios valores. A morte de Deus não dá nada por terminado e só pode ser vivida com a condição de preparar uma ressurreição” – Camus, O Homem Revoltado

O niilismo ativo, último estágio do niilismo, é o grande momento esperado por Nietzsche. Ele pergunta: “Não deveríamos nós mesmo nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?” Claro que sim! Qual foi o grande ato de deus? A criação! Somente se nos tornarmos criadores seremos dignos da morte de Deus!

Todos os deuses devem morrer e das cinzas devemos extrair novos valores. Aí está o valor da morte de Deus. Mesmo que ele exista, é importante que nós o matemos, para andar com nossas próprias pernas. Somos o filho que cresceu e quer agora libertar-se. Não podemos mais nos esconder atrás da sombra divina e dizer “Deus quis assim”. A responsabilidade agora é toda nossa, para desfazer as verdades antigas e criarmos novas e melhores formas de dizer sim à vida.

De fato, nós, filósofos e ‘espíritos livres’, ante a notícia de que ‘o Velho Deus morreu” nos sentimos como iluminados por uma nova aurora; nosso coração transborda de gratidão, espanto, pressentimento, expectativa – enfim o horizonte nos aparece novamente livre, embora não esteja limpo, enfim os nossos barcos podem novamente zarpar ao encontro de todo perigo, novamente é permitida toda a ousadia de quem busca o conhecimento, o mar, o nosso mar, está novamente aberto, e provavelmente nunca houve tanto ‘mar aberto’“ – Nietzsche, Gaia Ciência, §343

Cristo Hipercubo, de Salvador Dali
Cristo Hipercubo, de Salvador Dali

> para ler mais textos sobre Nietzsche, clique aqui <

> leia também os textos da série: 4 formas de niilismo <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

127 comentários

  1. Mas qual o conceito de Deus que o ateu tem? Todo ateu quando pensa em Deus está pensando em um ser transcendente, fundamento último de toda realidade e o Ser que dá sentido as existências individuais. Dizer Deus não existe significa dizer nada existe, a realidade não existe, pois se o fundamento de tudo o que existe não existe a realidade não pode existir. No nível da existência individual se o Ser que dá sentido a existência humana não existe, a vida é absurdo e não tem nenhum sentido. Dizer que é ateu é fácil, difícil, aliás impossível é pensar coerentemente como ateu e viver coerentemente como ateu. O ateísmo é impossível e, inclusive Marx escreveu que o ateísmo somente será possível quando o próprio conceito de Deus desaparecer. Mas, o conceito de Deus não desapareceu e os ateus são a maior demostração disso.

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    1. Lorivaldo, um ateu pode simplesmente substituir Deus por um outro ídolo qualquer, como é o comunismo (paraíso terrestre). Ser ateu para Nietzsche não lhe garante o niilismo ativo; onde é justamente nesse momento que a arte e vontade de criar, vontade de potência, toma conta. O Eterno Retorno e o Amor Fati são as chaves para não se sucumbir ao desespero do niilismo passivo. Em outras palavras: Nietzsche quer fazer da vida uma obra de arte totalmente livre de todo ressentimento, onde só aí poderemos criar novos valores. “Perder a mim para vos encontrardes, e quando todos vós tiverdes me renegado é que haverei de voltar a vós.” Ecce Homo

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