Toda filosofia diz de seus personagens e seu momento histórico. Pois bem, os estoicos filosofaram em um período difícil da Grécia, onde os caminhos para a felicidade haviam se tornado bem estreitos. Para isso, apenas o olhar afiado do filósofo estoico poderia encontrar possibilidades de viver bem. Eles se perguntavam constantemente: “o que está e não está em nosso poder?”. O que cabe a nós na busca pela felicidade e conquista da virtude? A psicologia estoica é essencial para trilharmos este caminho, ela dará um diagnóstico, uma clínica e uma ética.

A primeira constatação estoica é que devemos “viver conforme a natureza”. Este ensinamento foi retirado dos cínicos (ver aqui). Precisamos explicar bem essa questão: não é um adaptar-se passivamente à sociedade (jamais consentiríamos com isso), os estoicos também, eles estão bem longe do sacerdote ascético. O que querem dizer é que fazemos parte da natureza, somos corpos entre corpos. Ou seja, nossa liberdade só será encontrada quando entendermos qual é a nossa parte na natureza que nos rodeia. Constatação fundamental: estamos em relação íntima com a ordem do mundo.

Realizar aquilo que somos por natureza, na natureza, não apesar dela. Podemos entendê-la como uma força que quer se efetuar, pois bem, dirão os estoicos, somos a mesma coisa. A existência não é nossa inimiga, muito pelo contrário, é nossa mais fiel aliada. Sabedoria prática, que procura criar raízes naquilo que por tanto tempo nos afastamos, a efetuação. Ande com os pés descalços, este mundo te pertence, ensine no pórtico, o realidade está ao seu redor, ao alcance das mãos.

- "A Procissão do Calvário" - Pieter Bruegel (detalhe)
– “A Procissão do Calvário” – Pieter Bruegel (detalhe)

O que é viver conforme a natureza? Perceber que somos uma força entre outras forças que quer se afirmar. Uma natureza que se produz em ato, que se transforma, que causa efetuações, modificações. Perceber isso é muito difícil pois fomos acostumados a sermos passivos em relação ao mundo. Os efeitos da natureza se afirmam em nós, na superfície dos corpos, mas nós negamos e fugimos desta efetuação, temos horror de deixarmos de ser quem somos. Esta natureza está sempre em devir, ela se afirma, às vezes somos jogados de um lado para o outro sem percebermos, outras vezes com violência. Por que o sábio estoico não se assusta? Porque aprendeu a viver conforme a natureza, ele sabe dos vieses, dos contratempos, do acaso que vem e transforma tudo, mas sabe também que há um sentido maior do que nós para aquilo. A ataraxia dos estoicos está no conhecimento do fato de que o universo não foi criado para nos servir, por isso ele está sempre ao pé do estoico, pois este aprendeu a viver conforme a natureza, a tirar o maior proveito de tudo que lhe acontece. Nada o surpreender porque ele está preparado.

Tudo na natureza são corpos, eles se interpenetram e causam efeitos, a comida entra em nosso corpo, nossa voz se mistura com o ar, o fogo penetra a madeira. Tudo está em fluxo contínuo e misturas complexas. Estas misturas de corpos geram efeitos: são os incorporais, o devir. A fogo queima a madeira, o grito anuncia a chegada, a comida alimenta o corpo. A lógica dos estoicos está na superfície dos corpos que se tocam e se misturam numa fluxo contínuo.

A natureza é este grau de diferenciação dos corpos que interagem entre si. Ou seja, não há mais bem nem mal na perspectiva da natureza, tudo são forças se efetuando. Viver conforme a natureza é efetuar estas forças, aprender e encontrar o caminho de efetuação das forças. O que a força quer? Não há um fim, ela não vai para algum lugar, ela não quer alcançar um ponto e enfim descansar, ela quer apenas efetuar-se da maneira mais plena possível.

Então nós não temos uma forma prévia, assim como a natureza, temos ciclos, sequências de afirmações, séries de acontecimentos, conexões que se dão na diferença. Como se dão estas afirmações? Na superfície dos corpos! As forças vão até o limite de si para afirmarem-se, é no encontro entre os corpos que se dá o acontecimento. Toda afirmação é efeito do encontro, e todo encontro está na superfície!

Este corte, esta maneira de ver o mundo afasta pré-socráticos e platônicos! Os primeiros procuravam na profundidade, os segundos se perderam na altura dos pensamentos e ideais. Nem transcendência nem falsa profundidade, retomar a superfície!

Que efeito isso tem para nós? Porque estamos falando de viver conforme a natureza e de superfícies? Por um único motivo, os estoicos querem criar uma geografia dos encontros, traçar cartografias dos afetos. O que é a superfície para o ser humano? É a pele. O mais profundo está na superfície, é na pele que se dão os encontros. O mais importante acontece na superfície, tudo acontece lá, o devir mesmo só pode ser retomado se voltarmos à superfície.

