Nietzsche,-Buda,-Schopenhauer

O budismo, que para todos os fins trataremos aqui por uma filosofia, tem semelhanças incríveis com o pensamento de Schopenhauer. O filósofo foi muito influenciado pelo pensamento oriental e usa muitas das ideias do hinduísmo e do budismo para melhor desenvolver seus conceitos.

A principal questão abordada por eles é a dor. De onde vem a dor? Por que sentimos dor? É possível fazer cessá-la? Para todos os efeitos, Schopenhauer vê a dor como resultado da falta, uma falta insaciável que nunca é preenchida. Temos fome, temos sede, frio, desejos sociais, amorosos. Viver é sinônimo de querer, mas querer é a busca por preencher a falta, falta esta que nos constitui.

Buda, ou melhor, o príncipe Sidarta Gautama, encontrou a dor logo após renunciar de sua vida no castelo e fugir de uma existência cercada de regalias e benesses. Logo deparou-se com um velho, um doente, um cadáver, e, por fim, um asceta. Após  anos de meditação e prática, Sidarta Gautama finalmente atingiu o estado de Buda (que significa “o desperto”). A partir deste momento Buda nos legou suas “Quatro Nobres Verdades” cujo entendimento nos levaria para além da dor.

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O príncipe Siddhartha Gautama, China.

Schopenhauer também deparou-se com cenas que o marcaram em sua infância. Quando pequeno, seu pai ofereceu a possibilidade de ter uma vida modesta como filósofo ou então seguir com ele em uma viagem pela Europa e depois seguir sua carreira de comerciante. Como optou pela viagem, teve a chance de ver uma Europa devastada pelas guerras napoleônicas: dor, fome, miséria, pobreza. “Viver é sofrer” concluiu ele dois mil anos após buda.

As quatro nobres verdades de Buda são: 1) o sofrimento: a vida está invariavelmente sujeita a todo tipo de sofrimento; 2) a causa do sofrimento: a ignorância dos homens os levam a desejar aquilo que lhes causa dor: os apegos, a cobiça, as posses; 3) a verdade da cessação do sofrimento: é possível a cessação do sofrimento que é causado pelo ignorância e os desejos dos homens. 4) Caminho para a cessação do sofrimento: aqui Buda nos oferece seu remédio contra a dor e o sofrimento: o caminho óctuplo, um conjunto de práticas mentais e éticas na busca pelo Nirvana.

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Schopenhauer segue um caminho parecido em sua obra magna, “O Mundo Como Vontade e Como Representação”. A causa do sofrimento é a manifestação violenta da Vontade, essência íntima de tudo no mundo. O homem é a representação mais alta da Vontade, onde o intelecto atinge seu mais alto grau de entendimento; isto faz do homem o mais sensível à dor. Neste caso, negar a Vontade é ao mesmo tempo negar a causa da dor. Schopenhauer nos dá o primeiro lenitivo para a dor que no homem se torna insuportável: a arte. Mas ela não é o bastante, trata-se apenas de um analgésico, um entorpecente que nos faz esquecer as angústias desta vida. Mas qual é a solução final para o sofrimento? Se a Vontade se manifesta através do querer-viver então a resposta está dada: a saída do ciclo da dor é a negação do querer-viver.

Schopenhauer encontra nos mestres hindus, nos ascetas, nos budistas, na compaixão cristã, em São Francisco de Assis, a resposta para seu problema filosófico, negar a vida! Esta é a solução de Schopenhauer, esta é a única alternativa. O ciclo de desejar o que não se tem, conquistar e entediar-se para novamente desejar o que não se tem só pode ser interrompido cortando o mal pela raiz: negar o querer-viver. Schopenhauer tinha uma estátua de buda em sua casa, mas seu verdadeiro monumento ao budismo está dentro de sua obra de filosofia.

“Ao encontrarmos na vida de homens santos aquela calma e bem-aventurança que descrevemos apenas como a florescência nascida da constante ultrapassagem da Vontade, vemos também como o solo onde se dá essa floração é exatamente a contínua luta com a Vontade de vida” – Schopenhauer, O Mundo Como Vontade e Como Representação

Mas o que isso tem a ver com Nietzsche? As críticas de Nietzsche para o budismo não passam nem perto daquelas que o filósofo escreve para o cristianismo, contudo, de certa forma, as duas se assemelham. Nietzsche chega até mesmo a expressar sua admiração por Buda, pois ele estaria livre de todo ressentimento (o mesmo acontece com Cristo, antes da apropriação e deturpação de seus ensinamentos por Paulo).

