Anaxímenes nasceu, provavelmente, no ano 585 a.C., e sabe-se que morreu durante a 63a. Olimpíada, isto é, entre 528 a.C. e 525 a.C. De sua vida nada mais é conhecido…” – Gerd Bornheim, Os filósofos pré-socráticos, p. 28

Alguns filósofos viveram em um tempo onde ainda era possível filosofar na imanência, sem apelar a outros mundos para dar sentido a este. Sabemos de Anaxímenes tanto quanto da brisa que nos refresca o rosto: seu chegar e ir, nada mais. O pensamento do filósofo é como o sopro de ar que entra pelas frestas de nosso cérebro. Por isso é preciso sempre deixar nosso pensamento arejado, para não contrair doenças.

Como nossa alma, que é ar, nos governa e sustém, assim também o sopro e o ar abraçam todo o cosmos” – Anaxímenes, Os Pensadores

Sabemos de Anaxímenes ainda uma outra coisa: tudo é ar! Tudo se define por sua condensação e rarefação! Sim, vemos isso claramente: o ar, quando bem distribuído, fica invisível, não é notado, passa quase desapercebido, mas torna-se cada vez mais aparente conforme vai sendo concentrado e condensado, até tornar-se líquido e assim por diante. A Terra flutua no ar, tudo que a rodeia e sustenta é ar, cada vez mais rarefeito.

Anaxímenes dizia inclusive, séculos antes da física moderna, que as estrelas eram pedaços da terra que haviam se descolado, e conforme subiam ia se tornando cada vez mais rarefeitas, até virarem fogo. Sendo assim, podemos admitir que existem muitos outros mundos, não apenas o nosso, mas tudo estava no mesmo plano. O próprio céu noturno tornou-se ar! Não é lindo? Esta é a substância fundamental da qual tudo deriva. A existência, como um todo, é uma lenta respiração. Um eterno inspirar e expirar…

– Osnat Tzadok

Este filósofo é o último da escola de Mileto e é bom ver o que era filosofar longe da sombra do socratismo e do cristianismo. A alma é feita de ar, não há pecado original nem paraíso perdido. Apenas um sopro que em nada se assemelha a maldições e julgamentos finais. Não há conciliação entre ar e impurezas. O fogo é ar rarefeito; a água, ar condensado. Ou seja, tudo depende do grau de condensação da substância original. Tudo é proximidade. Não temos muito a aprender com os pré-socráticos? Sabemos pouco de condensação para aplicá-la na ética cotidiana.

É a cláusula maior, por banal que possa parecer, para a filosofia, para a escritura, para a vida: é preciso que uma corrente de ar passe” – Peter Pal Pelbart, O Avesso do Niilismo, p. 373

Quando falamos de Anaxímenes, e sua substância fundamental, falamos de imanência! Falamos das massas de ar que sobem e descem no nosso planeta, sem nenhuma finalidade a completar. Está tudo aí! O prazer da imanência anaxímena é o puro soprar: o vento que insiste pelas frestas e teima na descontinuidade, uma brisa, para nos relembrar os prazeres da vida; um vento de degelo, para derreter valores glaciais; um tornado para derrubar Ídolos!

Fora com deuses e outros mundos! Fora com a metafísica! A virtude da filosofia pré-socrática é traçar um plano de imanência e inventar conceitos neste mundo, para dar conta desta realidade. O sopro divino não é de uma entidade superior e vingadora, ele é o próprio soprar da existência, contínuo e infindável. Anaxímenes procura uma ética zéfira, que se afirme pela própria força de suas rajadas, por sua capacidade de fluir como uma brisa de verão ou um ciclone destruidor.

E nós? Ora, nada é esquecido na imanência, somos também um sopro, uma respiração, um fenômeno atmosférico, uma corrente de ar que passa. Cabe a nós tornarmo-nos meteorólogos, afinal o que entendemos de fenômenos climáticos? Não é a vida inteira uma imensa previsão do tempo? Se trazemos escalas, termômetros e medidores é apenas para estarmos mais bem preparados para o tempo ruim.

Anaxímenes seria uma grande navegador, pois saberia que nenhum vento é favorável ao barco que não sabe para onde quer ir. Para aprender a velejar é preciso entender das correntes de ar que nos atravessam. É tudo uma questão de condensação… não queremos que um tornado arranque o telhado da nossa casa de surpresa.

Nos tornamos amantes do ar, queremos uma filosofia olfativa, exatamente porque os odores foram banidos do pensamento. Precisamos aprender a pensar com o nariz, porque esquecemos que a vida é o mais raro perfume. Queremos nos alimentar dos ventos, como as grandes hélices que geram energia eólica! O que há de errado nisso? “Não”, dirão os queimadores de carvão, “nossa energia precisa ser cinza e sufocante”. Mas nós rimos como Zéfiro, deus dos ventos, que soprava do oriente e tornava os cavalos velozes.

Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido – Alberto Caeiro

Anaxímenes nos ensina a amar uma única substância, o ar, e tudo o que deriva dela. Podemos ser pesados como uma tempestade tropical ou leves como a brisa primaveril. O vento é aquilo que passa pelas bordas, porque não pode parar ao encontrar um obstáculo, o vento é aquilo que insiste por todas as cavidades, mostrando que tudo que chamam de hermético é ilusório. O vento sopra trazendo renovação, porque o homem é demasiadamente fechado, entupido, flato.

Que viver na imanência seja como empinar pipa. Aproveitando os ventos bons nós aprendemos também a tornamo-nos leves, e planar em diferentes modos de vida:

Entre os ventos meridionais. — A: Não me compreendo mais! Ainda ontem estava tão tempestuoso em mim, mas tão quente, tão ensolarado — e claro ao extremo. E hoje! Tudo está quieto, amplo, triste, sombrio, como a laguna de Veneza: — eu nada quero e respiro profundamente, mas estou intimamente contrariado com esse nada-querer: — assim vão e vêm as ondas, no lago de minha melancolia. — B: Você está descrevendo uma agradável doença menor. O próximo vento do nordeste o livrará dela!” – Nietzsche, Aurora, 492

– Osnat Tzadok

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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