O corpo estoico é este plano que se desdobra, que se torce, que cria reentrâncias. O desenvolvimento do feto são células que se dobram uma sobre as outras. Nossas relações são superfícies que se tocam e depois se afastam. O que são reações químicas? Átomos que se dobram. O que são as cadeias de montanhosas? Rochas que se dobram. A vida celular? Proteínas que se dobram. Superfícies sobre superfícies! Camadas sobre camadas! Eliminamos a reta, eliminamos os fins, eliminamos a profundidade, cada vez mais o pensamento estoico nos permite retomar a imanência! A psicologia precisa retomar a imanência também e passar por todos estes percursos antes de ganhar força de efetuação!

A natureza se afirma na efetuação dos corpos, os corpos são superfícies que se tocam, o encontro diferencia e produz realidade. O devir é este fluxo incorporal que se afirma dos corpos: é o acontecimento. O problema ético começa a nascer: como esta geografia dos encontros seleciona o que entra e o que sai? Como uma subjetividade se forma? Como ela diz o que é bom e ruim? Voltemos à natureza, o corpo que age conforme a natureza está em sintonia, ele ganha força de efetuação pegando carona com outros corpos que também se afirmam. O efeito é a soma dos acontecimentos. O efeito se expressa nos verbos. A afirmação é sempre efeitos de forças. Quanto podemos nos afirmar? Quanto temos condições para isso? É uma geografia, então perguntamos: somos bons geógrafos? Talvez ainda não saibamos olhar bem ao nosso redor, mas as condições estão dadas.

Um bom psicólogo estoico precisa entender: o que é a natureza que se afirma na superfícies? É o incorporal, é a diferença enquanto devir que se afirma. Toda efetuação é uma diferenciação. A lógica estoica é a lógica dos acontecimentos incorporais. Fluxo contínuo de causas e efeitos que se implicam. Corpos que se diferenciam ao se encontrar. Não há mais gêneros e espécies (Aristóteles é jogado fora). As essências não estão mais em outro mundo, não são mais formas ou objetivos (adeus mundo das ideias platônicas). O que quer a força? Afirmar-se, não importa pra onde e não sabemos onde isso vai dar. A altura é demolida para dar lugar à superfície lisa onde os corpos deslizam.

Rio heraclitiano batizado de devir. Não há outro caminho, é preciso pular. Olhar, compreender, procurar o melhor lugar, mas definitivamente e fatalmente pular. Os estoicos querem apenas uma coisa, estar à altura do acontecimento! Uma psicologia é necessária para esta tarefa! Sim, porque o rio continua seu curso, queiramos ou não. As forças do mundo se afirmam e nós estamos aqui, sem escapatória. A lógica dos acontecimentos dará a base para a psicologia estoica. Qual a clínica? Estar à altura do que nos acontece, ser digno daquilo que nos acontece! Dizer sim!

Se o estoico busca viver conforme a natureza, se ele emerge da falsa profundidade para a superfície, ele invariavelmente vai encontrar os acontecimentos! E um psicólogo estoico certamente não nada tanto para morrer na praia! Precisamos aprender a querer o acontecimento, a dizer “venha, eu o afirmo não importa o que seja”, o chamamos, confiantes de que estaremos preparados para ele.

Estar no acontecimento é estar preparado para os encontros, é de alguma forma se colocar na situação de modificação, de diferenciação. O acontecimento é o meio do que conhecíamos e do que ainda não sabemos. Não vivemos apesar do acontecimento, mas para ele e com ele. Vivemos para o encarnar. O encontro é nosso suporte, crescemos nos afetos, apenas com eles!

Viver conforme a natureza é encontrar na superfícies dos encontros o que convém, é selecionar para diferenciar. Afirmar aquilo que gera a diferença na própria diferença. O acontecimento é nosso ser se afirmando plenamente no encontro! O segredo estoico: o acontecimento se encarna no ser em devir. A potência do ser encontra sua linha de afirmação na composição com outras forças. Querer o acontecimento é colar no devir. A unidade da natureza se afirmando na pluralidade dos encontros.

- Leminski
– Leminski

Mas como afirmar-se plenamente? Como podemos dizer sim a tudo? Um estoico seria capaz disso, afirmar até a dor, a miséria, o sofrimento? O acontecimento é efeito dos corpos, ele é a transformação incorporal dos corpos. É o destino de todas as forças essa busca pela efetuação, esta mudança na relação de forças. Esta nova realidade pode nos ultrapassar, pode nos tomar de assalto. O susto, o espanto, a dor, o medo, nos impedem de sermos dignos do que nos acontece.