O budismo seria a religião dos últimos homens, antes de darem lugar ao além-do-homem. Por que? Simplesmente porque o budismo está livre de todo ressentimento, ele não acusa a dor, não a condena, apenas procura suprimi-la.

“O budismo é uma religião para homens tardios, para raças bondosas, suaves, que se tornaram superespirituais,  que sentem dor com muita facilidade (ainda falta muito para que a Europa esteja madura para ele) […] o budismo é uma religião para o fim e para o cansaço da civilização” – Nietzsche, O Anticristo, §22

Muito diferente do cristianismo, e Nietzsche faz questão de frisar esta diferença. O cristianismo seria a própria doença do homem moderno, a cruz que carrega; já o budismo seria mais como uma higiene mental, uma limpeza espiritual em direção ao Nirvana. Ambas decadentes, claro, mas para o autor de Anticristo, uma muito mais digna do que a outra.

O bicho homem é aquele que se debate contra as grades que o prendem, isso o machuca e o irrita, o cristianismo é a própria acusação do homem contra si mesmo, um tribunal onde ele julga a si mesmo e se condena: “Culpado!”, diz seu livro sagrado. O budismo é o último passo em direção à transvaloração de todos os valores. Depois da calma resignação dos ensinamentos de Buda, só resta espaço para o niilismo passivo tornar-se niilismo ativo. O Camelo transforma-se em Leão para quebrar todos os ídolos marcados com a inscrição “Tu Deves!” (veja “Das três metamorfoses“).

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

28 comentários

  1. Muito boa a síntese entre os filósofos e o budismo, Schopenhauer constatou assim como como Sidarta a insatisfação cíclica dos seres vivos, porém sair dessa roda não depende unicamente do intelecto e sim de uma profunda e clara observação do objeto base para todas as volições, o “eu inerentemente existente”.

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  2. eu não curto o pensamento de nietzsche, e pra mim o budismo é excelente, embora eu não siga 100%. no livro que eu tenho damaphada, na primeira nobre verdade diz que toda vida sensível envolve sofrimento, logo o problema é o ”sensível”, o budismo tira de dentro da mente a sensibilidade da mente atraves da filosofia de ascetismo, ja nietzsche é o caminho oposto, nietzsche leva ao individuo À extrema sensibilidade da mente devido a preocupaçaõ que o individuo tem com superantropia alem de ser uma filosofia de vida ginocentrista. por isso que eu realmente odeio a filosofia de nietzsche.

    eu acho que o pensamento de nietzsche seja o real problema que causa a sensibilidade da mente, e não o ódio ou o egoísmo. o simples ódio ou egoísmo não me fazem mal, mas o pensamento de nietzsche me faria bastante mal.

    a coisa que mais abomino no pensamento de nietzsche é que ele falou que o homem comum deveria se sacrificar pelo super-homem, no fundo isso não é egoísmo, isso é um pensamento simplesmente patético, coisa de bonzinho mesmo se sacrificar pelos outros.

    eu tenho minha propria filosofia de vida, baseada em misantropia/isolamento social, e o ascetismo faz parte disso, ontem a noite por exemplo, na falta de opção optei pela meditação e momento de ascetismo.

    as vezes eu mesmo rio desses seguidores de nietzsche, desses nazistas que pagam mico em redes sociais tomando fora das mulheres a qual eles desejam, aí eles surtam de começam a fazer bullying com um monte de gente, por isso que o pensamento de nietzsche é simplesmente patético. eu prefiro rejeitar o ginocentrismo e transformar mulher em objeto, ve-las de forma puramente sexual, pra não ter apego sentimental a elas e me conformar com a solidão.

