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No fim da primeira parte, Zaratustra se despede de seus discípulos. Estes dão a ele um bastão de ouro, com uma serpente enrolada ao sol. Zaratustra assim diz: “como adquiriu o ouro o valor mais alto? Por ser incomum, inútil, reluzente e de brilho suave; por sempre se dar” (p. 72). Em seguida, Zaratustra começa seu discurso sobre a virtude dadivosa. “incomum é a virtude mais alta, e inútil, reluzente e de brilho suave: uma virtude dadivosa é a virtude mais alta” (p. 72).

Aquele que tem vontade de superar a si mesmo é também aquele que quer acumular a fim de se dar como um sacrifício. Mas para tornar-se um sacrifício valioso, antes o homem deve acumular em si todas as riquezas, para depois desejar sua morte. Zaratustra ama aqueles que querem seu fim, pois são estes que criarão formas e valores novos.

“Obrigais a todas as coisas a ir para vós e estar em vós, para que venham a refluir de vossa fonte como dádivas do vosso amor”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 72

Fernando Paredes

Não é a acumulação do burguês, nem do mesquinho, nem do egoísta. Zaratustra aqui faz a diferenciação entre um egoísmo doente: “Tudo para mim” (p. 73), e um saudável, que acumula para transbordar: “Não dou esmolas. Não sou pobre o bastante para isso” (p. 13), mas é-se rico o bastante para fazer fluir tudo que possui, “amo aquele cuja alma transborda de cheia, de modo que esquece a si próprio e todas as coisas estão nele: assim todas as coisas se tornam seu declínio” (p. 17). Enfim, um egoísmo sem ego, que acumula para superar-se, ir além.

Esta virtude está para além do bem e do mal, acima das críticas, censuras, elogios, opiniões. É um querer duro, inflexível, um querer profundo que despreza o “agradável leito mole” (p. 73), e quer deitar-se longe dos acomodados, dos doentes e dos molengas. É uma vontade inquebrantável que reúne em si a força necessária para lançar-se para além de si. Lançar a flecha do homem para a outra margem…

“Permanecei fiéis à terra, irmãos, com o poder da vossa virtude! Que vosso amor dadivoso e vosso conhecimento sirvam ao sentido da terra! Assim vos peço e imploro”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 74

Trazer a virtude novamente à terra e colocá-la aos nossos pés, fazer dela nossa servente. Impor valores, isto deve fazer todo filósofo (ver aqui), e este é o combatente de seu próprio tempo, o criador de auroras!

“Há mil veredas que não foram percorridas; mil saúdes e ilhas recônditas da vida. Inesfotados e inexplorados estão ainda o homem e a terra humana”

– Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, p. 75

Mas antes de partir, Zaratustra dá seu último conselho:

“Afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! Mais ainda: envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado […] Retribuímos mal a um professor, se continuamos apenas alunos […] Sois os meus crentes: mas que importam todos os crentes?/ Ainda não havíeis procurado a vós mesmos: então me encontrastes, assim fazem todos os crentes; por isso valem tão pouco todas as crenças/ Agora vos digo para me perder e vos achar; e somente quando me tiverdes negado eu retornarei a vós”

Buscar-se torna-se aqui sinônimo de perder-se. Não há alguém para encontrar, não há um “mais profundo eu” para descobrir: há de se perder para criar para si um novo eu. O homem deve celebrar “seu caminho para a noite como a sua mais alta esperança; pois é o caminho para uma nova manhã

Texto da Série:

Assim Falou Zaratustra

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Beatriz Lohmann
Beatriz Lohmann
10 anos atrás

Date: Wed, 9 Apr 2014 22:05:25 +0000 To: bealohmann38@hotmail.com

Robson Ferreira
8 anos atrás

Gostei muito belo trabalho…