Um novo orgulho me ensinou meu Eu, que ensino aos homens, não mais enfiar a cabeça na areia das coisas celestiais, mas levá-la livremente, uma cabeça terrena, que cria sentido na terra” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, dos Transmundanos

Terra à vista“, grita um dos marujos! Seu brado ressoa do mastro por toda nau, finalmente chegamos!, colocar os pés em terra firme é como ver São Pedro abrindo os portões do céu e dizendo “sejam bem vindos“. Os tripulantes pulam eufóricos na beira da praia, colocam a mão na terra, exultantes, em transe, como em prece, como que fundando uma nova doutrina.

Orientados pelas estrelas, pontos fixos em meio ao fluxo incessante das vagas, frágeis em meio ao mar escandaloso habitados por monstros mitológicos, eles só queria um pouco de consistência, criar um plano para se mover. Para além do bojador havia terra firme, recortando o caos do mar, trazendo o infinito para o seio do finito.

Nossa pergunta é simples e uma só: qual a relação do pensamento com a terra? Alguns dizem que a humanidade nasce de um ser feito de barro. Ora, não é de todo errado, da terra tudo nasce e para a terra tudo volta. Do pó ao pó. A sabedoria da mãe terra é representada pela deusa Gaia. Filha do Caos, Gaia gerou sozinha o mar, o céu e as montanhas, espontaneamente. De uma fertilidade sem fim, Gaia é a força primordial da geração. Falamos de Fogo, Ar e Água, mas é a terra que transforma e dá vida a todos estes elementos.

Eu vos imploro, irmãos, permanecei fieis à terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças supraterrenas! São envenenadores, saibam eles ou não” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, Prólogo

Os filósofos antigos colocaram a terra no centro do universo, mas de uma maneira bem diferente da visão cristã. A terra é a hybris, o elemento primordial, puro, diríamos, parte de nosso contato íntimo com a existência. Gaia, fertilidade eterna, útero primordial, fonte infinita. A terra é a coisa em si e para os outros. Faz sentido? E Zaratustra, como bom filósofo amante dos pré-socráticos, não deixa por menos. Ele pede, implora, para permanecermos fiéis à terra, como a única digna de sentido.

Não haveria outro caminho, porque abandoná-la, criar outros mundos, não passa de uma maneira doente de habitá-la. Aqueles que falam de outros mundos, de outras vidas, outras encarnações, ou mesmo aqueles que se perdem demasiadamente no futuro ou no passado, são envenenadores, apenas isso. O corpo que sofre, diagnostica Zaratustra, precisa inventar outras realidades para suportar esta. Mas uma terra é sempre habitada, povoada, tudo depende apenas de que modo isso é. Pode ser de uma maneira doente ou sadia, pelo excesso ou pela falta. Pelo esbanjamento ou pela contenção.

Osnat Tzadok

De modo mais honesto e mais puro fala o corpo sadio, o perfeito e quadrado: ele fala o sentido da terra” – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, dos Transmundanos

Por isso a preocupação de Deleuze e Guattari, que relação o pensamento estabelece com a terra? Como grande desterritorilizadora, a terra é o caos que a tudo engole. Como território, a terra é o suporte do movimento, o plano de imanência traçado para ser povoado pelos mais variados personagens filosóficos e conceitos. É a base na qual queremos deslizar, imprimir movimentos, explorar espaços. Quando falamos de imanência e trazemos a terra como elemento primordial, trazemos a ideia de um campo horizontal que deve ser (re)descoberto. Queremos mergulhar na terra, encontrar suas reentrâncias, suas cavernas, seus desfiladeiros, fundar uma ética telúrica onde a anarquia esteja coroada.

Quem um dia ensinar os homens a voar, deslocará todos os marcos de limites; os marcos mesmos voarão pelos ares, e esse alguém batizará de novo a terra – de ‘a leve’ – Nietzsche, Assim Falou Zaratustra, dos espírito de gravidade

Eis nossa singela perspectiva. Há de se lutar para tornar a terra novamente um lugar leve, onde os deslocamentos aconteçam sem grandes atritos e repreensões. Um espaço liso onde aconteçam encontros! Não mais por hierarquias ou colonizações! Sem mediações de qualquer tipo além da própria potência de afirmar-se! Sem faltas de qualquer tipo, porque tudo que a terra produz, sabemos bem, é por excesso! Queremos povoar um deserto, fazer deste mundo o nosso mundo, encontrar uma ética do dispêndio em uma terra de bonanças.

Não nos surpreende Deleuze definir a filosofia como Geofilosofia, há a necessidade de retornar para os problemas deste mundo, desta vida. Geo porque um campo de imanência precisa sustentar tudo, para não afundar no caos e no cinza das indeterminações. Partimos da Terra, para embarcar no mar, para voar, para queimar, mas sempre para retornar a ela, sem nunca realmente termos partido. Chegar e partir, mas sempre na imanência, tal como os nômades que carregam a casa pelo caminho por onde passam. Terra, nossa mãe, a geradora, a que tudo cria! Não haveria caminho mais alegre para nós seguirmos.

Terra! Terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?…

Texto da série: Imanência

Osnat Tzadok

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

4 comentários

  1. Falar de Terra, do cosmos e de Imanência, tudo junto, combina muito bem, eu acho.
    Quero deixa aqui um poema que dialoga com este texto que me inspira.

    Vulcão, orgasmo cósmico

    Gozo vulcânico do cosmos
    De montanhas e mares
    Que se acariciam por eras.
    De Amores ancestrais.
    Formas fálicas e cavidades profundas
    E quentes.
    Erupção incontrolável sedimentada e excitada
    Pelo tempo geológico.
    Oh! Templo de Amores sagrados!
    A natureza copula!
    (Vera Castro)

    Curtido por 1 pessoa

  2. Vi um post de Boff sobre um poema de Nietzsche “oração ao deus desconhecido”, pelo que soube, ele foi escrito em 1864, quando Nietzsche tinha seus 20. O escrito foi posterior a ” Fado e História”. Leonardo Boff parece querer imitar em Nietzsche o gesto de Paulo no que tange a interpretação. Mas achei um pecado isso. Você acha que o deus desconhecido é mais grego ou cristão nesse poema de Nietzsche? Eu não vi nenhuma produção acadêmica a esse texto.

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