    Curtido por 1 pessoa

      1. O rapaz aí em cima, o Fabio metal, me parece bipolar…totalmente contraditório, .
        não entende nada de Nietzsche e muito menos sobre budismo.
        O último parágrafo me parece saído de um filme “dormindo com o inimigo”

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        1. Bom, considerando que quem escreveu o texto parece não ter lido Schopenhauer, não há problema que não possa ser relativo aqui quando se diz que o Fabio não leu Nietzsche. Se ter lido se pressupõe ter entendido, de fato que ambos não leram. O que é curioso, porque, quem leu Schopenhauer, identifica facilmente as superficialidades nas análises sobre religião, principalmente a cristã, da parte de Nietzsche. Schopenhauer não poupou páginas sobre isso em Parerga e Paralipomena. Mas enfim, quem seria eu se viesse aqui criticar qualquer coisa dita no texto ou nos comentários se não por entretenimento. Ainda mais em um blog com pessoas tão entendidas sobre tudo e todos. Ótimo texto. Perfeitos comentários a respeito do mesmo.. Continuem com o bom trabalho.

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    1. Cara não te entendo, mas percebi que você tem um nivel diferente de racionalidade, então me diga: Porque o seu sofrimento vale mais do que o de outros seres, e como você vai viver em paz transformando o próximo em um objeto, não seria mais fácil admitir que o próximo simplesmente tem defeitos? Você deveria pensar nas consequências que seu ódio e seu egoísmo terão pra você também, com sua inteligencia, você tem potencial pra refletir além do material, e além de buscar prazer nas suas sensações, se você não se mexer, não muito distante, poderá se ver no fundo do abismo

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    2. Fábio, talvez seja interessante vc ler mais sobre o Budismo também. Não só este livro, mas leia as linhagens Mahayana, principalmente os mestres tibetanos (são bem explicativos), verá que ainda está sob influência de certos pensamentos que só levam ao sofrimento.

      Abraço

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  3. Einstein disse:

    http://en.wikiquote.org/wiki/Albert_Einstein

    Common to all these types is the anthropomorphic character of the idea of God. Only exceptionally gifted individuals or especially noble communities rise essentially above this level; in these there is found a third level of religious experience, even if it is seldom found in a pure form. I will call it the cosmic religious sense. This is hard to make clear to those who do not experience it, since it does not involve an anthropomorphic idea of God; the individual feels the vanity of human desires and aims, and the nobility and marvelous order which are revealed in nature and in the world of thought. He feels the individual destiny as an imprisonment and seeks to experience the totality of existence as a unity full of significance. Indications of this cosmic religious sense can be found even on earlier levels of development—for example, in the Psalms of David and in the Prophets. The cosmic element is much stronger in Buddhism, as, in particular, Schopenhauer’s magnificent essays have shown us. The religious geniuses of all times have been distinguished by this cosmic religious sense, which recognizes neither dogmas nor God made in man’s image. Consequently there cannot be a church whose chief doctrines are based on the cosmic religious experience. It comes about, therefore, that we find precisely among the heretics of all ages men who were inspired by this highest religious experience; often they appeared to their contemporaries as atheists, but sometimes also as saints. Viewed from this angle, men like Democritus, Francis of Assisi, and Spinoza are near to one another.

    Palavras de Albert Einstein

    http://en.wikiquote.org/wiki/Albert_Einstein

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    1. ” Commom to all these types “….which types ? We ? Name them please.

      “cosmic religious sense” ??

      em Schopenhauer ?? Nietzsche ?

      E a filosofia budista aqui relacionada não se trata de religião. ( nem o tibetano, nem theravada… )
      Está proposto na primeira linha do texto.

      Não estou criticando o texto do Einstein ( gênio) , mas ele não trata da nossa proposta de apontar semelhanças entre as tres FILOSOFIAS.

      Enfim, melhor ler um otimo texto que trata da equivocada percepção de deus do que pagar mico em rede social.
      Experiencia propria hahaha

      Tchuß !!

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  4. Ótimo o seu texto, mas só uma dúvida: você disse que, para Nietzsche, o Budismo seria a religião dos últimos homens; é esse o termo que ele usa? Pergunto isso porque no Assim Falou Zaratustra ele fala do último homem como algo desprezível, enquanto o povo entende o contrário. Não queria ser chato com esse detalhe, mas não seria “homem superior” o que ele quis dizer?

