Diógenes de Sínope é o reverso de Platão, ele é a moeda adulterada que circula em torno da Academia para mostrar que não é necessário saber matemática e nem falar de cavernas para ser filósofo. Mas Platão se acha muito superior a Diógenes, um mendigo fedorento e espalhafatoso. “O homem é um bípede sem penas“, diz Platão do alto de sua arrogância filosófica, e Diógenes, cansado de ouvir as besteiras ensinadas na academia, joga uma galinha sem penas na cabeça do “Sábio” filósofo das Ideias.

Descaracterizar a moeda” é o conselho do oráculo para Diógenes, o Cínico, por isso ele pega os ensinamentos de Platão e os vira do avesso. “Para alcançar a verdade, viva uma vida reta”, é um de seus quatro ensinamentos. Vida íntegra, inabalável, que não se dobra às paixões. Isso significa viver conforme o que há de mais reto na filosofia platônica, o logos, a razão, as leis. Uma vida íntegra, nada para se envergonhar, nada de se contaminar, nada de desviar-se do caminho dos costumes. O homem platônico descobre o modo de funcionamento da natureza apenas para reinar sobre ela e si mesmo, desta forma nasce a civilização com suas convenções, cabe viver conforme.

“Viver conforme a natureza não é o mesmo que viver uma vida conformada!”, diria Diógenes. Por que traçar uma linha divisória entre sociedade e animalidade? Viver conforme a natureza não é criar uma bolha social e negar todo o resto. Não! Para os Cínicos só existe uma lei, a lei natural. Isso significa negar tudo que impede a natureza de se expressar. Casamento? Não, obrigado, títulos e honras? Com certeza não! Revertendo Platão, mais uma vez, todas as lei do homem são sombras na caverna, a natureza brilha lá fora.

Diógenes, por Jacopo Caraglio
Diógenes, por Jacopo Caraglio

O homem não pode quebrar as leis da natureza, mas pode quebrar as leis do homem, qual então lhe parece mais reta e verdadeira? Se Édipo pode cometer o incesto e ser feliz, por que não? Cães, aves, os persas e os egípcios faziam isso o tempo todo. Não submeta a natureza à sociedade, esta linha bem e mal é falsa. Diógenes comia carne crua para mostrar que era possível.

A animalidade não é mais renegada na filosofia cínica, separada por uma linha civilizatória. Pelo contrário, Diógenes sempre se pergunta o que pode aprender com os animais, eles parecem caminhar em uma linha muito mais reta que os atenienses no mercado. Aliás, Diógenes uma vez aprendeu muito no mercado, observando os camundongos que pegavam comida no chão: aprender a desapegar-se do supérfluo, adaptar-se a todo tipo de situação.

Camundongos vivem de modo natural, sendo portanto mais felizes que os seres humanos razão pela qual são eles dignos de serem imitados […] camundongos e outros animais deveriam ser modelos para nós, por serem invariavelmente melhores e mais autênticos do que as importunas espécies humanas em qualquer lugar encontradas, as quais escolheram distanciar-se da natureza e efetivamente construíram para si mesmas um modelo no qual nem sossego nem felicidade podem ser alcançados” – Navia, Diógenes – o Cínico, p. 75

Há uma inversão do modelo animal-homem-deus. Para os filósofos cães, o animal está acima do homem e é uma das maneiras de se alcançar a felicidade. Os cínicos têm um devir-cão. Não imitando um cachorro, mas retirando deles o que lhe dá mais intensidade, mais potência. O cínico aprende como os animais de um modo que a sociedade jamais poderia aprender. Diógenes observa os caracóis e diz: posso ser feliz como eles, também posso carregar minha casa nas costas.

A vida reta nos põe a andar diretamente na direção da natureza, que abandonamos há muito tempo! Fazer da animalidade um exercício! Abandonar o homem civilizatório não para imitar os animais, para encarar nossa própria animalidade. Diógenes não era bestial e violento, esta é a imagem que a civilização criou de tudo aquilo que ela própria não conseguiu submeter. Varremos nossos instintos para debaixo do tapete e hoje os tememos como crianças imaginando monstros no armário.

Os Cínicos não têm uma bandeira, não têm nacionalidade, não têm um partido político e não sabem que o são os direitos humanos. Eles vivem e morrem conforme a natureza, tal qual todos os animais. Alexandre diz a Diógenes para pedir-lhe o que quiser. Mas o Cão maior não pode desejar nada além de seu já conquistado sol.

O bios philosophikos como via reta é a animalidade do ser humano encarada como um desafio, praticada como um exercício e lançada na cara dos outros como um escândalo” – Foucault, A Coragem da Verdade, p. 234

> Texto da série: “Platão e Diógenes: Descaracterizar a Moeda” <

Alexandre e Diógenes, por Sebastiano Ricci
Alexandre e Diógenes, por Sebastiano Ricci

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

3 comentários

  1. Muito propício tal texto assim como as referências e citações. Aprecio bastante o posicionamento e as atitudes do Diógenes, pois, assim como existe um dos princípios cínicos “o saber maior consiste na ação, não apenas no pensar”, ele soube desempenhar na prática o que muitos filósofos só conseguiram abarcar em teoria. A própria atitude de tornar-se um homem desapegado às facilidades da sociedade consumista e de desejar apenas que o imperador saísse da frente do sol, nos demonstra que existe uma crítica aos pensadores catedráticos de academias que fizeram e fazem uma revolução utópica baseada na teoria das ideias, no pensar, mas instauram uma nulidade no que se refere à prática de tudo aquilo que engendram e pensam, assim como a maioria de nós, seres pensantes e talvez exatamente por isso pouco praticantes daquilo tudo que de fato acreditamos.

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