“[…] quando falo de Platão, de Pascal, de Espinosa e de Goethe, sei que o seu sangue circula em minhas veias” Nietzsche, Fragmentos Póstumos

Estabelecer uma comparação entre Pascal e Nietzsche é, antes de tudo, ir para além do que ambos representam na obviedade do senso comum, isto é, tentar enxergar neles algo que ultrapasse, de um lado, a figura do “cristão perfeito” e, de outro, a do “anticristo”.  Há quem coloque Nietzsche como herdeiro longínquo de Pascal (Gérard Lebrun, Charles Andler, Leveille-Mourin) e há quem diga que a comparação entre os dois deixa de lado o essencial em ambos (Deleuze). Fato é que existem mais semelhanças do que possamos suspeitar de início. Uma comparação entre eles será proveitosa na medida em que respeitemos também suas diferenças.

Quando o assunto é Pascal, uma dupla reação perpassa a obra de Nietzsche: uma profunda admiração por seu gênio e, o que é mais comum, uma crítica violenta ao cristianismo representado por ele. Mais do que uma crítica, Nietzsche tem em Pascal o exemplo vivo, o “único cristão lógico” (Aurora 68), aquele que realizou com lucidez a inversão das significações. Pascal é para Nietzsche como um modelo vivo é para o pintor: o amor pela vida que Pascal irá sacrificar para se devotar a Deus consiste, para Nietzsche, em uma terrível consequência própria ao cristianismo, a saber, levar à ruína almas fortes e belas, como a de Pascal. (Vontade de Potência)

Entretanto, é exagerado ver em Pascal apenas uma alma invalidada pela doutrina cristã, especificamente agostiniana. O próprio Nietzsche ultrapassa essa visão em um aforismo intitulado desejando adversários perfeitos (192), onde resalta os atributos de um cristianismo que se tornou humano na figura de Pascal, que reunia “fervor, espírito e probidade”. Não sejamos injustos demais, Pascal não é apenas um devoto submisso, é antes de tudo um pensador que procurou incansavelmente uma chave de interpretação para o mundo, e o cristianismo a forneceu através do pecado original. É por isso mesmo um ótimo exemplo do emprego dos valores cristãos na filosofia, na política e na ciência. Deixemos de lado a grande oposição entre eles e passemos às semelhanças:

1 – O estilo aforístico: Os livros mais profundos e mais inesgotáveis terão sem dúvida sempre algo do caráter aforístico e súbito dos Pensamentos de Pascal. (Nietzsche, Fragmentos Póstumos)

Um traço que definitivamente une os dois autores é o discurso por aforismos, trechos que não seguem a ordem metódica da dissertação, mas que contemplam, segundo Pascal, os “pensamentos surgidos da conversação ordinária da vida” (fragmento 18 bis). Nietzsche, por sua vez, nos diz no prólogo a sua Genealogia da Moral: “Bem cunhado e moldado, um aforismo não foi ainda “decifrado” ao ser apenas lido: deve ter início, então, a sua interpretação, para a qual se requer uma arte da interpretação. Importante é notar que a utilização do aforismos por eles é mais do que um mero estilo comum, é uma forma condensada que esconde algo mais profundo, um sentido oculto, que resiste ao discurso racional convencional de suas épocas. O que Leveille-mourin chama de l’espace aforistique é uma necessidade das filosofias de ambos os autores. O aforismo é um espaço novo e necessário que não se regula por nenhuma lógica de identidade, nenhum princípio organizador único, nenhuma ordem preestabelecida, que é a expressão mesma de uma verdade fragmentada.