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    1. Na verdade não, Rafael. É exatamente isso: o budismo é a religião do último dos homens… o homem superior não me parece muito apegado à qualquer religião.

      Mas estou te respondendo tudo de cabeça, aconselho você a ler o anti-cristo para mais informações!

      vlw

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  5. Oi Rafael, o Padma Dorje, que é formado em filosofia e grande estudioso e praticante do budismo, escreveu uma série de textos sobre o budismo e o ocidente e suas eventuais distorções. O link segue abaixo e destaco um trecho logo na sequencia; Abraços!

    http://www.budavirtual.com.br/tres-grandes-ondas-de-distorcao-budismo-ocidente-1a-onda-distorcao-dos-filosofos/

    ”Schopenhauer, além de misturar suas visões próprias com o darma, e as interpretar de sua forma particular, o que pode acontecer em qualquer tempo, naquela época nem mesmo tinha como conhecer bem o budismo, uma vez que as primeiras traduções, para ser bem generoso, não produziam muita compreensão.

    É certo que a primeira nobre verdade diz respeito à insatisfatoriedade de todas as coisas compostas. Não é exatamente o sofrimento num sentido romântico alemão, mas o fato de que mesmo as melhores coisas deste mundo não são verdadeiramente suficientes. Disso Schopenhauer buscou interpretar como segunda nobre verdade uma “aniquilação da vontade”, uma aniquilação da pessoa, que até hoje é confundida com o budismo. Mesmo a tradução “o desejo é a causa do sofrimento” não é perfeita. O texto diz trishna, que é algo mais próximo a sede, ou sofreguidão, fissura, fixação. Na verdade, a expectativa de obter felicidade destas coisas é a causa da insatisfatoriedade, porque elas não podem prover felicidade.

    A “cessação” que é a tradução mais acurada para nirvana, diz respeito às três emoções aflitivas principais, ou “três venenos”: indiferença, apego e aversão. (“Ignorância, raiva e desejo” na tradução mais clássica usual. O principal sendo a ignorância, que é uma forma de torpor indiferente ou confusão em que uma visão automática e “normal” se instala, de forma que a realidade – que impede que depositemos expectativas equivocadas em fenômenos compostos que são necessariamente insatisfatórios – não é reconhecida.) São as três emoções aflitivas que cessam, não surgem mais na mente.

    Disso não se obtém nenhuma noção amargurada da realidade, mas realismo quanto às coisas do mundo, e mais do que isso, a alegria e deleite supremo em reconhecer que as coisas são assim, e em se estar num caminho estruturado (a quarta nobre verdade, que Schopenhauer simplesmente ignorou). Modo geral os budistas não são seres angustiados, sombrios, como um alemão irascível poderia conceber no início do séc. XIX. Uma das qualidades que efetivamente se pratica é o contentamento e a alegria. Um exemplo extremo do tipo de alegria, talvez excêntrica ou esquisita para nossos padrões, é Milarepa cantando de felicidade quando uma de suas únicas posses, uma tigela coberta de restos de urtiga (seu principal alimento), quebrou. Até mesmo algo que poderia ser considerado o cúmulo da infelicidade, levou Milarepa a gargalhar, como se ele por algum instante pensasse que aquela tigela fosse eterna. Milarepa riu como rimos após nos atrapalharmos, e reconhecemos que, no fundo, nada aconteceu: nada se quebrou que não pudesse se quebrar. Não há nada de triste em nada disso.

    Da visão de Schopenhauer caímos em Nietzsche, que não discutiu as fontes do pessimista, mas criticou seus resultados – sem nunca chegar a pensar em verificar se aquilo se aplicava mesmo aos budistas. Em 2012 um pesquisador (McDonald, Nietzsche’s Reception of Buddhist Psychology With Constant Reference to Christianity) listou todas as obras a que o filósofo teria tido acesso com relação ao assunto: 9 livros sobre religião oriental, todos em alemão, dois emprestados da biblioteca. Dois deles (!) eram sobre budismo, sendo que nenhum era tradução de qualquer fonte primária, mas elaborações de alemães, ainda mais descredenciadas que as dele. Que isso tenha ocorrido bem mais de um século atrás, não é surpreendente. Que até hoje pessoas sustentem a crítica de Nietzsche ao budismo como embasada num entendimento relativamente correto do darma, isso é ultrajante.
    Sem entrar em quanto Nietzsche podia estar errado por si só, sem sequer mencionar o budismo – e ele é idolatrado por gente que talvez nem seja capaz de inferir algumas de suas ironias, ou por gente que regozija na sua abjeta transformação da arrogância num dever ético – o fato é que a autoajuda teutônica de “afirmação da vida” através da “glória” do “grande sofrimento” de “grandes homens” é particularmente vil na visão budista.