Para os estoicos, as paixões eram exatamente isso, o despreparo para o que nos acontece, uma desarmonia com a natureza em fluxo. Tudo pode dar errado, tudo pode ser diferente de nossas expectativas. O que fazer? Os estoicos tinham vários exercícios para prepararem-se para os acontecimentos. Tanto físicos quanto mentais (veja aqui). Quando não estamos de acordo com a natureza, as misturas podem impedir nossa maneira de efetuar. Este mau jeito (porque o mal em si não existe, apenas de nossa perspectiva) cria marcas nas quais ficamos presos. O mau jeito, o despreparo, a impotência podem roubar a nossa capacidade de nos efetuar. Ficamos presos na marca, no acontecido, perdemos a superfície, paramos de nadar, paramos de nos efetuar e afundamos!

Nasce o ressentimento,a culpa é dela“, “a culpa é dele“, “a culpa é do mundo que não está aos meus pés“. Nasce a má consciência, “sou um idiota“, “a culpa é minha“, “nunca serei nada“. A pergunta mais importante que os estoicos faziam, essencial para a clínica, fundamental para não perder o devir: Como não se deixar contaminar? Como sermos dignos do que nos acontece?

A resposta é única: entrando no acontecimento, aprendendo a dançar, preparando-se para ele. Dançamos melhor conhecendo o ritmo, a harmonia, os passos, os outros dançarinos. O Estoico é um guerreiro do acontecimento, ele conhece o campo de batalha, as rotas de fuga, as armas, as estratégias. “Venha o que vier, serei digno!”, assim não perdemos a superfície de nós mesmos! Se vou improvisar, quero conhecer ao menos o tom da música.

Quem está em devir não é capturado! Não deixa que uma marca o prenda, ele é mais rápido, quando o acontecimento vem ele está ali, de braços abertos, não perde o bonde, não fica para trás! Mesmo com a dor, mesmo com as dificuldades. Como disse Nietzsche, um momento de alegria justifica todas as dores, até mesmo na doença tiramos algum proveito para nossos momentos de saúde.

Reparem como a psicologia estoica está para além da saúde e da doença, para além da dor e da alegria, ela uma terapêutica profunda contra todo ressentimento e má consciência! Toda escola filosófica tem seus personagens e seu palco. Os estoicos atuavam no pórtico e buscavam incessantemente transformar todo “assim foi” em “assim eu quis“. Dizer sim para o que acontece, porque se está preparado, porque se tem força para isso, porque percebe que tudo faz parte de um mesmo ciclo, de uma mesma natureza. Quando se congela na marca, necessariamente se cai no ressentimento.

- "Tudo vale a pena se a alma não é pequena" - Pessoa
– “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” – Pessoa

Vemos como a psicologia estoica se faz em três tempos, tudo está relacionado: física, lógica, ética. Estes três momentos não são sucessivos, mas simultâneos. A psicologia estoica nos ensina a retomar a superfície, ou seja, lutar e vencer a transcendência; viver conforme a natureza, encontrar dentro dos ciclos o que convém e não convém conosco. Estar à altura do acontecimento, tornar-se imune a todo ressentimento e má consciência. Não há mais teleologia, não há mais fins, não há espaço para a transcendência nos colonizar. O poder dá lugar à potência! A moral dá lugar à Ética!

Como ser estoico? Como pensar um clínica estoica? É simples, deite-se no divã da natureza, utilize a lógica dos acontecimento e diga: “quero estar à altura do que me acontece, quero retomar a superfície dos encontros!“.  Lá onde se vive conforme à natureza, onde conseguimos mergulhar nos acontecimentos, estamos à altura do que nos acontece! Muito próximo do conceito de amor fati, de Nietzsche.

Eis a  impassibilidade estoica, a condição de efetuação, de diferenciar-se na própria diferenciação constante. Tornar-se um fluxo entre fluxos, uma força entre forças. Loucura é desejar diferente, irracional seria pensar de outro modo! Não podemos desejar que as coisas sejam diferentes do que são, apenas o louco quer que os dados virem a seus favor.

O sábio busca a afirmação da natureza de maneira incondicional, quer a sorte esteja ao seu lado ou não. Fazer aquilo que nos cabe, que está em nosso poder, jogar os dados e afirmar não importa o resultado. Eis uma psicologia estoica, em toda sua plenitude.

Texto da série: contra-história da psicologia

- "A Procissão do Calvário" - Pieter Bruegel
– “A Procissão do Calvário” – Pieter Bruegel

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

8 comentários

  1. Oi Rafael, tudo bem?
    Muito legal seu texto. Gostei bastante.
    Tenho uma observação com relação ao seu texto (porque o resto achei ótimo): entendo que há sim teleologia no estoicismo, através da busca da virtude. O formato do télos era, inclusive, motivo de disputa entre os filósofos estoicos.

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