2 – Crítica à razão: o intuicionismo é uma filosofia humana, demasiado humana. (Lebrun)

Pascal e Nietzsche são críticos da razão moderna e recusam com veemência o modelo de racionalidade representado por Descartes. “É uma doença natural do homem julgar que ele possui a verdade diretamente” (Pascal, Do espírito geométrico). Uma questão fundamental na apologia cristã de Pascal é humilhar a razão prepotente. A percepção dos primeiros princípios certos e indubitáveis, aquele golpe de vista que é o intuitus cartesiano é apenas uma invenção filosófica, uma razão delirante que esqueceu sua condição de finitude. Para Pascal, o campo da certeza é mais amplo que o da demonstração. A razão, se tomada separada do coração, tem limites bem estreitos. Nietzsche também não perdoa Descartes. “A razão na linguagem: oh, que velha e enganadora senhora!” (Crepúsculo dos ídolos, p.28). Para ele, a gramática nos induz aos erros da intuição racional, só dizemos “penso, existo” porque gramaticalmente somos levados a distanciar o sujeito do verbo. Enxergando Descartes como inimigo comum de Pascal e Nietzsche, percebe-se sem muito esforço a crítica à razão exercida por eles.

3 – Perspectivismo: o mundo tornou-se novamente infinito para nós: na medida em que não podemos rejeitar a possibilidade de que ele encerre infinitas interpretações. (Gaia Ciência, 374)

Quando tratam da possibilidade de conhecimento, Pascal e Nietzsche tem uma posição comum ainda que fundamentadas em uma oposição. Para ambos, o homem não pode ter certeza sobre os fatos que o rodeiam, não existem verdades dadas, há apenas perspectivas que podem estar mais ou menos alinhadas com a realidade, mas nunca “saberes absolutos”. O que os opõe é o fato de que para Nietzsche, tudo é interpretação e em sua filosofia madura não se encontra pretensão veritativa; enquanto para Pascal a verdade última é inapreensível neste mundo, dada nossa condição degenerada, mas existe em Deus.

É semelhante também a avaliação da condição decaída do homem, em Nietzsche, o niilismo europeu e, em Pascal, o eu odioso; o questionamento da justiça, a separação insuperável entre igreja e mundo, a guerra intestinal entre razão e instinto, entre outras.

O projeto de comparar os dois autores é bastante conflituoso – e como não haveria de ser? Mas mesmo que cheguemos a um ponto limítrofe, parece ainda assim proveitosa a comparação, pois através dela podemos aprender um pouco mais sobre algumas das grandes temáticas da filosofia moderna.

Neste sentido, Lebrun nos aponta uma semelhança de incrível pertinência: que Pascal tenha falado, ele também, na sombra de um Deus morto (o “dos filósofos e dos sábios”), não deram atenção suficiente (p.123). Através da crítica à razão, Pascal atingiu em cheio o Deus perfeitíssimo de Descartes, a causa sui de Espinosa … O que nos força a admitir que Pascal e Nietzsche foram portadores de uma mesma novidade ainda que em domínios diferentes: a saber, a da morte de Deus. Eis mais uma de suas semelhanças.

Ps: Escrevi um artigo no qual desenvolvo um pouco as três semelhanças aqui destacadas. Havendo interesse, entre em contato ou deixe o e-mail que, havendo concordância em não publicá-lo, eu envio.

Pascal-Nietzsche

Referências bibliográficas

Brum, J. T. Pascal e Nietzsche, Cadernos Nietzsche n.8, 2000

Deleuze, G. Nietzsche e la philosophie, Paris, PUF, 1962

Lebrun, G. Blaise Pascal : voltas, desvios e reviravoltas, Brasiliense, 1983

Leveille-mourin, G. Le langage chrétien, antichrétien de la transcendence : Pascal-Nietzsche, Paris, Vrin, 1978

>> Este texto faz parte da série Sobreposições e Justaposições <<

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

17 comentários

    1. Li o artigo sim, Courbet. Assim como vários outros. E fiz a minha dissertação, que é bem maior do que este texto. Mas, aqui no blog não temos o costume de citar fontes secundárias. É um costume anti-acadêmico, o conhecimento é livre. Abs.

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