    Ora, a alegria no budismo é um valor a ser cultivado, e se encontra principalmente em observar as qualidades dos outros – de forma equânime, uma vez que todos possuem qualidades. Essa é uma alegria sem limites a ser cultivada pelo praticante. Além disso, há a alegria em esforçar-se no darma, em entendê-lo e divulgá-lo – em se deparar com obstáculos no caminho como quem se depara com algo muito curioso, interessante.
    Não é possível alguém ser médico e ter nojo de infecções, fezes, ou do interior do corpo de um doente. Um bom médico desenvolve um gosto por resolver uma situação difícil, ele não vê a situação difícil do outro com aversão – mesmo os psiquiatras. Se encara com aversão, não vai tratar direito.

    Da mesma forma, os Budas salivam perante a ignorância do samsara, porque é uma oportunidade de expressar a atividade, ora, dos Budas, que é a compaixão e sabedoria. Não há nenhum tipo de amargor, ressentimento ou angústia. E tampouco uma inversão masoquista do ser pisoteado pela vida em “papo de filósofo” de que, no fundo, essa é uma grande e boa coisa.

    O experimento de pensamento do “eterno retorno” em Nietzsche pode até ter se inspirado na ideia de samsara, mas não é de forma alguma igual a este. No budismo não fazemos “as mesmas coisas” cada vez. Em certo sentido, dá para dizer que são coisas de um mesmo tipo – mas o experimento de pensamento de Nietzsche leva em conta que tudo acontece vez após vez, igual, daí o amor fati, etc.

    O ciclo de renascimentos é a experiência dos seres imersos em ignorância, não é algo que realmente existe ou realmente ocorre. É um sonho da ignorância. A experiência dos Budas não há retorno algum, e essa experiência é que é real. De toda forma, a experiência dos seres ignorantes também não é exatamente o que Nietzsche descreveu – o amor fati nietzschiano é o recalque transformado em troféu, a oportunidade perdida transformada em alguma fantasia de vitória por um truque filosófico. Não que os Budas, ao se iluminarem, não olhem para tudo que fizeram como se fosse iluminado desde o princípio: apenas que esse olhar equânime, aplicado a todos os seres, não redunda em nenhum tipo de glória. Os sugatas são aqueles “que foram para além dos extremos do samsara e do nirvana em êxtase”, em que nada está determinado nos quatro tempos, passado, presente, futuro ou atemporalidade: porque todas as experiências duais são feitas de tecido de sonho – é nessa liberdade que vivem os Budas. Eles não impedem que seu olhar pouse sobre qualquer coisa, numa equanimidade ainda maior do que a proposta por Nietzsche – mas não dizem “sim” para absolutamente tudo: essa é uma visão extrema. O êxtase dos Budas está além dos extremos de dizer sim, ou não: é um “mesmo sabor”, mas por compaixão e liberdade a discriminação da sabedoria segue operante. Não está na mera aceitação de uma sucessão de particulares, mas no reconhecimento da interconexão de tudo com tudo mais. É outro tipo de glória, e não fica só no papel.

    Por outro lado, na visão popular, o que realmente ficou do budismo (e é reforçado pela academia) é a visão anterior, a visão iluminista do budismo como religião racional, científica. Como o cientismo é a ideologia dominante de nossa era, isso ajuda muito o budismo em termos de Relações Públicas, mas, como se viu, não é nada livre de distorções – e essas distorções são as mais antigas.

    Logo em seguida e concomitantes com Schopenhauer, no entanto, vieram os românticos, que gostaram dessa “curtição de fossa” do budismo, e logo agruparam no seu peculiar estilo dramático e teatral noções místicas e irracionalistas ao entendimento ocidental do budismo, o que será o assunto da próxima parte.”

