A filosofia de Michel Foucault movimentou algumas das ideias mais originais do século XX: sua matéria-prima sempre foi a surpresa. Antes de tudo, é preciso surpreender-se com as próprias ideias, aí está um critério fundamental. Ir além dos limites, uma necessidade; Correr riscos, uma condição. Quando um entrevistador* o pergunta se ainda temos necessidade “das questões sem resposta e dos silêncios” da filosofia, Foucault responde:

“O que é a filosofia senão uma maneira de refletir, não exatamente sobre o verdadeiro e sobre o falso, mas sobre nossa relação com a verdade?”

Não à toa, esta entrevista foi realizada sob a condição de que fosse publicada sem assinatura, isto é, anonimamente. Ele queria ver ainda o alcance de suas provocações para além do burburinho que, nos anos 80, o nome Foucault causava por si só. Eis uma preocupação propriamente foucaultiana: saber ao certo se os questionamentos arrancam os sujeitos de si mesmos, se eles funcionam como uma empresa de dessubjetivação.

Em outra ocasião** posterior, Foucault repete: “meu problema nunca deixou de ser a verdade“. Assim como no prefácio ao segundo volume da História da Sexualidade, ele expressa a intenção sempre presente em sua obra de realizar uma História da verdade. Essas afirmações, tomadas assim à primeira vista, são bastante impressionantes e, para dizer o mínimo, desconfortantes. Como assim? Foucault estava preocupado com a verdade? Ele ainda creditava à filosofia a capacidade de descobrir  tais quimeras, desvendar tais mistérios? Antes de tudo, é preciso entender o que é a verdade para ele:

“A verdade, espécie de erro que tem a seu favor o fato de não poder ser refutada, sem dúvida porque a longa cocção da história a tornou inalterável” Foucault em Nietzsche, a Genealogia, a História, 1971

Para bem entender o projeto de Foucault para sua filosofia e, em seguida, esboçarmos alguma ideia do que é a filosofia para ele, precisamos enxergar em Nietzsche a raiz de uma questão: precisamente, o projeto genealógico como a história de um erro com nome de verdade. O filósofo olha para a história não em busca de origens e essências, mas à procura das condições de criação daquilo que se toma como verdade. Segundo Foucault, sua pesquisa se dá sobre o dizer verdadeiro e as formas de reflexibilidade.

Foucault

O corpo é a superfície de inscrição dos acontecimentos. Sobre ele, pulverizam-se as verdades perpetuamente. O que está em jogo não são as verdades enquanto essências, mas a atuação delas enquanto discursos sobre os corpos, suas ações enquanto dissolução do Uno em seres chamados homens e práticas de vida. É neste sentido que Foucault fala em realizar uma história da verdade. Ele quer entrar por dentro dos jogos entre verdadeiro e falso na história, a fim de dizer o que é a atualidade. Olhar para as disputas do passado, sublevar as relações de força, fazer ouvir as vozes silenciadas, para então voltar-se mais vivo e ativo para o atual.

Entramos então na questão central. Filosofar é trabalhar criticamente com o pensamento sobre o pensamento. Para quê? Para descobrir até onde é possível pensar diferentemente! Modificar o horizonte daquilo que se conhece em vez de legitimar aquilo que já se sabe, eis o objetivo.

“Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar e a refletir” Foucault em História da Sexualidade II

A obra-prima do filósofo é a constatação de sua própria surpresa, não apenas enquanto ignorante, mas fundamentalmente enquanto ser dotado de pensar diferentemente. Essa potência de se diferenciar é o maior investimento do filósofo, que realiza uma hermenêutica de si, exercita-se em pensamento buscando sempre separar-se de si mesmo. E que tarefa está reservada à filosofia? Realizar uma história do pensamento, definir as condições nas quais o ser humano ‘problematiza’ o que ele é, e o mundo no qual ele vive.

Durante toda a sua vida, Foucault operou com um conceito de razão múltipla. A racionalidade é um campo complexo de linhas de pensamento irredutíveis. De nada servem as estruturações da Razão instituída enquanto tal, outras formas de racionalidade se criam sem cessar. Daí a necessidade de voltar-se para as ditas verdades, questioná-las, avaliar quais são seus interesses. A inserção daquilo que se assume como verdadeiro na história nos permite liberar o pensamento daquilo que ele pensa silenciosamente e permitir-lhe pensar diferentemente. Uma pergunta se mostra essencial: “a que preço o sujeito pode dizer a verdade sobre si mesmo, a que preço o sujeito pode dizer a verdade sobre ele mesmo enquanto louco?”.

Em razão de uma relação de forças que não os privilegiavam e de mais um movimento no tabuleiro do jogo das verdades, o louco, o preso, o doente, o pervertido, o confesso, todos eles pagaram um preço teórico, econômico e, principalmente, institucional por terem suas vozes caladas e seus pensamentos silenciados. A filosofia é então uma ferramenta que nos permite enxergar em que medida nossa relação com a verdade encarcera, pune, vigia, coage, controla. E o filósofo? Segundo Foucault, é  apenas um tipo diferente de curioso, que tem no pensamento sua matéria de consumo corrente.

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*Entrevista: O filósofo mascarado, C. Delacampagne, Le monde, 6 de abril de 1980 **Entrevista: Estruturalismo e Pós-estruturalismo, G. Raulet, Telos, 1983

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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