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    1. “Ora, a alegria no budismo é um valor a ser cultivado,e se encontra principalmente em encontrar a qualidade dos outros,de forma equànime, uma vez que todos possuem qualidades.”
      Não creio que Schopenhauer era tão ignorante ou desinformado em relação às religiões orientais.Mas, de qualquer forma , percebe-se aí um antagonismo:Schopenhauer prezava a sua própria solidão, enquanto que a frase transcrita acima pressupõe que possamos ser feliz com qualquer companhia.
      Sem tomar partido, seria a constituição psicológica do alemão (adjetivo esse que aqui não pretende soar pejorativo) a sua aparente incapacidade de alegrar-se com qualquer ser humano?Talvez fosse ele exigente em algum ponto?
      Ou ainda pode-se supor que a criatividade do alemão fazia com que ele próprio tivesse, digamos, diálogos mais “felizes” consigo próprio, em solidão,do que com um indivíduo qualquer.

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    2. Só tem um problema, ainda que a análise a respeito do budismo esteja certa, ao que se entende da filosofia de Schopenhauer, dita pelo o próprio autor: And this agreement must be yet the more pleasing to me, inasmuch as in my philosophizing I have certainly not been under its influence. For up till 1818, when my work appeared, there was to be found in Europe only a very few accounts of Buddhism. E tanto em O mundo como vontade e representação como em Parerga e Paralipomena, o autor deixa bem claro que as interpretações que ele tirou do budismo e suas “coisas” não são as que os próprios seguem. Além disso, para qualquer um que tenha lido, sabe que ele mesmo disse ter como maior influência para seu trabalho, o trabalho de Kant. Então um texto desse tamanho que desconsidera o trabalho do autor em si, não é se não propaganda.

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  6. adoro ser o ultimo homem , sempre fui, desda época da escola, o inimigo dos valentões, alias, o inimigo da escola inteira, todos me odiavam. adoro ter um aspecto saturniano, em oposição a marte(valentão) e vênus(mulher).

    schopenhauer ta certo em sua interpretação do ascetismo, foi a cultura hindu que deturpou a ideia original do ascetismo a mais de 5000 anos atrás. coração=paixão=sofrimento, ascetismo é matar o coração, logo todo esse papo de amor dos budistas é papo furado, amor é sofrimento e quando o cara não ama mulher mas ama homens, família, humanidade me cheira a homossexualismo mesmo. foda-se as religiões mas foda-se Nietzsche também, viva o pessimismo.

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  7. Penso que a proposta de Schopenhauer tem mais que ver com o Budismo Theravada e os próprios Sanyasi do Hinduismo, ou seja uma renúncia total aos bens, aos desejos e consequentemente a Vontade.
    Já a proposta Nietzscheana de “Transvaloração dos Valores”, do Além do Homem, do Eterno Retorno e da “Liberdade para a Morte” teria mais afinidade com o Satori do Zen Budismo, ou o próprio Nirvana.
    Algo como o “Despertar”, ao invés da negação da Vontade, seu uso “Desperto”.
    Vejo muitas semelhanças entre a proposta Nietzscheana e o conceito de Existência Autêntica em Martin Heidegger.
    E pergunto: Se voltarmos aos Antigos do Ocidente, não seria a Ataraxia dos Estoicos e dos Epicuristas a mesma ideia?
    Satori, Nirvana, Samadhi, Existência Autêntica, Transvaloração, Ataraxia, Mindfulness…
    Não seriam palavras diferentes ditas em diferentes épocas para um mesmo “Conceito”?

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    1. Perfeitas associações. E entre Nitzsche e a filosofia zenbudista é que enxergo diversas semelhanças. Em relação ao Budismo como religião, Nietzsche é até bastante condescendente, mas religião é dogma, ritual e cheia de mandamentos. isso não é Nietzsche. Na filosofia budista a importância dada ao “aqui agora “, a ausencia de obrigações ritualisticas, a ausencia do sacro, a não importancia do pecado, o distanciamento dos conceitos de certo e errado. O grande diferencial imagino que seja o comportamental. Ops, existe um enorme disparate entre o insulflamento do ego tipico do alemão e o absoluto oposto na negação, ou oposição ou insistente recomendação de não se confundir com o ego. Gemeos e opostos. . Tanto em Nitzsche quanto no zenbudismo encontramos o paradoxal. ” O homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão da sua ignorância….” Nietzsche ///Sou fã de ambos. ‘ Satori, Nirvana, Samadhi, Existência Autêntica, Transvaloração, Ataraxia, Mindfulness… ” Excelente !

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  8. Achei o texto muito bem claro. Particularmente, sempre vi o budismo como uma religião capaz de uma consciência muito nítida e sincera sobre o homem. Penso que nossa cultura ocidental ainda não consegue absorver muita coisa disso, causa de meu lamento. Seria o começo de uma bela discussão.

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  9. Esse pessimismo depressivo de Schopenhauer nada tem a ver com o budismo na minha opinião. Ele até poderia crer no budismo, mas se ele praticasse realmente ele abandonaria até mesmo o sofrimento mental. VOcê não vê nenhum budista depressivo (exatamente o contrário, são bem satisfeitos com a vida e compassivos) justamente pq eles praticam o desapego e a atenção plena.

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  10. Texto fantástico, Cheguei no Nietzsche por uma amigo ateu, cheguei no Schopenhauer, cheguei no Buda através do Osho. de Osho achei Gurdjieff, P. D. OUSPENSKY, Jiddu Krishnamurti etc… e todos eles apontam para o Budismo !

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  11. eu discordo totalemnte de nietzsche, a vontade muitas vezes eh frustrada, nessa obrigaçao de vencer, de ser feliz ser o melhor, e schopenhauer ta certo em sua interpretaçao, a obrigaçao de ser feliz leva a vontade, a vontadee frustrada, leva ao odio. o odio leva a problemas cerebrais e no coraçao, hipertensao etc que adianta querer vencer, ser feliz, vencer na vida, ser realizado,? eu to voltando ao pensamento de schopenhauer depois de 4 anos que deixei de lado. parece que tudo em minha vida eh ciclico, quando atinjo meu auge, me sinto otimo e feliz, ai uma tragedia acontece e termino miseravel, sofrendo muito, ai passo 1 ano sentindo muiot odio e ressentimento, ate que desisto de vencer e aceito minha derrota, voltando ao pensamento de schopenhauer. vencer na vida pode te levar a uma paralisia cerebral, ou a um infarto. desisto de vencer, quero ser lixo e fracasso, sou lixo, porque so sendo lixo estou vivo.

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  12. quando voce desiste de ser feliz e vencer na vida, voce nao tem mais medo de nada, schopenhauer ta certo, cioran ta certo. nietzsche errado. quando fui seduzido pela ideia de “`vencer na vida“ “ser independente“ “ser realizado“ “fazer a vida valer a pena“, eu fiz o melhor de mim pra atingi isso, e o que aconteceu? eu fracassei miseravelmente, terminei sofrendo muito. e agora percebo que quanto mais sinto vontade de vencer de triunfar, mais medo sinto, ai que viro um escravo, com medo de qualquer ato que pessoas possam fazer contra mim e arruinar meu destino, tipo familiares por exemplo. quando a pessoa sente vontade de vencer a pessoa facilmente sente medo, medo de perder tudo, medo de fracassar, e a pessoa obvaiemtne acaba sendo forçada a ser muito diplomatica com as pessoas ao redor, manipular pessoas, ser sutil, saber lidar, nao errar, ou seja, ser um psicopata praticamente. e ai que vem os sentimentos de odio, ressentimento, vingança, tristeza, medo, paranoia. ja algue que desistiu da felicidade, a pessoa nao sente medo de nada, podem ameaçar a pessoa, podem prejudicar e ferrar a pessoa o que for, mas a pessoa nada tem a perder. a felicidade eh uma faca de dois gumes, por um lado voce pode sonhar em ser alguem realizado, mas a mesma faca te fere quando voce se frustra com essa vontade, esse desejo. nietzsche foi um iludido, viveu de forma miseravel a vida inteira, nao importa o que ele tenha criado e ficado famoso, olha como ele viveu e terminou no hospital. ele nem sequer atingiu sua independencia, dependia da mae e da irma. qual o sentido mesmo da vontade se nao deixar alguem perturbado mentalmente?

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